ISSN 1980-8372
Ano 1º - N.º 01 Dezembro de 2004
Paixão e Astúcia da Razão
Alessandra Uchôa Sisnando - Mestranda de Filosofia da UFPE, membro do Grupo Hegel Recife.
Resumo
O presente artigo trata de questões da filosofia da história de Hegel, procura identificar o fio condutor do processo histórico no entrelaçamento da paixão - que faz do sujeito o si-movente, que se constituindo a partir das condições históricas ele mesmo é produto e produtor da história – e das forças interativas no Espírito Absoluto.
Palavras-chave: Absoluto, Espírito, Paixão, Astúcia da Razão.
Salta à vista, para quem vai além dos manuais, que a obra hegeliana vem sendo “mal interpretada” em vários de seus elementos, categorias e conceitos básicos, o que conseqüentemente gera inúmeros equívocos de interpretação do todo pretendido por Hegel. Sem a pretensão, e com a humildade que cabe a um estudante inicial da obra deste filósofo, achamos adequado o esclarecimento de alguns termos que o uso descuidado faz destoar do seu sentido original e assim conduzem a compreensões, no mínimo, engenhosas e certamente destorcidas.
O incômodo suscitado em nós por tamanhas incongruências entre os diversos pontos de vista acerca da obra hegeliana foi particularmente sentido no que diz respeito às concepções da História (no tocante à idéia de término do processo histórico), da liberdade humana e do Espírito Absoluto.
Todos esses pontos, nós buscaremos tratar aqui a partir de dois termos que permeiam a obra de Hegel e que nos ajudam a compreender o sujeito hegeliano frente à História Universal. Tais termos dão, portanto, título ao presente trabalho: Paixão e Astúcia da Razão. Partindo daí, pretendemos mostrar que a liberdade humana em Hegel é preservada em um movimento dialético de tensão entre as forças interativas da sociedade civil, no qual o sujeito faz a si mesmo num processo permanente de construir-se e que não há em Hegel, como afirmou Karl Löwith, em seu livro “O Homem no Centro da História”, uma teologia ou teoria da Salvação – Como realização do espírito do cristianismo a História do mundo é uma teodicéia, uma justificação de Deus na História[1].
Acreditamos que pela complexidade do sistema hegeliano, a interpretação apressada de frases, acaba por deturpar e, sobretudo, impossibilitar a compreensão da obra do filósofo. Isso porque Hegel opera, ao longo de seus escritos por suprassunção (Aufhebung), o que quer dizer que cada passagem conserva, nega e eleva a passagem ou trecho anterior e que, portanto, uma frase solta revelaria apenas um instante da obra, mas não certamente todo o seu significado.
Vetores da História – Paixão e Astúcia
“Podemos dizer que nada de grande
se realizou no mundo sem paixão”.[2]
De inicio trataremos da Paixão, sendo este um termo central para compreensão do sujeito hegeliano, como podemos notar na frase citada acima.
Desde uma perspectiva puramente epistemológica, já na Fenomenologia do Espírito, discorrendo sobre a ciência e o saber científico, Hegel havia escrito que: O belo, o sagrado, a religião, o amor são a isca requerida para despertar o prazer de mordiscar. Não é o conceito, mas o êxtase, não é a necessidade fria e metódica da Coisa que deve constituir a força que sustém e transmite a riqueza da substância, mas sim o entusiasmo abrasador.[3]
Com efeito, já temos aqui a desmistificação de um Hegel adepto de um determinismo finalista religioso estreito, que apenas enxerga na História uma ‘mão invisível’ da Providência conduzindo a humanidade a um fim pré-concebido, delineado numa suposta teoria da salvação, pois como citamos não são, portanto, o belo, o amor, o sagrado e a religião a substância mesma que move o conhecer e a realidade humana, antes é o entusiasmo abrasador, o êxtase ou se se prefere a paixão.
Segundo Hegel: Dizemos, pois que nada se produziu sem o interesse daqueles cuja atividade tem cooperado. E se chamamos paixão ao interesse no qual a individualidade inteira se entrega – com o esquecimento de todos os demais interesses múltiplos que tenha e possa ter – e se fixa no objeto com todas as forças de sua vontade, e concentra neste fim todos os seus desejos e energias, devemos dizer que nada de grande se tem realizado no mundo sem paixão. A paixão é o lado subjetivo e, portanto, formal, da energia da vontade e da atividade – cujo conteúdo ou fim fica ainda indeterminado -; do mesmo modo que na própria convicção, na própria evidência e certeza. O que importa então é o conteúdo que tenha minha convicção, e igualmente o fim que persiga a paixão, e se um ou outro é de natureza verdadeira. Porém, o inverso, se o é, então, para que entre na existência, para que seja real, é necessário o fator da vontade subjetiva, que compreende tudo isto: a necessidade, o impulso, a paixão, igualmente a própria evidência, a opinião e a convicção.[4]
Como podemos compreender, Hegel denomina de paixão ao interesse subjetivo, particular de cada indivíduo e nos diz que nada pode realizar-se sem a cooperação desta. A paixão, portanto, é o elemento central com o qual o indivíduo se fixa num determinado objeto. Nada acontece sem a energia expressa pela paixão, é ela que conduz o homem o desejo do que lhe falta e, portanto, ela é subjetividade pura. De forma que podemos considerar que, ao contrário do que afirmam alguns, a teoria hegeliana põe grande ênfase na questão da liberdade humana, sendo nesta, ou em outras palavras, na subjetividade da vontade do sujeito que nascem as paixões. Paixão daquilo que lhe falta. Paixão que lhe é inteiramente livre para conduzi-lo a determinado objetivo.
Sendo desta maneira, fica bastante evidente que o homem implementa a liberdade e que, portanto, referir-se a obra de Hegel como possuindo um determinismo finalista de caráter teleológico, que visa à salvação para o sujeito nos moldes do cristianismo, como afirmou Karl Löwith, seria um absurdo completo e totalmente contrário às considerações de Hegel. Esse homem que é livre é o homem que busca ao longo da história apenas realizar a idéia de liberdade e nisso não está implícita qualquer afirmação de um avanço constantemente progressivo no sentido da salvação do homem. Por outro lado, na história ou, melhor, ao longo desta sempre estará presente a força do negativo, como aquilo que falta, e que se por um lado impulsiona o homem no sentido da sua realização, por outro, o conduz a árduos trabalhos e momentos de total perda de rumo, momentos esses que para alguns significaram a falta de razão na história, mas que para Hegel nada mais é que a força desse negativo que se presentifica para provocar toda a inquietação que acarretará a mudança.
Seria correto então, afirmar que há um fio condutor da história, que como citamos anteriormente seria a realização da idéia de liberdade, mas não um fim determinado. Tal fio condutor apenas nos mostra que há uma razão na história, que os acontecimentos não se dão ao acaso, mas antes são guiados pelo desejo de realização da liberdade, que por sua vez é um desejo infinito, de tal sorte que não há um momento da história que nos traga a liberdade como acabada, no sentido de plenamente realizada. Como fio condutor ela é tão fugidia quanto o é a própria vida humana, em outras palavras, ela jamais será plenamente realizada, porque sua realização hoje implica necessariamente um novo horizonte que se estende e se abre em novas possibilidades, novas faltas e novos desejos.
A história da humanidade, afirmou Hegel, confunde-se com a história de realização da liberdade, e, portanto, não tem um final, é antes um eterno produzir-se. Sendo assim, nada mais longe de Hegel do que a afirmação que lhe atribuem de que a história teria terminado em Berlim, no reinado de Frederico II, como afirmou Fukuyama, em seu livro “O Fim da História e o Último Homem”. Seria ingenuidade ou pura manipulação do texto de Hegel qualquer interpretação que não se limite apenas a considerar que ali o filósofo falava do fim daquele momento histórico, ao qual obviamente se sucederiam infinitamente outros.
Como considerou Jacques D’Hondt: Se, como convém fazer, se entende por história a sucessão progressiva dos acontecimentos humanos passados, é indubitável que na época de Hegel esta caravana se detinha na Europa: ali se manifestavam a atividade econômica mais desenvolvida, a vida cultural mais intensa, a ciência mais evoluída, a organização política e social mais moderna.[5] De forma que, a visão da história para Hegel era retrospectiva, tudo o mais que se quisesse dizer seria como uma tentativa de predizer o futuro, o que na concepção hegeliana é insustentável. Nas palavras do próprio Hegel: Na história nos ocupamos do passado.[6] Na realidade, Hegel, não considerava a sua filosofia da história mais que uma re-interiorização filosófica do passado humano; e este se encerra necessariamente no presente.[7]
Compreendendo a história como um conjunto de acontecimentos que suprassumem, com uma coerência racional, poderíamos nos questionar: de que forma então, tal razão lança mão das paixões subjetivas para realizar suas necessidades ou se se prefere, para realizar a idéia de liberdade ao longo da história? Como tínhamos afirmado este, a realização da idéia de liberdade, é o fim último do Espírito Absoluto, mas tal só pode ser efetivado pelo ato humano, de tal sorte que o homem está destinado a realizar o Absoluto, no qual esse mesmo homem foi forjado, mas que por outro lado, o Espírito Absoluto não pode realizar-se sem a subjetividade humana, que o realiza na medida em que age, em que produz ou atua. Essa trama implica necessariamente que as paixões particulares acabem sendo convertidas em necessidades do Espírito, a essa figura Hegel denominou “Astúcia da Razão”, que nada mais seria do que o momento no qual a história transfigura um ato particular convertendo-o num momento de todos. Para que tanto se realize, é bom que notemos bem, que o sujeito que realiza tal ato – denominado de homem histórico – ao buscar efetivar suas paixões consegue ao mesmo tempo, encarnar o desejo do povo, que vê nele, no homem histórico, a concretização de suas próprias paixões.
Entretanto, o próprio Hegel admite que o homem histórico sempre tem um fim trágico e aqui cabe que tentemos compreender uma outra figura central e constantemente mal interpretada na obra hegeliana, o chamado Espírito.
Para Hegel o homem só é na medida em que é espírito, o verdadeiro nascimento seria no momento posterior ao nascimento biológico, seria o momento no qual o homem torna-se Espírito. Este termo é muitas vezes considerado como a cultura, outras vezes, como nada se processa fora dele, pode ser considerado como o próprio Deus, o que acaba por gerar uma série de interpretações mirabolantes da teoria hegeliana. De fato, enquanto Espírito que tudo engloba, do qual nada escapa, tal concepção pode ser considerada com toda a onipotência e onisciência que só atribuímos ao ser supremo chamado Deus, mas fica claro que o Espírito Absoluto, chamemo-Lo de Deus ou de Cultura, é o ponto chave da teoria hegeliana, que, ao contrário das teorias vigentes até aquela época, torna bastante tênue a linha que separa o homem do Absoluto; pois que o ápice do sujeito hegeliano, ou seja, ele mesmo Espírito que se sabe enquanto Espírito, conduz o sujeito fatalmente a conhecer o Espírito, condição sine qua non para tornar-se verdadeiramente sujeito, ou melhor, si mesmo.
As várias diferenciações atribuídas ao Espírito seriam apenas as faces com as quais o sujeito se relaciona com o Espírito. Num dado momento, seriam, pois, manifestações do Espírito Absoluto. Sendo o espírito do mundo o conjunto dos valores culturais vigentes num dado momento. Enquanto o espírito do tempo corresponderia ao conhecimento científico, que sempre está à frente do espírito do mundo. É justamente desse descompasso entre o espírito do mundo e o espírito do tempo que determina o impulso para a mudança, mas também é o que provoca as crises, e como mencionamos anteriormente é o que causa o fim trágico ao homem histórico, pois esse quando implementa a mudança acaba por ferir ao espírito do mundo, que resistente ao novo, vinga-se dele.
Em conclusão, diríamos que muitos mal entendidos quanto à filosofia da história de Hegel decorrem de querer interpretá-lo desde uma perspectiva da teodicéia tradicional, como no caso de Löwith, baseada na idéia de um Deus que governa o curso do mundo como um tirano absoluto e os homens se encontrariam como súditos cuja liberdade consistiria, quando muito, na obediência à vontade divina.
Na verdade, desde a perspectiva hegeliana o “Absoluto é essa essência
bondosa que se entrega ao homem, nele se dilacera e cobra dele a sua
efetividade”; significa dizer que cabe ao homem, enquanto espírito finito,
tornar realidade efetiva a manifestação do Absoluto na História.
Referências
Bibliográficas
D’Hondt, J. – Hegel, Filósofo de la historia viviente. Buenos Aires. Amorrortu Editores, 1971.
Fukuyama, F. – O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro. Rocco, 1992.
Hegel, G. W. F. – Fenomenologia do Espírito. Petrópolis. Vozes, 2002.
-
Lecciones
sobre la filosofia de la historia universal.
Madrid, Alianza Universidad, 1989.
Hyppolite, J. – Introdução à filosofia da história de Hegel. Lisboa. Edições 70, 1983.
Löwith,
K. – El hombre en el centro de la historia. Barcelona. Herder, 1997.
[1]
Löwith, K. – El Hombre en el centro de la historia, p.155.
[2]
Hegel, G. W. F. – Lecciones sobre la
filosofía de la historia universal, p. 83.
[3] Hegel, G. W. F. – Fenomenologia do Espírito, §7, p. 29.
[4]
Hegel, G. W. F. – Lecciones sobre la
filosofía de la historia universal, pp.83, 84.
[5]
D’Hondt, J, - Hegel, filosofo de la historia viviente, p. 109.
[6]
Hegel, G. W. F. – Lecciones sobre la
filosofía de la historia universal, p. 583.
[7] D’Hondt, J. – Op. cit. p. 108.