ISSN 1980-8372
Ano 1º - N.º 01 Dezembro de 2004
O nascimento da intersubjetividade na Fenomenologia do Espírito
Danilo Vaz-Curado Ribeiro de Menezes Costa - Mestrando em Filosofia pela UFPE
RESUMO: Neste artigo busca-se elaborar e apresentar a concepção da idéia da superação da subjetividade como uma inovação inerente ao pensamento Hegeliano, através de uma prévia delimitação da subjetividade tal qual se construiu na tradição filosófica, após o que buscar-se-á apresentar sua superação no pensamento de Hegel, demonstrando como tal tema se apresenta na Fenomenologia do Espírito de 1806.
PALAVRAS CHAVES: Subjetividade Intersubjetividade Hegel
ABSTRACT:
The objective of this essay is to present the superation of the conception of
subjectivity in the hegelian thought, trough a delimitation of the subjectivity
in which was built the philosophical tradition. In a second moment will be
presented the superation of subjectivity on the hegelian thought, as it was
demonstrated on his “Phenomenology of Spirit", 1806.
Key Words: Subjectivity Intersubjectivity Hegel
Introdução
A modernidade encontra seu marco iniciático na historiografia filosófica em dois pólos superpostos e dependendo do viés hermenêutico adotado dará preponderância a uma concepção de razão e da prática racional prevalente, e assim dividem-se os historiadores[1] da história da filosofia entre Descartes e Hobbes como os autores que encarnam essa mudança paradigmática do pensamento ocidental, exatamente por serem seus modelos, tanto heurístico como hermenêutico, modelos de pensamento da subjetividade, o primeiro com um viés racionalista e o segundo acentuadamente empirista.
Essa nova concepção interpretativa do mundo circundante irá promover a suprassunção dos antigos postulados que se estabeleceram desde a Jônia do VI século a.C e atingiram sua ápice com a renascença, compreendendo essa revolução do pensamento
“...na passagem de um paradigma organicista, de predominância vitalista, ainda dominante na renascença, para um paradigma mecanicista, de predominância físico-matemática, que presidirá à primeira forma de razão e guiará o primeiro estilo de prática racional na última modernidade ocidental – a nossa”[2]
Essa mudança de paradigmas de um modelo essencialista para um modelo poiético, implica a desestruturação das denkforms então vigorantes, fazendo a inversão de um modelo demiurgico que se sustentava num plano inalcançável – o das idéias - para um outro onde o agir e o operar do homem concreto determinavam as concepções de liberdade e natureza que então estavam se estruturando, ou seja, a modernidade opera a passagem da concepção de um ente demiúrgico exterior (Deus) pela demiurgia do homem artifex.
E Descartes a nosso ver mais que Hobbes, inicia com mais vigor e autenticidade esse esvaziamento de um modelo metafísico que não mais correspondia às necessidades de seu tempo, re-elaborando uma nova forma de racionalidade que se estrutura desde a base intelectiva da subjetividade, e que será por nós adotado como marco delimitador das condições de nascimento da modernidade e sua concepção de subjetividade.
As filosofias da subjetividade
A filosofia da subjetividade nasce no pensamento cartesiano em sua forma mais elaborada através de sua exposição sistemática contida nas Meditações Metafísicas e suas objeções, onde procura Descartes, tal qual Arquimedes um ponto firme para a reconstrução em bases certas e evidentes da racionalidade (o cogito), e um fundamento universal comprobatório da verdade do cogito (Deus).
Assim inverte Cartesius a tradição, que outrora indo do ser (física) lograva atingir o conhecer (metafísica), e a partir do pensamento Cartesiano apenas do conhecer (metafísica) ao ser (física) é que o resultado é bom[3], por isso na metáfora cartesiana a metafísica é as raízes de uma árvore que tem a física como tronco e as demais ciências como seus galhos.
A inversão promovida por Descartes[4] ao privilegiar o conhecer como pórtico de acesso ao ser, não é apenas uma inversão de termos, pois desestrutura toda uma forma de pensar construído desde a tradição agostiniano-tomista, abolindo o fosso existente entre o ser e o pensar, ou melhor, identificando-os, inclusive vindo Hegel a dizer que
“René
Descartes es um héroe del pensamiento, que aborda de nuevo la empresa desde el
principio y reconstruye la filosofia sobre los cimientos puestos ahora de nuevo
al descubierto al cabo de mil años. ...el espiritu de su filosofia no es otra
cosa que el saber como unidade del ser y el pensar”[5]
Assim Hegel atribui a Descartes a retomada da especulação filosófica desde seu prumo forte, o logos, como base e centro de sustentação da especulação filosófica, e o logos se expressa na filosofia Cartesiana como sua primeira verdade na ordem das razões, o cogito.
René Descartes ao fundamentar todo seu sistema filosófico sob a capacidade cognoscente do sujeito como resultado da certeza oriunda do cogito, onde o pensar é ser e o ser é resultado da reflexão do pensar, inaugura a marca indelével da modernidade enquanto momento de afirmação das filosofias da subjetividade, ou seja, em Descartes
“... é o conhecimento do eu como
pensante que serve de base a toda a possibilidade de elaboração filosófica,
ou ainda, é, como já se sabe, a primeira verdade na ordem do conhecer, caminho
seguro para se chegar ao ser, pois o conhecer é o ser mesmo em seu
desenvolvimento”.[6]
As filosofias da subjetividade encontram seu maior desenvolvimento nos filósofos do chamado idealismo alemão, entre os quais merece maior destaque Kant e Fichte, o primeiro com a idéia do sujeito transcendental que experiência a realidade através das deduções onde o eu penso observa suas afecções constituindo e tornando possível a unificação do entendimento e todo o processo de construção do conhecimento e o segundo com sua idéia de eu puro prático, para Fichte o Eu é o ponto central de onde se deriva tudo e pelo qual tudo pode ser explicado.[7]
Todavia se o idealismo alemão pode ser historiograficamente assinalado como a etapa filosófica de afirmação dos postulados e categorias Cartesianas, especialmente a subjetividade, como o espaço privilegiado de construção simbólica das relações, formas e instrumentos conceituais dos quais se nutre a essa nova fase da tradição, a modernidade, não se deve olvidar que Kant e Fichte não conseguem ir além da idéia chave do pensamento de Descartes.
Pois se Descartes situa o sujeito como centro e para onde reflui toda a especulação filosófica, Kant e Fichte, grosso modo, apenas fazem o alargamento dos horizontes cartesianos.
Descartes, Kant e Fichte, cada qual com as peculiaridades próprias são filósofos do “eu penso”, que não conseguem ir além da mera subjetividade, onde o espaço dialógico encontra-se tolhido pelas impossibilidades e dificuldades do encontro com o outro-de-si-mesmo.
Assim se Descartes pode ser acusado de erigir um sujeito solipsista, Kant o transforma num observador inerte de suas afecções e Fichte no sujeito que constrói toda sua realidade a partir da dicotômica relação Eu-NãoEu.
E o ponto de encontro entre ambos, Descartes,Kant e Fichte, é o fato de
suas filosofias se construírem em torno de um sujeito que implementa todas as
suas possibilidades desde o isolamento especulativo-filosófico destituído das
relações de intersubjetividade.
Na esteira de continuação da tradição que vai de Descartes a Fichte, Hegel simplesmente não rompe, num corte abrupto o conceito de subjetividade outrora erigido em princípio filosófico, porém a leva as suas últimas conseqüências fazendo brotar de um acúmulo de acréscimos quantitativos, um salto qualitativo, e o nascimento da intersubjetividade tal qual encontra-se, entendemos, exposta na Fenomenologia do Espírito na seção referente a certeza da consciência de si.
Neste ínterim interpretativo o próprio Hegel em alguns textos de sua juventude, já nos dá as pistas de não mais se inserir na seara dos filósofos da subjetividade, é especial e importante para a ulterior compreensão dos textos da maturidade especificamente da superação da subjetividade na filosofia hegeliana, o seu texto de 1802 “Fé e saber: ou a filosofia da reflexão da subjetividade na totalidade de suas formas”, onde esmiúça o pensamento de Kant, Jacobi e Fichte, especialmente na vertente subjetivista de suas filosofias municiando as bases para sua Fenomenologia do Espírito.
A filosofia Hegeliana e a
intersubjetividade
Contudo, qual será a grande transformação paradigmática proporcionada
por Hegel na tradição filosófica e exposta na seção referente à Consciência
de Si? Rememoraremos o périplo da consciência de Si e apontaremos as guinadas
epistemológicas que advogamos se erigem como suprassunção da tradição das
filosofias da subjetividade, para assim tentar extrair as condições de
esclarecimento do nascimento da intersubjetividade.
Contudo mister se faz rememorar a passagem contida no adendo ao § 124, dos Princípios de Filosofia do Direito, onde Hegel estabelece a diferença entre o paradigma sucedido e o moderno, afirmando que
“... o direito da liberdade subjetiva
constitui e ponto crítico e central da diferença entre a antiguidade e os
tempos modernos.”[8]
Todavia, se ainda em 1821 Hegel categoricamente afirma ser a subjetividade a marca dos tempos modernos, parece que estamos advogando uma idéia contrária ao próprio pensamento hegeliano, contudo, e de modo a superar possíveis inconvenientes interpretativos da crítica, cumpre assinalar que já em 1807 na sua Fenomenologia do Espírito, na Introdução, resta delineado as condições de possibilidade do nascimento da intersubjetividade, pois para Hegel já resta claro que
“A consciência é para si mesma seu
conceito; por isso é o ir-além do limitado, e – já que este limite lhe
pertence – é o ir além de si mesma... Portanto, essa violência que a consciência
sofre – de se lhe estragar toda a satisfação limitada –
vem dela mesma”[9]
Com essa afirmação não intentamos destituir de validade ou assinalar possíveis antinomias na interioridade da obra de Hegel, porém asseverar a importância impar da subjetividade, e a necessidade de sua suprassunção, pois “com a consciência de si entramos na terra pátria da verdade”.[10]
E, se em sua Filosofia do Direito, Hegel afirma que a subjetividade é o princípio da modernidade no seguimento da sua obra resta claro que a subjetividade somente se torna efetiva e por isso real, quando mediatizada e reconhecida por outras subjetividades nas diversas esferas de construção e afirmação da sociabilidade, ou seja num contexto intersubjetivo.
Assim, demonstrada a importância indeclinável da subjetividade, iniciaremos a tentativa de exploração da intersubjetividade na Fenomenologia do Espírito, a qual no seu prefácio, Hegel fiel a suas intuições básicas, assevera que
“... a substância viva é o ser, que na
verdade é sujeito, ou – o que significa o mesmo – que é na verdade
efetivo, mas só a medida que é o movimento de pôr-se-a-si-mesmo, ou a mediação
consigo mesmo de tornar-se-outro.”[11]
Resta claro nesta citação do prefácio da Fenomenologia, que Hegel é
um continuador das filosofias das subjetividades, pois explicitamente afirma que
a substância viva é o ser, que na verdade é sujeito, todavia,
esse reconhecimento da importância da subjetividade não significa um adesismo
no sentido ampliador das conquistas dos filósofos da subjetividade, porém,
opera sobre a subjetividade um salto qualitativo que sendo continuação é ao
mesmo tempo rompimento, superação ou usando uma linguagem hegeliana, suprassunção.
As filosofias da subjetividade se constroem sobre o postulado de um termo inicial do qual todo o ulterior sistema filosófico se remeterá, v.g. o cogito, eu penso etc. Ao necessitarem de um ponto inicial abstratamente erigido de modo a dar-lhes consistência, revelam sua face de fragilidade e a impossibilidade de pensar a contradição como inerente a especulação filosófica, assim o cogito Cartesiano, a apercepção originária do eu penso de Kant, e o eu puro de Fichte, por se erigirem a priori aos seus sistemas correspondentes impedem pari passu o encontro com o outro, a força do negativo e a contradição, pois admiti-los seria pôr sob suspeita a base do sistema e por conseguinte sua validade objetiva.
Nas Filosofias da subjetividade é o outro que põe em perigo todas as conquistas do sujeito cognoscente, pois ao ser o sujeito imediato a sede de toda a verdade, encontrar-se com um outro de si-mesmo também não-mediatizado, é defrontar-se com uma outro construção simbólica grávida de verdade e certeza. E é exatamente essa certeza do eu imediato que Hegel vai colocar em jogo.
Hegel critica a necessidade de um ponto fixo e estruturador, como se apresenta contido nas filosofias de Descartes, Kant e Fichte, afirmando que
“Só essa igualdade reinstaurando-se, ou só a reflexão em si mesmo no seu ser-outro,
é que são o verdadeiro; e não uma unidade originária
enquanto tal, ou uma unidade imediata enquanto tal.[12]”
E é a impossibilidade da mediação e do retorno sobre si mesmo que será às filosofias da subjetividade o alvo de crítica e acusações de solipsismo. A imobilidade resultante da postura indutivista das filosofias da subjetividade, Hegel opõe a idéia do efetivo como automovimento, ou vir-a-ser de Si-mesmo em mediação permanente com o outro.
Sucintamente pontuadas as críticas de Hegel a seus antecessores é importante a análise da estruturação da verdade da certeza de si mesmo da consciência de si, sob pena de parecer que a crítica de Hegel restou feita desde fora, no sentido de uma retaliação externa que atinge o resultado sem percorrer as sendas do caminho, pois a realidade efetiva consiste no caminho mais o termo[13].
Ao analisar o saber que coincide com sua própria certeza, pois é marca da subjetividade ser a sede do conhecer que seguindo a tradição Cartesiana se identifica com o Ser, Hegel estabelece no próprio pórtico de entrada de sua análise da consciência (e da subjetividade) sua suprassunção ao afirmar que o Eu é o conteúdo da relação e a relação mesma[14].
O coroamento da subjetividade no sistema Hegeliano dá-se na Fenomenologia através do desdobramento da consciência de si em 04 momento superpostos: desejo, vida, outro de si e o reconhecimento, e é deste imbricamento que se erguem as condições de compreensão do Eu que é nós e do nós que é Eu.
A consciência de si no seu processo de autoconhecimento ao desdobrar-se
em 04 momentos que apenas didaticamente podem ser analisados abstratamente,
confere a processualidade necessária para a compreensão do movimento do
conceito e da necessidade da mediação na construção do ser que é conhecer.
O desejo e a Vida
A Fenomenologia demonstra como necessariamente a compreensão do sujeito necessita do movimento de retorno da consciência sobre si-mesmo, e essa busca de re-encontro ou de uma unidade interna dilacerada pelo entendimento, recorrerá ao meio externo, a um outro de si mesmo, para poder efetivar sua identidade.
Todavia, esse movimento de retorno sobre si despertará a consciência
para a necessidade de encontrar fora de si sua unidade e é exatamente esta ir
atrás de Si que determinará a primeira característica da consciência de Si,
o fato de ela ser desejo de Ser.
Assim descobrindo-se desejo que não satisfaz-se pois
“O desejo é esse movimento da consciência que não respeita o ser, mas o nega, isto é, dele se apropria concretamente e o faz seu. Tal desejo supõe o caráter fenomênico do mundo, que só é um meio para o Si.”[15]
E exatamente por não se satisfazer com a mera posse dos objetos que adquire para-si em sua busca de unidade que a consciência tem perante si um duplo objeto: um imediato marcado pela negatividade e a si próprio como objeto de satisfação e unidade.
Ao descobrir a negatividade do movimento dúplice do desejo, a consciência
descobre-se na descoberta de si própria, e esse objeto do desejo
necessariamente tem de ser o vivo, ou a Vida,
haja vista que na consciência de si, Hegel já alertara, é o estágio da
identificação entre sujeito e objeto, não encontrando mais a consciência sua
identidade fora de si em objetos ou coisas, porém apenas no vivo que
inicialmente com Ela se identifica.
Advirta-se que a vida não se refere a um organismo particular ou a um ser determinado, porém antes é uma processualidade, ou o meio em que se dá as correspondências entre significante e significado, ou entre significado-significante. Sem que ainda o saiba o desejo descobre a vida como meio de sua realização, porém sua busca já é pelo outro-de-si.
Herbert Marcuse, em tese de Doutorado orientada por Martin Heidegger reduz a filosofia Hegeliana a uma ontologia da Vida, numa postura que reduz, a filosofia de Hegel a uma relação onde o conceito de vida seria o nexo ontológico explicativo do conceito de espírito e este se apresentaria como resultante da mobilidade da vida ou do vivo[16].
E se Marcuse privilegia essa inovação Hegeliana do conceito do Vivo, a idéia de Vida em Hegel é uma das categorias filosóficas mais difíceis de se trabalhar, tendo inclusive sem o mencionar diretamente, Jean Hyppolite feito um crítica direta e severa a Marcuse ao afirmar que seria errôneo dizer que a intuição fundamental do hegelianismo fora “o ser da vida em geral”, como mobilidade por exemplo[17].
Outro grande estudioso da obra de Hegel, Nicolai Hartmann, em seu magistral livro A Filosofia do Idealismo alemão, diz que
“... a vida é uma e é vivida como
unidade, como processo e fluidez universal. O todo é um círculo e este
constitui a vida. A sua verdade não está nas fases, mas sim no todo que se
desenvolve, que resolve o seu desenvolvimento e que se conserva simplesmente
neste movimento”[18].
Seremos fiéis a Hegel, em meio a este embate acerca da idéia do Vivo
em seu pensamento e o conceituaremos com as palavras da própria Fenomenologia
do Espírito, que diz ser a vida, ou melhor, o Vivo.
“... meio fluido universal, que é um tranqüilo desdobrar-se em leque das figuras, a vida vem-a-ser, por isso mesmo, o movimento das figuras, isto é, a vida como processo. A fluidez universal simples é o Em-si; a diferença das figuras é o outro... a vida como ser vivo.”[19]
Em sua figuração onto-gnoseológica os conceitos de Vida e a reflexão do movimento do desejo, despertam a consciência de si a necessidade de mediação e de busca do para-si através de um meio dúplice: pois a consciência é sabendo-se de si num meio exterior através de um outro de si.
A consciência nestes dois momentos desejo e vida faz a experiência de que a sede de sua verdade não pode se enclausurar no núcleo do sujeito, e a isso Hegel insinua constantemente pois o desejo é de outro de si mesmo e a vida é o meio fluido de encontro consigo através da experiência do outro, enquanto processo.
Disso resulta que a consciência enquanto movimento e lançar-se para frente não poderá se suprassumir enquanto não extrusar o núcleo da relação (vida e desejo), pois ainda estabelece relações negativas chegando no máximo a reproduzir (o desejo) ou se auto-centrar de forma não-meditizada como suposta verdade do vivo.
Ao descobrir a impotência de encontrar sua unidade em-si, a consciência, na vida que é desejo, desejar-se-á através de um outro, não enquanto gênero como no processo da vida, mas desejará um outro de si mesmo, um sujeito concreto.
Aqui o sujeito (consciência de si) sem ainda saber, já confirma as bases da filosofia da intersubjetividade, pois do encontro com o outro, nascerá o mundo novo prometido pela Revolução Francesa e conceitualizado pelo Idealismo alemão[20].
O Outro de Si-Mesmo e o Reconhecimento
Verificado que a negatividade do desejo e a processualidade do conceito de vida não pode se dar a efetivar sem o veículo de confirmação da verdade do sujeito, enquanto relação que busca a unidade num outro de si, em suma reconhecimento, entramos propriamente no segundo momento da consciência de si[21], pois se nos anteriores desejo e vida a consciência não conseguia re-encontrar sua unidade e dar efetividade a sua existência, agora ela se lançará a tarefa de descobrir-se num outro através do seu reconhecimento.
Neste segundo estágio - outro-de-si e reconhecimento - encontramos justificativa para a assertiva de Hegel contida na Fenomenologia do Espírito de que com a consciência de si entramos na terra pátria da verdade, tanto do sujeito e do objeto, pois agora a consciência de si sabe-se tanto como sujeito quanto como objeto para-si mesmo.
Agora a consciência de si experimentará a negatividade frente a outro sujeito de si mesmo, que pode fazer sobre si tudo que faz sobre um outro e vice-versa, essa experiência da tragicidade da vida e da construção da subjetividade é um dos pontos mais belos do pensamento hegeliano, pois o encontro com um outro de si mesmo indica ao sujeito que toda a verdade que ele acredita ser possuidor também reside em igual medida no outro, essa igualdade extrema dos desiguais, provocará uma luta de vida ou morte pelo reconhecimento.
O outro enquanto sede da sua verdade e elo de possibilidade da unidade perdida desperta a consciência para a necessidade do encontro, da partilha, das relações de intersubjetividade, pois, só dentro de um contexto intercomunicativo[22] pode se estabelecer a verdade do sujeito, ou melhor do Eu que é nós e do Nós que é Eu.
Na experiência do reconhecimento proporcionada pelo encontro de um outro de si mesmo, a subjetividade se desacopla do solipsismo da tradição subjetivista encontrando o porto seguro
“a partir do qual se afasta da aparência
colorida do aquém sensível, e da noite vazia do além supra sensível, para
entrar no dia espiritual da presença”[23].
Assim o reconhecimento exsurge da necessidade do enfrentamento da verdade do outro para dela extrair a verdade de si-mesmo, todavia, ao experiênciar a dialética do desejo numa relação intersubjetiva pelo reconhecimento as consciências viverão a experiência da dissolução de suas certezas.
Assim ao travarem a relação do reconhecimento as duas subjetividades verificarão que
Cada extremo é para o Outro o meio termo,
mediante o qual é consigo mediatizado e concluído; cada um é para si e para o
outro, essência imediata para si essente; que ao mesmo tempo só é para si
através dessa mediação. Eles se reconhecem como reconhecendo-se
reciprocamente”.[24]
E da dialética resultante da luta pelo reconhecimento, a parábola do senhor e do escravo, e seus decorrentes, estoicismo, ceticismo e consciência infeliz, são estágios de efetivação das relações intersubjetivas em seus diversos graus e nuances específicas.
A descoberta da verdade da consciência de Si, como para-si, é o desvelamento da relação do eu com o outro, da substância que é Espírito.
Nas relações de intersubjetividade vividas na busca pelo reconhecimento
através da descoberta do outro de si mesmo, vivenciará
a consciência a experiência de ser toda a realidade, porém esta
realidade é a da comunidades das consciências de si.
A
guisa de conclusão.
Se na introdução à fenomenologia Hegel ao asseverar que a característica fundamental da consciência é necessidade de ir além de si, pois
“... a consciência é para si mesma seu
conceito; por isso é imediatamente o ir-além do limitado, e – já que este
limite lhe pertence – é o ir além de si mesma”[25].
Lança o filósofo suabo as sementes acerca da possibilidade da intersubjetividade, ao afirmar que a verdade das consciências está na dissolução dos sujeitos na descoberta da verdade como residente na relação existente com um outro de si mesmo, neste momento dúvidas inexistem acerca da intersubjetividade como inovação inerente a sua concepção filosófica.
Assim, resta confirmada ser a subjetividade, o Eu, o conteúdo da relação e a relação mesma; ora ser o Ser da relação implica o reconhecimento da verdade da mesma como elo comum entre as consciências de si.
A descoberta do outro e a necessidade do reconhecimento, confirmam o reconhecimento da verdade no subjetivo, porém evidenciam uma espécie de equívoco ao tomar o subjetivo, o Eu, sem se dar conta que o efetivo só pode ser apreendido na totalidade que compreende o termo mais o caminho percorrido; ao desprivilegiar a experiência da intersubjetividade as Filosofias de Descartes a Fichte, não puderam conhecer o conceito de Espírito e vivenciar a experiência inefável da intersubjetividade.
A filosofia da intersubjetividade nasce em Hegel da radicalização violenta dos pressupostos das Filosofias da Subjetividade, pois segundo Hegel ao sujeito é dado este poder mágico de retirar a vida da morte, e ele faz exteriorizar o que internamente era o verdadeiro da relação, a experiência intersubjetiva que doravante será coroada na Filosofia do Direito através da experiência da eticidade.
Assim entendemos, na necessidade intrínseca do Si-mesmo como outro, resta confirmada a quase profética frase da Fenomenologia do Espírito que diz
“O Espírito rompeu com o mundo de seu
ser-aí e de seu representar, que até hoje durou; está a ponto de submergi-lo
no passado, e se entregar a tarefa de sua transformação”.[26]
Aqui, esperamos, grosso modo, restam expostas as bases da
intersubjetividade na Fenomenologia do Espírito.
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[1] Entre os que adotam esse
terminologia demarcatória encontra-se entre outros Henrique Cláudio Lima
Vaz, em sua obra “Escritos de filosofia IV – Introdução à ética
filosófica 1.
[2] Lima Vaz: 1999, 296.
[3] Sobre as implicações da proposta Cartesiana na tradição filosófica, cf. MORAES, 2003.
[4] Xavier Zubiri, em seu
magistral texto, Hegel y el problema Metafísico, afirma que é com
Descartes e sua inversão, que chega o
Eu, o sujeito humano, a ser o centro da Filosofia.
[5]
Hegel:1985, 254 e 257.
[6]
Moraes: 2003, 46.
[7]
Sobre a importância do Eu na filosofia Fichteana, cf. o capítulo “ El
primer principio em cuanto tal: el Yo puro” in Navarro: 1975, 110-117.
[8] Hegel, Princípios de Filosofia do Direito. § 124.
[9] Hegel, Fenomenologia do espírito. §80, p. 68.
[10] Hegel, Idem. §167, p. 120..
[11]Hegel, Idibem. §18, 30.
[12] Hegel. Idibem.§18, p.30.
[13] Meneses, Para ler a Fenomenologia do espírito. P. 13.
[14] Hegel, Fenomenologia do Espírito. p. 119.
[15] Hyppolite, Jean. Gênese e estrutura da fenomenologia do Espírito de Hegel.p. 173.
[16] Marcuse, L’ontologie de Hegel et la théorie de l’historicité. 1991.
[17] Hyppolite, Jean. Gênese e estrutura da Fenomenologia do Espírito de Hegel. p. 163.
[18] Hartmann: 1976, 399.
[19] Hegel, Fenomenologia
do Espírito. p. 122.
[20] Na descoberta da verdade da consciência de si, da subjetividade, como contida no outro, ou seja, o si só pode ser através do outro, dá-se, a confirmação do conceito de Espírito, grande inovação da Filosofia de Hegel.
[21] Neste momento entendemos
que a consciência de Si desacoplar-se-à da tradição, inaugurando uma
nova fase na conceitualização filosófica.
[22] Interessante confrontar as novas leituras do reconhecimento em Hegel, em especial, ver: Axel Honneth e seu livro “Luta por Reconhecimento – A gramática moral dos conflitos sociais.
[23] Hegel, Fenomenologia
do Espírito. p. 125-126.
[24] Hegel. Fenomenologia
do Espírito. p 127.
[25] Idem.p.
68.
[26] Ibidem, p. 26.