ISSN 1980-8372
Ano 2º - N.º 02 Junho de 2005
HEGEL Y EL PROBLEMA METAFÍSICO - XAVIER ZUBIRI
Tradução - Danilo Vaz Curado Ribeiro de Menezes Costa - Mestrando UFPE
Revisão e Coordenação - Prof.Dr.Alfredo de Oliveira Moraes - UFPE.
Nota: A presente tradução, foi autorizada pela Fundación Xavier Zubiri, na pessoa do seu Secretário Geral o Professor Dr. Antônio González, e trata-se de uma Conferência pronunciada em Madri, no ano de 1931 e publicada no livro de Xavier Zubiri - Natureza, História, Deus. pp. 223-240. Madri: Ed. Alianza.
Hegel e o problema Metafísico
A filosofia não
é uma ocupação a mais, nem tão sequer a mais excelsa do homem, senão que
é um modo fundamental de sua existência intelectual. Por isso não nasce de
um arbitrário jogo de pensamentos, senão da azarosa, problemática situação
em que o tempo, seu tempo, o tem colocado.
Nossa situação,
sentida hoje como problema, é a situação em que tem vivido e se desenvolvido
a Europa durante umas quantas centúrias. Enquanto a Europa esta
construindo-se, tem podido o homem sentir-se comodamente alojado nela; ao
chegar à sua maturidade, sente, contudo, como diria Hegel refutada em sua própria
existência.
A maturidade
intelectual da Europa é Hegel. E isto, não somente por sua filosofia, senão
por sua história e por seu direito. Em certo sentido, a Europa é o Estado, e
talvez somente em Hegel se tenha produzido uma ontologia do Estado. A verdade
da Europa está em Hegel. Bem que soe esta afirmação como algo exagerado.
Pouco importa. Em certa ocasião me dizia Ortega y Gasset que a história se
desfaz à força da justiça. O importante, ao exagerar, é saber que se
exagera. Pois bem: o que confere a Hegel sua dignidade e magnitude histórica
na filosofia é justamente esse caráter de maturidade e plenitude intelectual
que nele alcança a evolução inteira da metafísica desde Parmênides a
Schelling. Por isso, toda filosofia começa hoje por ser uma autêntica
conversação com Hegel: uma conversação, em primeiro lugar, de nós, desde
nossa situação; uma conversação, ademais, com Hegel, não sobre Hegel, isto
é, fazendo-nos problema e não somente tema de conversação, do que também
para ele foi problema. A filosofia é eterna repetição.
Nos dias
conturbados em que vivemos se experimenta um prazer especial o intentar repetir
serenamente o problema hegeliano em algumas de suas mais essenciais dimensões.”Tão
estranho – disse Hegel ao começo de sua lógica – como um povo para quem
se houvera feito insensível seu direito político, suas inclinações e seus hábitos,
é o espetáculo de um povo que tem perdido sua metafísica, um povo no qual o
espírito ocupado de sua própria essência não tem nele existência atual
nenhuma”.
Para voltarmos a
encontrá-la é preciso retirarmo-nos, como dirá Ele mais tarde, “às tranqüilas
moradas do pensar que tem entrado em si mesmo e em si mesmo permanece, de onde
calam os interesses que movem a vida dos povos e dos indivíduos”.
Qual o problema
de Hegel? Qual o caminho que ante Ele empreende? Qual a nossa situação?
A situação em
que se encontra Hegel na história da filosofia é, dizia, a situação
determinada pelo fato de que a idéia mesma da filosofia alcança sua plena
maturidade.
Que é, em
efeito, o que acerca do universo que tem dito a filosofia grega? Quando o homem
grego se enfrenta com o universo, perguntando: Que é a natureza?, entende por
natureza o conjunto de tudo quanto existe: conjunto, não somente no sentido de
que seja ela ( a natureza) a soma das infinitas coisas que no universo existe,
senão, sobre tudo, no sentido de que, naturalmente brotam da natureza todas
essas infinitas coisas, e dentro delas o homem, com seu próprio, pessoal e
individual destino. Por isso é este conjunto natura, physis, natureza. A esta physis, como totalidade do universo, é de onde o homem grego se
dirige ao formular concretamente a pergunta: Que é o que é?
Agora bem: esta
pergunta se encontra motivada por algo. Não é uma pergunta que, azarosa e
arbitrariamente, o homem grego formula sobre o universo. O universo, a
natureza, isso que aqui está submetido a perpétua mudança. Por isso pergunta
o homem, ante esse caminho: que é,
em definitiva, em sua última, interna e verdadeira raiz, a natureza, o que
sempre permanece? A natureza é o arkhé,
o princípio de suas próprias modificações, e o
telos, o termo de onde todas elas desembocam. Em troca se oferece, pois,
deste modo, ao homem grego como algo essencialmente necessitado de princípio e
de terminação, de arkhé e
de telos. Por isso, o conceito grego
de natureza leva ali onde a mobilidade dessa mesma natureza, se reporta sobre
si mesma, por assim dizer, e adquire um ponto final de apoio, no
theós, em Deus. Deus, a divindade, não é para Aristóteles, senão o
momento absoluto que exige a própria variação do universo. Como causa do
ser, o Deus Aristotélico não produz as coisas: faz que a natureza as produza,
pondo-as em movimento.
Somente quando
emergindo dessa physis,
somente quando brotando e formando parte da natureza é como as coisas,
propriamente para um homem grego, são. São, isto é, dirá Aristóteles,
possuem em-si ousia, um haver, por assim dizer, que constitui o fundo permanente
de onde emergem todas as manifestações e todas as possibilidades que integram
o que constitui isso que chamamos vulgarmente coisa. Por isso disse Aristóteles
que o problema do que seja o que é,
se reduz, em definitivo ao problema do
que seja em definitivo isso que constitui o fundo permanente do que uma coisa
é, a saber, o que Aristóteles
chamava substância ou ousia.
Isto é, as coisas são o que são, por ser elas suportes de onde emergem todas
as propriedades que me oferecem. Se digo desta habitação que tem determinadas
dimensões, é a habitação, em certo sentido, aquilo que suporta o
qualificativo ou o predicado de suas dimensões. As propriedades de uma coisa são
assim manifestações de sua substância. Agora bem: por ser a substância,
primariamente, o suporte ou raiz de onde nascem as propriedades da coisa, esta
não é plenamente o que é mais que ali e onde atual e formalmente está
atuando a sua substância. Isto é o que Aristóteles entendia quando dizia que
a forma suprema do ser é enérgeia,
actualidade. Na atualidade uma coisa ( com o duplo sentido que, ainda em
castelhano esta palavra encerra: de um lado, o que está atuando; de outro o
que tem atualidade agora, no presente), na atualidade de um ser é de onde se
encontra, em definitivo, sua última e radical verdade. A verdade é a
manifestação da coisa. Por isto disse Aristóteles que o “ser verdade” é
a mais digna forma de realidade. A visão da atualidade manifesta da coisa, que
nos permite discernir sua natureza da natureza das demais, chamou o grego de noeîn,
visão do ser verdadeiro e radical das coisas. O ser, a verdade e a visão
aparecem em essencial unidade. Da frase de Parmênides: “é o mesmo o ser e a
visão do é”, arranca (inicia) todo o pensamento grego[1]. Por isso, o momento
absoluto do universo, o Deus que Aristóteles pedia para dar a aquele um caráter
definitivo e substancial envolve em si o noeîn em forma de pura atualidade, é um pensamento que se pensa a
si mesmo. Este absoluto do universo move sem ser movido, do mesmo modo que o
objeto do amor e do desejo, sem sofrer variação alguma.
Este é o
momento em que se vai decidir a sorte da metafísica ocidental inteira, o
momento em que Grécia vai
determinar de uma vez para todas, o sentido último da palavra verdade. Graças
a que a coisa se nos oferece atualmente como sujeito e suporte de suas
manifestações, cabe que o homem se dirija a ela e a faça explicita, isto é,
sujeito de elocução. Então não somente vejo o que em verdade é uma coisa,
senão que, ademais, seja o que ela é. Eu digo das coisas que são tal o qual
outra. Digo desta habitação que é grande; desta mesa que é escura, etc. A
este fenômeno do dizer é que a Grécia tem chamado logos.
Por isto, toda filosofia grega é certamente uma pergunta acerca do ser; porém
uma pergunta acerca do ser, enquanto sua verdade caia descoberta e explicada em
um dizer, em um saber o que a coisa é. Pelo logos
nós penetramos explicitamente na visão de que o universo verdadeiramente é.
Viver no centro desta visão, participar dela, é, dizia Aristóteles, a forma
suprema da existência humana.
Teoria, explicação,
não é, para Aristóteles, outra coisa senão penetrar na razão universal do
universo.
Dentro desta
inteligente construção metafísica, vista através da evolução ulterior do
pensamento humano, talvez somente uma realidade e um conceito que tenha
escapado da mente grega. E é o conceito e a realidade com que começa o
Ocidente da Europa sua especulação metafísica: o conceito de Espírito.
Seria muito
amplo entrar a fazer uma história detalhada dos momentos que o integram.
Motivado por razões de ordem religiosa, adquire pela primeira vez maturidade
conceitual em Orígenes e em Santo Augusto. Spiritus
sive animus é aquele ente que pode entrar em si mesmo, e que, ao entrar em
si mesmo, existe segregado do resto do universo. Este momento vai a ser
decisivo para a estrutura inteira da filosofia. Porque, em efeito, ao sentir-se
desvinculado do universo inteiro, não cai o espírito humano simplesmente em
si mesmo: entra em si mesmo para descobrir-se manifestação do espírito
infinito da divindade. A filosofia, depois da Grécia, começa assim por ser
essencialmente teológica.
Isto é, está
segregado o espírito humano do universo para projetá-lo excentricamente sobre
a divindade, sobre essa divindade de que nos diz o quarto evangelho que é
essencialmente logos, verbo, palavra. Por isso, quando o intelectual no
começo de nossa era, tem quisto dar-se conta e pensar intelectualmente a
realidade de sua crença, tem invocado sobre o logos do quarto evangelho todo o conjunto da especulação helênica
e tem interpretado a palavra de Deus como razão do universo. Criado, portanto,
o homem imagem e semelhança de Deus, possui certamente a razão, o logos
que a Grécia o atribuía, porém o possui como participação da razão
universal, que, a diferença do que pensava o grego, se encontra agora no espírito
divino.
A partir deste
momento, a especulação metafísica se lança, por assim dizer, em uma
vertiginosa velocidade, na qual o logos,
que começou por ser essência de Deus, vai terminar por ser essência do
homem. È o momento, no século XIV, em que Ockam diz que a essência da
divindade é livre arbítrio, onipotência, e que, por tanto, a necessidade
racional é uma propriedade exclusiva dos conceitos humanos.[2]
Neste momento é quando aparece Descartes na área intelectual. Descartes se
encontra, pela primeira vez na história do pensamento humano, na trágica e
paradoxal situação de não somente encontrar-se segregado do universo –
isso já foi realizado pelo cristianismo no começo de nossa era -, senão também
de Deus. No momento em que o nominalismo tem reduzido a razão a ser uma coisa
de portas adentro do homem, uma
determinação sua, puramente humana, e não essência da divindade, neste
momento cai o espírito humano segregado também desta.Somente, pois sem mundo
e sem Deus, o espírito humano começa sentir-se inseguro no universo. E o que
Descartes pede a filosofia, o princípio do filosofar, é justamente isso:
voltar a encontrar um ponto de apoio, uma segurança. Quando Descartes diz que
todas as coisas são duvidosas, não quer dizer, em última instância, senão
que nenhuma delas oferece, tal como ate agora tem apresentado, garantia
suficiente de solidez onde apoiar o espírito humano. O último reduto seguro
é aquele em que ainda subsiste a necessidade racional. Desta maneira, chega o
Eu, o sujeito humano, a ser o centro da filosofia, porém a ser o centro da
filosofia de uma maneira peculiar. Em última instância, o Eu, o ego de Descartes, funciona em Filosofia, porque o que pede a
filosofia é uma verdade segura; portanto, sua certeza e não sua realidade, é
o que decide o caráter do Eu no pensar filosófico.
Em segundo
lugar, o sujeito Cartesiano não se encontra simplesmente colocado de qualquer
maneira no centro do universo, senão enquanto o resto do universo é sabido
por Ele: tudo o que do universo tem dito a Grécia, o ser absoluto da natureza
cai, em certo modo envolto pelo sujeito; porém envolto pelo sujeito de uma
forma peculiar, enquanto é sabido seguramente por ele. Na segurança do saber,
do Eu, encontra o homem o consistente da natureza mesma.
Desta maneira se
produz de Descartes a Kant, e muito especialmente de Kant a Schelling, a
contraposição, frente à natureza de que nos falava a Grécia, dessa outra
ordem, desse outro mundo: o mundo do espírito.
Se quisermos
caracterizar de uma maneira didática em que consiste o que distingue a
natureza do espírito, falaríamos com Hegel de uma forma bem simples.
Natureza é o que está ai. E o espírito é isto que
sou eu mesmo. Natureza é, por tanto, estar aí. Como diria Hegel, ser
em-si; Espírito, ser para-mim, para-si, em-si-mesmo. Este é o momento em que
vai brotar o pensamento de Hegel.
É certo que a
filosofia tem vivido durante várias centúrias, e especialmente de Descartes a
Kant, movendo-se nesse elemento, como diria Hegel, da espiritualidade do espírito.
É certo assim mesmo que em Kant, e mais concretamente em Fichte, o espírito não
é somente um segundo mundo colocado junto ao primeiro da natureza, senão que
o espírito pretende ter um certo rango superior a natureza haja vista que toda
ela é sabida por ele. Porém até agora, diz Hegel, não se tem entendido em
que sentido radical se pode falar de natureza e espírito.
Dando a palavra
universo, um sentido mais amplo que o da Grécia, podemos dizer que, a diferença
do grego nosso universo se encontra composto de natureza e espírito. A unidade
do universo depende, pois, do sentido que tenha este ‘e’. Em que consiste
este “e”?
Schelling
repetia sem cessar que esse ‘e’ não é outra coisa senão em uma espécie
de identidade fundamental, na qual
a natureza deixa de ser natureza e o espírito deixa de ser espírito: uma
identidade e, portanto, simples indiferença, e que, por simples indiferença,
é –disse Hegel – algo assim como a noite onde todos os gatos são pardos.Não
se trata de que esse ponto de contato não seja nem natureza nem espírito, e,
portanto, simples indiferença, senão de que seja agora, natureza e também
espírito. Aquele “e” é positivamente quanto existe na natureza e no espírito.
Não se trata tampouco de que, de um lado, está a natureza já pronta, e de
outro o espírito pronto também, e que logo vão unir-se por adição. Seu
nexo é algo mais que uma simples copulação.
O importante
desse “e” não é que seja o nexo que vincula a natureza ao espírito, senão
que expresse o fundamento comum que nele tem natureza e espírito. A identidade
da natureza e do espírito não é, para Hegel, uma simples identidade formal,
uma vacuidade, como o era para Schelling, senão que significa concretamente
para Hegel isto: que por pertencer essencialmente a natureza e o espírito,
existe algo que é fundamento comum desta pertença. Entender a natureza e o
espírito é ver como esse fundamento fundamenta a ambos; como inexoravelmente
esse fundamento se faz natureza e espírito.
Agora bem: como
vamos qualificar a esse fundamento comum? Nele se movem ou se apóiam a
natureza e o espírito, a dizer, tudo quanto existe. E tanto, pois que esse
fundamento encerra em si tudo quanto existe – de um lado a natureza que está
aí, da Grécia; de outro lado o espírito, que se sabe seguramente a si mesmo,
com Descartes e a filosofia moderna -, esse fundamento, de onde o todo emerge,
é, de um modo eminente e fundamental, o autêntico e verdadeiro Todo. E o
fundamento de todo o demais; como diria Hegel, é o absoluto em-si e para-si.
A este absoluto
chama Hegel, com impropriedade, Espírito. Lhe chama espírito, porque nele se
encontra justamente o decisivo daquele espírito que falavam Descartes e
Schelling, a saber:a presença imediata a si-mesmo. Porém resulta que este espírito
é impropriamente espírito, porque não se trata de uma realidade espiritual
no sentido corrente da palavra, senão somente do fato concreto de que esse
absoluto é o fundamento, a raiz do espírito, portanto raiz e fundamento dos
entes que são presentes a si-mesmos, dos espíritos. E recordando que a tradição
helênica e medieval tem caracterizado o espírito por essa imediata entrada em
si-mesmo, Hegel continua chamando esse absoluto espírito, espírito absoluto.
Porém com isto
não somento Hegel não tem feito sua filosofia, senão que nem tão sequer tem
começado a entrar nela. A grandiosidade do pensamento de Hegel estriba, em boa
parte, em não haver-se limitado a lançar programas senão depois de os haver
realizado já em si-mesmo.
Dizer que o todo
é espírito absoluto, é o absoluto, quer dizer que nada tem ser, nem é,
portanto verdadeiramente conhecido (posto que conhecer é saber o que uma coisa
é), se não é entendido em sua última raiz nesse espírito absoluto;
portanto, se não é entendido como um momento dele. Por isso disse Hegel que a
verdade nunca se encontra na coisa, nunca se encontra no resultado. O resultado
é o cadáver que tem deixado em pó de si a tendência que o engendro. O verdadeiro não é o
resultado – disse Hegel – senão o todo; aquilo que vincula seu resultado a
seu princípio. A verdade definitiva é uma coisa, a verdade última de seu
ser, se encontra, portanto para Hegel, na articulação que cada coisa concreta
tem com o espírito absoluto, com a realidade fundamental do universo. A essa
articulação interna é o que Hegel chama sistema Por isso disse Hegel que a
verdadeira figura por sobre a qual aparece a verdade filosófica é o sistema.
Sistema não significa um conjunto de proposições ordenadas, senão essa
interna articulação que cada coisa, ela em seu Ser, tem com o ser absoluto do
universo. Dizer que uma coisa se apóia no espírito absoluto equivale dizer
que permanece nele como momento seu. Por isto disse Hegel que a verdadeira
substância é o sujeito. Este é o ponto de partida da filosofia de Hegel: o
absoluto como sujeito. Porém, bem entendido, insisto que não se trata de um
absoluto como uma coisa absoluta, senão do absoluto como fundamento absoluto
de todas as coisas; princípio, portanto, inclusive das que ulteriormente se
chamaram pensamento. Daqui resulta um completo erro histórico e metafísico
dizer que Hegel começa com o pensar.Propriamente falando, a filosofia
Hegeliana não começa com o pensar. Não se trata de que a natureza está no
pensar, nem de que esse possuir do absoluto transcorra no pensar, senão
justamente o revês: o fato de que o absoluto seja transparente a si-mesmo é o
que constitui o pensamento. Não é o pensamento razão da imediatez, senão a
imediatez razão do pensamento.
O problema de
Hegel nasce justamente neste momento, quando se trata de fazer ver, de uma
maneira eficaz e atual, como o absoluto é, em efeito, o fundamento absoluto de
tudo o quanto existe, isto é, como o absoluto tem de brotar de si-mesmo para
engendrar a totalidade das infinitas coisas que logo chamaremos natureza e espírito.
Hegel começa, pois, nem com a natureza nem com o espírito, senão com o
absoluto, nada mais que com o absoluto.
Por isto é seu começo absoluto também. Que quer dizer isto?
Desde logo há
de fugir da tentação natural que
nos impele a pensar em demasia no absoluto. O difícil, para captar o absoluto
em Hegel, não é pensar muito, senão justamente o não pensar nada.
Se digo do
absoluto que é, por exemplo, espírito humano, ou que é substância, no
sentido da Grécia, digo do absoluto algo, porém algo distinto dele, porque,
se não o for, não poderia dizer dele que é essa outra coisa. De onde resulta
que todo o intento de pretender dizer algo concreto do absoluto é simplesmente
sair dele. Daí que o começo radical da filosofia ante o absoluto não pode
ser, para Hegel, outra coisa senão esse instalar-se nele, encontrar-se
imediatamente nele. A esse encontrar-se imediatamente nele é o que Hegel chama
de ser puro. O ser puro é, pois
imediata e absoluta vacuidade. Porque no momento em que o eu quero pensar, até
suas últimas conseqüências , que é esse ser puro, em encontro que o ser
puro é tudo, justamente a força de não ser nada, de não ser nenhumas das
coisas.
Se quero, pois,
aprender até seus últimos extremos o que penso ao pensar o ser, me encontro
com o que tem convertido em uma vacuidade, com que estou pensando no nada. Esta
é uma situação insustentável,: necessito pois replegarme no ponto de
partida, no ser, para evitar que esse ser não seja nada. Este intento de
evitar o nada, é o que o absoluto tem de realizar para manter-se sendo, é
justamente o devir. Desta maneira
resulta que o espírito absoluto sai de si-mesmo, para encontrar-se
absolutamente contraditório consigo mesmo. E ao intentar evitar esta contradição,
imediatamente volta sobre si. O absoluto somente pode existir devenindo-se.
Desta maneira,
ao sair o espírito absoluto de si-mesmo, engendra seu devir, e nesse seu devir
se faz algo. Mostra, pois, Hegel como o espírito absoluto, por sua própria
interna constituição, é o fundamento disso que a Grécia tem chamado o Ser
em-si. Agora bem: quando temos algo, se presente esse algo como sendo
justamente algo, e portanto, como bastando-se a si-mesmo. E a verdade é que
nada bastasse a si-mesmo, senão que ser
algo é chegar a ser algo. Portanto, para que haja algo é necessário
haver um princípio dele. A verdade de algo é, pois, ser em-si o que já era
em seu princípio absoluto. E isto é o que tradicionalmente se tem chamado essência.
Assim, pois, o absoluto não somente engendra a coisa, senão que, referida
esta aquele, nos mostra ou manifesta atualmente o princípio absoluto de onde
emerge. Ao fazê-lo, o absoluto não está tão só no princípio da coisa, senão
que seu ser está principiando; é dizer, ao voltar novamente ao absoluto, o
entendemos não somente no que produz, senão no produzir, no principiar mesmo.
Então, desaparece a diferença entre o princípio e o principiado. O absoluto
se possui plenamente a si-mesmo em sua atividade fundante, e esta possessão é
o conceber o conceito, o saber absoluto. O conceito adequado do absoluto chamou
Hegel de Idéia. Por isso a Idéia é Liberdade.
Desta maneira
Hegel vai lentamente descrevendo a gênesis do universo inteiro. Portanto, na
filosofia hegeliana se concentram e chegam a plana maturidade os motivos
fundamentais da história inteira do pensamento filosófico. O ser – na Grécia
– se encontra atualmente na verdade; porém a verdade – diz Descartes - se
encontra tão somente numa certeza verdadeira; e uma certeza verdadeira
–terminará por dizer Hegel – é aquela que recai sobre o ser verdadeiro do
sujeito.
Desta maneira ao
voltar o sujeito sobre si-mesmo, se encontra não com outra coisa, senão
consigo mesmo. Resulta, pois, que toda a geração do universo, a história
inteira do universo, não é em última e definitiva instância, outra coisa
senão a entrada do espírito em si-mesmo, a realização da Idéia.
Em cada um dos
passos que o espírito absoluto tem dado, não somente tem saído de si-mesmo,
senão que, em realidade, o que tem sido feito foi encontrar-se consigo-mesmo.
Este permanente encontrar consigo-mesmo é o que tradicionalmente se tem
chamado eternidade. Por isto a história em sentido hegeliano da palavra, não
é, metafisicamente falando, uma sucessão de coisas que ocorrem no tempo, senão
a essência desta sucessão, a historicidade. A essência da história, a
historicidade, é eternidade. A história é a realidade concretizada da Idéia.
Captar em sua
eternidade o espírito absoluto, saber o absoluto, porém ademais de uma
maneira absoluta, nisso, e em outra coisa, consiste para Hegel a Filosofia. A
filosofia é a consciência absoluta do sistema do absoluto. Por isso é a
filosofia, como dizia Platão, dialética, articulação, sistema da idéia. A
filosofia não é um pensar sobre o absoluto, senão que é a forma explícita
do absoluto mesmo. Daqui é que a filosofia pertence essencialmente a sua própria
história.
Pelo mesmo,
seria pueril querer atacar, uma a uma, as teses da filosofia hegeliana.
Justamente porque, em Hegel, a filosofia chega a sua plena maturidade, é inútil
tomar um a um os momentos de seu genial pensamento. A única maneira de
discutir com Hegel é tomá-lo em seu ponto de partida, a dizer, em sua
totalidade. Qual é o ponto de partida de Hegel? Por que estranha maneira
resultam unificados no pensamento o espírito e a natureza das coisas?
Em realidade,
Hegel é um homem que tem inventado muito poucos – talvez nenhum – dos
conceitos filosóficos; ao inverso, tem tido uma imensa ojeriza ao recebê-los.
E o conceito que determina todo o desenvolvimento do pensamento hegeliano é
justamente o conceito do saber, da certeza. Por que, quando eu não posso
pensar o ser como algo concreto, diz Hegel que o ser se converte em nada?
Cumpre observar que quando Descartes coloca o homem no centro do universo e do
saber filosófico, não lhe move nenhum interesse ao humano em especial: o que
decide a Descartes é a necessidade de se encontrar seguro, a necessidade de
achar uma certeza absoluta. Quando diz do eu que é ser pensante, que ego sum res cogitam, não preocupa a Descartes que é esse ego
em si-mesmo. Não se pergunta o que um grego pode perguntar-se: O que é que
tem que ter uma res, uma coisa para ser um eu? O que a Descartes o preocupa, é o
que faz esse eu; e o que faz esse eu não é outra coisa senão saber. Daí que
para Descartes – ou pelo menos a partir de Descartes -, não constitua o
saber, uma atividade entre n-atividades que tem o homem, senão que constitui
seu próprio ser. Não é, pois, que o homem seja e, ademais, seja, senão que
o ser do homem é o seu saber. E como o saber contém o que a coisa é, resulta
que, no momento em que o eu se der o ser, sou o ser. Daqui arranca toda a
filosofia hegeliana. E esta é a questão: Até que ponto cabe afirmar que o
saber seja, sem mais, o ser do homem e o ser das coisas?
Não é desde
logo arbitrária a posição de Hegel. Se por um lado, recolhe a tradição
cartesiana, recolhe por outra toda a tradição helênica. A pergunta acerca do
ser não nasceu na Grécia, por um azar, porque se: nasceu pela maneira
concreta como, pela primeira vez na história, o homem grego se sentiu
existindo sobre o planeta, pela maneira como o homem grego tropeçou com o
universo. E o que constitui a peculiaridade da existência grega é justamente
isso: o homem na Grécia começa pela primeira vez a existir no universo
vendo-o e dizendo-o. Ver e dizer tem sido as duas grandes descobertas da Grécia.
Por isto não é nenhum azar que os dois grandes produtos da cultura grega
sejam justamente plasticidade e retórica. Vê as coisas, vê-las como são em
si-mesmas, em sua idéia como diria Platão, porém e ademais dizer algo sobre
elas. E isto é o grave.
Ver as coisas e
ver o que está aí. Agora bem: o que caracteriza o homem e o diferencia dos
animais não é simplesmente encontrar com as coisas que estão aí, senão que
as coisas estão ante ele. Dito em outros termos: o que distingue o homem do
animal não é que as coisas estão postas com o homem, senão que lhe estão
propostas. Por isto, porque as coisas me estão propostas, posso eu propor-me
dizer algo sobre elas. A este dizer-me, eu a mim mesmo algo delas é o que,
primariamente, o grego chama logos,
dizer. E somente tanto quanto eu me digo algo das coisas, posso dizer aos
outros, falar com eles. O falar se funda com o dizer, no sentido do dizer-me.
Porém o falar
poderia, por si só, expressar-se de infinitas maneiras. Somente quando o falar
ou o dizer se apóia no ver, nisso que está ai, é quando manifesta o que as
coisas são. Graças a que o falar ou o dizer se refere a um ver, se engendra,
no falar, esse momento do presente que caracteriza o logos da proposição indicativa. Se não houvera existido mais que
a simples visão do mundo, facialmente haveria degenerado toda a filosofia em
uma orgia mística, em um frenesi mental. Com essa a frase de Parmênides de
que a visão do que é e o ser são o mesmo, não haveria passado a filosofia
do nível de uma intuição intelectual, como a que se repete em Schelling.
Esta foi uma das geniais contribuições de Platão à filosofia.
A
linguagem impõe a esse momento de visão um momento de racionalidade: o logos,
ao ser logos de uma visão,
exige que esta visão adote uma estrutura lógica. Por isto tem sido a
filosofia grega essencialmente racionalista.
Porém a nenhum
grego se ocorreu dizer que ser homem signifique, sem mais, ver e dizer. É
certo que Aristóteles definia o homem dizendo: “Animal que tem logos, que tem razão”.
Porém tem bem cuidado de dizer que o homem é ousia, coisa, e isto é o que constitui o caráter decisivo do
pensamento grego. O logos não é o
ser do homem, senão uma propriedade essencial sua. Bastou-se levar a idéia do
logos à concepção cartesiana do
espírito pensante para obter toda a metafísica de Hegel.
Porém
precisamente repito, este é o problema.
Em um
maravilhoso ensaio dizia meu mestre Ortega que a filosofia havia vivido duas
metáforas: a primeira é justamente esta metáfora grega: o homem é um troço
do universo, uma coisa que esta aí. E sobre seu caráter de estar aí se funda e se apóia esse outro seu caráter de saber.
Saber que as coisas imprimam sua marca na consciência humana; saber é impressão.
Agora bem: Descartes corta o vínculo que une o saber ao que o homem é e
converte o saber no ser mesmo do
homem; mens sive animus, dizia. O “animus” o “spiritus”
se tem convertido em “mens” em
saber.
Neste momento se
produz a aparição da segunda metáfora, na qual o homem não é um troço do
universo, senão que é algo em cujo saber está contido tudo quanto o universo
é. É sustentável essa situação filosófica? Até que ponto constitui o
saber verdadeiro o ser autêntico do homem. Em outros termos: Em que estriba a
unidade entre o ser, o espírito, e a verdade? Esta é a questão central que
haveria que fundar Hegel ?
Em realidade
Hegel, esquece um momento elementar do pensamento, e é que todo o pensamento
pensa algo. A este momento que o pensamento pensa algo de, é o que se tem batizado, na época recente de
intencionalidade (Husserl) e todo o pensamento é pensamento de algo. Agora
bem: isto que momentaneamente tem podido aparecer como solução do problema, não
somente não é sua solução, senão que é seu descolamento.
Não me basta,
em efeito, dizer que todo o pensamento pensa algo de. Porque, justamente, necessito averiguar por que todo o
pensamento pensa algo de. O
pensamento, de pronto, é uma atividade entre as várias que o homem possui, e
poderia acontecer que não seja esse de,
esse genitivo, um caráter primário do pensamento, senão que o de
se encontrara no pensamento
porque caracteriza previamente a substância inteira do homem. Talvez porque o
homem não pode ser o centro do universo, não consiste aquele em outra coisa
senão em projetar a este frente a si, e não dentro de si, como Hegel
pretendia. A conseqüência disto, é o pensamento também pensamento de algo.
Neste momento de constitutiva excentricidade do ser humano estaria
concretamente fundado seu caráter existencial. Ex-sisterer
quer dizer ter subsistência fora das coisas. Não são as coisas que existem
fora do pensamento, senão o pensamento que existe fora das coisas (Heidegger).
Desta sorte,
talvez haja chegado a hora em que uma terceira metáfora, também antiga,
imponha não sabemos por quanto tempo, sua feliz tirania. Não se trata de
considerar a existência humana, nem como um troço do universo, nem tão
sequer como uma envolvente virtual dele, senão que a existência humana não
tem mais missão intelectual que a de alumbrar o ser do universo; não
consistiria o homem em ser um troço do universo, nem em seu envolvente, senão
simplesmente em ser a autêntica, a verdadeira luz das coisas. Portanto o que
elas são, não o são mais que a luz dessa existência humana. O que (segundo
essa terceira metáfora) se “constitui” na luz não são as coisas, senão
seu ser; não o que é, senão o que seja; porém reciprocamente, essa luz
ilumina, funda o ar delas, das coisas, não do eu, não os troços meus. Faz tão
somente que sejam; em photi, na luz diziam Aristóteles e Platão, é donde adquirem
atualmente seu ser verdadeiro das coisas.
Porém o grave
do caso está que toda luz necessita de um foco luminoso, e o ser da luz não
consiste, em definitivo, senão na presença do foco luminoso na coisa
iluminada. De onde arranca, em que em última instância, a última razão da
existência humana como luz das coisas? Não quisera responder a esta pergunta,
senão simplesmente deixá-la semeada; e deixá-la semeada para, com ela, haver
indicado que o primeiro problema que a filosofia, o último, melhor dito, de
seus problemas não é a pergunta grega: Que
é o ser? Senão algo, como Platão dizia, que está mais além do ser.
Em
genial visão, dizia Aristóteles que filosofia surge da melancolia, porém de
uma melancolia por exuberância de saúde. Katà
physin, não da melancolia que adoece do bilioso, Katà
nòson. Nasce a filosofia da melancolia, isto é, no momento em que, em um
modo radicalmente distinto do Cartesianismo, se sente o homem sozinho no
universo. Ainda que essa solidão signifique, para Descartes, aprofundar-se em
si-mesmo, e consiste para Hegel, em não poder sair de si, é a melancolia
aristotélica justamente o contrário; quem se tem sentido radicalmente só, é
quem tem a capacidade de estar radicalmente acompanhado. O sentir-me só, me
parece a totalidade do quanto existe, em tanto que me falta. Na verdadeira
solidão estão os outros mais presentes que nunca.
A solidão da
existência humana não significa romper amarras com o resto do universo e
converter-se num eremita intelectual ou metafísico: a solidão da existência
humana consiste num sentir-se sozinho, e por isso, enfrentar-se e encontrar-se
com o resto do universo inteiro.
Esperamos que a
Espanha, país de luz e de melancolia, se decida alguma vez elevar-se a
conceitos metafísicos.
Conferência pronunciada em Madri, 1931, e publicada
pela primeira vez em Cruz y Raya.Madrid,
1933.
[1] Me atenho a interpretação mais usual do texto de Parmênides. Não entremos aqui na questão.
[2] A rigor Ockam não chega formalmente até este ponto. Para ele o livre arbítrio divino significa tão somente que Deus pode fazer tudo o que não seja concetualmente contraditório. O que existe, é que para Ockam Deus poderia talvez haver feito que a razão criada fora de outra maneira. Daqui os nominalistas posteriores passaram a excluir de Deus toda a necessidade racional.