ISSN 1980-8372
Ano 2º - N.º 02 Junho de 2005
Fenomenologia do Espírito e Psicanálise: Aproximações
Prof.Dr.Vincenzo Di Matteo - UFPE/Brasil .
(Conferência apresentada no I Colóquio de Filosofia da Sociedade Hegel Brasileira - Recife-2002)
O termo aproximações, associado à Fenomenologia
do Espírito e à psicanálise, remete tanto a uma ambição, quanto a seus
limites. Ambição, pela pretensão de registrar as ressonâncias fecundas, mas
tensas, do texto hegeliano na psicanálise. Limites, pela variedade e
multiplicidade delas na literatura psicanalítica e filosófica do séc. XX.
Para
contornar a dificuldade, selecionei dois pensadores e dois textos que julgo
paradigmáticos: Lacan, um psicanalista leitor de filosofia, com Subversão
do sujeito e dialética do desejo[1];
Ricoeur, um filósofo leitor de psicanálise, com a comunicação dele em
Bonneval O consciente e o inconsciente.[2]
Dois textos e dois pensadores que a conjuntura cultural francesa aproximou e
afastou no começo dos anos sessenta.
Até
para compreender as razões de minha escolha,
contextualizarei, inicialmente, a problemática envolvida; analisarei, em
seguida, as diferentes leituras que o psicanalista e o filósofo fazem da Fenomenologia
do Espírito, visando mais compreender do que dirimir as divergências.
I. A contextualização
Tentativas
de aproximar psicanálise e filosofia de Hegel remontam ao começo do século
passado. Em 1911, no Segundo Congresso Internacional de Psicanálise, o
neurologista americano James J. Putnam - um dos pioneiros a se interessar por
psicanálise e tornar-se promotor dela naquele continente - abriu os trabalhos
com uma conferência sobre a Importância da filosofia hegeliana para o
desenvolvimento da Psicanálise. E. Jones, registra que “o candente apelo para
a introdução da Filosofia... no campo da Psicanálise não teve êxito...”[3]
Freud teria comentado: “A filosofia de Putnam lembra-me uma peça decorativa
de centro de mesa; todo mundo a admira, mas ninguém a toca”.[4]
A
história da psicanálise desmentiu seu fundador. O Hegel da Fenomenologia não se tornou uma peça decorativa na literatura
psicanalítica do séc. XX. Vários filósofos e
psicanalistas não resistiram ao fascínio de estabelecer algumas possíveis
analogias, homologias
- além das inevitáveis diferenças
e até divergências, entre a psicanálise e a fenomenologia hegeliana.[5]
Foi
especialmente na França que esse encontro-desencontro Hegel-Freud se tornou
particularmente visível, considerando que a renovação dos estudos hegelianos
e a introdução efetiva e um pouco tardia da psicanálise na terra de Descartes
ocorreram praticamente na mesma época: final dos anos vinte, começo dos anos
trinta. Na década de cinqüenta, com o avanço do paradigma estruturalista, o
diálogo virou polêmica, envolvendo o melhor da intelectualidade francesa. O
psicanalista Lacan parecia insinuar que o
discurso competente sobre a subjetividade pertencia agora
à psicanálise e não mais a Hegel. O filósofo Ricoeur, por sua vez,
sem menosprezar as contribuições psicanalíticas, julgava que a genial obra de
Hegel ainda podia lançar alguma luz sobre a difícil e controvertida “questão
do sujeito”.
São
essas duas leituras de Hegel e da Psicanálise que pretendemos registrar no
exato momento em que os dois se encontraram, em Bonneval (1960), para discutir
com outros psicanalistas e filósofos o tema do Inconsciente.
II. Fenomenologia do Espírito
e Psicanálise, em Lacan
1. O estádio do espelho.
Não
foi apenas pelo caminho dos ‘sintomas clínicos’ e de ‘seus efeitos de
criação’ - como afirma no texto Sobre nossos antecedentes - que o
psiquiatra Lacan chega à psicanálise.[6]
Há um outro que percorre simultaneamente e sobre o qual silencia, pelo
menos nesse artigo, a saber: o interesse pela filosofia ou pelas questões filosóficas
de seu tempo. Nos anos 30, houve uma renovação dos estudos hegelianos sob o
impulso de J. Wahl, A. Koiré, É. Weil e A. Kojève, que abriram caminho para
‘a geração dos três H’: Hegel, Husserl e Heidegger em cujas leitura se
inicia. “Sem essa iniciação - escreve E. Roudinesco - a obra de Lacan teria
permanecido para sempre prisioneira do saber psiquiátrico ou de uma apreensão
acadêmica dos conceitos freudianos”.[7]
Dos
encontros com Kojève,[8]
nasceu, em 1936, o projeto de escrever juntos um ensaio de confrontação
interpretativa entre Hegel e Freud:[9]
Lacan, na época, nada escreveu nesse sentido, mas das páginas que Kojève
rascunhou, em 1936, emergem alguns conceitos - “o eu (je) como sujeito do
desejo, o desejo como revelação da verdade do ser, o eu (moi) como lugar da
ilusão e fonte de erro”[10]
- que
estarão presentes nos textos do psicanalista redigidos entre 1936 e 1949,
quando a teoria do estádio do espelho domina o pensamento de Lacan. Isso
mostra que, já antes da guerra, começava a se esboçar uma teoria do sujeito
inspirada em Freud e na leitura que Kojève fazia de Hegel, mesmo que o nome de
Kojève não conste na apresentação do famoso ‘estádio do espelho’
apresentado inicialmente em Mariembad, em 1936 e retomado no primeiro encontro
psicanalítico do pós-guerra, em Zurique (1949)
A
esse ‘pivô’ da teoria lacaniana - o estádio do espelho - faltava apenas o
suporte de outros conceitos provenientes da área da lingüística de inspiração
lévi-straussiana que entrarão em
jogo no famoso Discurso de Roma
(1953).[11]
Lacan,
continua a falar sobre o desejo do homem como ‘desejo do outro’,[12]
‘desejo de reconhecimento’, ‘luta de prestígio’,[13]
mas já se delineia a
primeira grande divergência com Hegel.
“Mas a descoberta
freudiana tem demonstrado que este processo verificante [a dialética da consciência
de si] não atinge autenticamente o sujeito senão ao descentrá-lo da consciência
de si, em cujo eixo a mantinha a reconstrução hegeliana da fenomenologia do
espírito...”.[14]
Do
Discurso de Roma
à ‘grande partida’ de 1963 - como E. Roudinesco apelida a cisão da
Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP) -
se passam exatamente 10 anos, considerados como a idade de ouro da psicanálise
francesa, ‘nossos mais belos anos’.
Lacan,
seus seminários, o grupo da SFP e a revista que os representa - La Psychanalyse - permanecem abertos à colaboração de filósofos,
como por exemplo J. Hyppolite.[15]
É inegável, porém, que
progressivamente, Lacan questiona não apenas o mundo da psicanálise, mas também
o da psicologia, da psiquiatria e da própria filosofia, assumindo cada vez mais
a postura de um “antifilósofo
que lia filosoficamente o discurso freudiano ao preço de uma condenação a
morte da filosofia”.[16]
Os
lugares onde vai apresentar ao
grande público sua reformulação são estratégicos: o anfiteatro Descartes,
na Sorbonne, quando pronunciará a
convite dos estudantes de Letras, em maio de 1957, a conferência A instância
da Letra no Inconsciente ou a razão depois de Freud;[17]
o Colóquio internacional de Filosofia sobre dialética, que se realizou em
Royaumont, de 19 a 23 de setembro de 1960.
3.
A subversão do sujeito e a dialética do desejo no inconsciente freudiano
A
Comunicação se reveste de uma importância
histórica, tanto pela síntese de um pensamento que chega a uma certa
maturidade, quanto pelo desafio que lança à filosofia hegeliana em nome de uma
leitura filosófica de Freud pela mediação da lingüística estrutural.
Roudinesco assinala laconicamente que Lacan profere sua conferência num
contexto filosófico onde se anunciava “firmemente
o declínio da fenomenologia”.[18]
Em
nome da verdade psicanalítica, num primeiro momento mais lógico do que cronológico,
é denunciado o ‘erro’ de Hegel, as ‘deviações’ da prática
psicanalítica na Inglaterra e na América, ‘as baixas utilizações de
exploração social’ decorrentes de categorias psicológicas, a concepção
equivocada do desejo por parte de moralistas, teólogos e do próprio Sartre e,
finalmente, a crença dos ‘tolos’ na
proibição do gozo apenas por restrições sociais.
É
exclusivamente este diálogo tenso com Hegel que tentaremos sintonizar e
privilegiar. É verdade que Lacan não está visando propriamente uma análise
crítica da Fenomenologia do Espírito.
Prova disso são as referências ao texto de Hegel, apenas como ‘mediação cômoda
para situar o sujeito numa relação com o saber’ ou como ‘referência
totalmente didática’ para saber a que ponto se encontra a questão do sujeito
e a subversão operada pela psicanálise, ou, enfim, como ‘serviço’ por
apresentar a solução ideal da relação verdade saber.
[19]
Todavia,
numerosas são as referências ao Hegel da Fenomenologia para que possam passar
desapercebidas. O simples nome do filósofo recorre repetidas vezes,
especialmente na primeira parte da exposição, perdendo apenas para o de Freud.
Por duas vezes é citada a própria Fenomenologia
do Espírito, além de alguns de seus termos chaves, Aufhebung, Selbstbewusstsein,
Begierde, saber absoluto, sujeito absoluto, astúcia da razão, Mestre
absoluto, consciência de si,
bem como a famosa passagem da luta do Senhor
e do Escravo.
Lacan
se distancia de Hegel, considerando que, na interpretação dele, a balança da
verdade sobre o sujeito pende agora do lado da psicanálise. A metáfora da
balança, aliás do próprio Lacan, revela sem dúvida o caráter de
neutralidade e objetividade de que se reveste (ou pretende revestir-se) sua análise,
mas também acentua as divergências mais do que as aproximações possíveis
entre Hegel e Freud.
Assinala
as diferenças que separam as duas metapsicologias da subjetividade: a natureza
da relação certeza-verdade, convergente em Hegel, não coincidente em
Freud; a natureza e função do desejo
como um saber que garante o mínimo de continuidade entre figuras de
saber, no primeiro, mas como algo de irredutível à necessidade, relacionado
com o fantasma e não com objetos reais, no segundo; a consciência infeliz como
mera suspensão do saber, no autor da Fenomenologia,
mas como sintoma de um conflito cultural intransponível no autor de O
mal-estar na civilização; a dialética do reconhecimento, situada
por Hegel no registro do imaginário e por Lacan no registro do simbólico; a
relação gozo-trabalho, isso é, a renúncia ao gozo pelo medo da morte
e recuperação da liberdade pelo trabalho, assim como é descrita por Hegel e
como é explicada pela psicanálise, etc..
Na
nossa interpretação, todas as críticas de Lacan se articulam em torno de uma
diferença fundamental que ele condensa na metáfora extremamente rica e forte
da “subversão” do sujeito operada pela psicanálise. Para mostrá-la, parte
da compreensão do inconsciente entendido como estrutura de linguagem, retirando
daí as implicações antropológicas que o diferenciam da filosofia de Hegel.
Enquanto para este o sujeito é aquele “que sustenta sobre a história o
discurso do saber absoluto”,[20]
é portanto, um sujeito que é substância e que ruma para uma perfeita e plena
coincidência entre saber e verdade, consciência e mundo, para Lacan, o sujeito
é ‘um ser de não - ente’, um sujeito dessubstancializado, despsicologizado,
de natureza lingüística.
Em
suma, haveria uma distância intransponível entre Hegel e Freud. Diferente é a
dialética do desejo de reconhecimento e incompatível a noção de sujeito e de
verdade. O ser humano não pode transpor sua realidade de ser de desejo. Não se
poderá, portanto, efetuar a passagem da filosofia para a ‘Sofia’, de um
amor pelo saber (verdade parcial) para o saber (verdade total).
4.
Repensando o texto
Na
interpretação de Lacan, havia na teoria e na prática psicanalítica um lugar
para a dialética e a noção do sujeito. Essa convicção o levou a uma
aproximação com o pensamento de Hegel para questionar o que ele chama de
‘degradação da psicanálise’. A certeza do sujeito, para ele, assentava
sobre sua prática clínica, situada no horizonte do campo da fala e da
linguagem. Era negada, porém, por uma outra
prática psicanalítica que se reduzia a uma modalidade da neurobiologia ou a
uma variante da psicologia. Para passar da certeza à verdade do sujeito, se
aproxima do autor da Fenomenologia
que no seu prefácio tinha escrito: “... tudo decorre de entender e
exprimir o verdadeiro não como substância,
mas também, precisamente, como sujeito”[21].
Tratava-se, portanto, de articular a subjetividade com a verdade. Estas aproximações
com Hegel, porém, foram questionadas tanto por psicanalistas que não viam de
bons olhos esta invasão da filosofia no reduto psicanalítico, quanto por filósofos
hegelianos que denunciavam a parcialidade de sua interpretação.
No
momento, não estamos interessados em aprofundar até que ponto a interpretação
de Kojève ou outras teriam influenciado Lacan. A história destas várias
leituras se encontra numa conferência que Hyppolite pronunciou em Bruxelas, em
1957, onde aproveita a oportunidade para estabelecer as diferenças entra a sua
leitura de Hegel e a de Kojève.[22]
Os
equívocos e os impasses entre a leitura hegeliana e lacaniana da emergência da
subjetividade e de sua efetivação decorrem, no nosso entender, de uma certa
confusão que se estabelece quando não se tem presente o horizonte cultural no
qual cada pensador se movimenta, a problemática específica que cada um retoma
e o registro no qual a análise é realizada, no caso hegeliano, o lógico-dialético-histórico.
O
mesmo texto hegeliano, terá ressonâncias diferentes na leitura que o filósofo
Ricoeur fará do sujeito da psicanálise.
III. Fenomenologia do Espírito e Psicanálise, em Ricoeur
1.
Os caminhos ricoeurianos
Em
14 de junho de 1985, Ricoeur recebeu, em Stuttgart, o prêmio Hegel concedido a
quem se consagra às ciências humanas e à filosofia. Até quem pronunciou a
‘Laudatio’, a uma certa altura se pergunta: “Paul Ricoeur não se desvia
definitivamente de Hegel, pelo fato de que não visa o sistema, mas se situa num
conflito de interpretações?.”[23]
As
relações de Ricoeur com a filosofia hegeliana, de fato, são tardias e
ambivalentes. Tardias, porque o pensamento de Hegel está ausente na sua tese de
doutorado,[24] como ele próprio
reconhece. O enfoque do voluntário era demasiadamente subjetivista, quase
solipsista. Era confrontado apenas com o corpo e o mundo, faltando uma confrontação
que é essencial para Hegel: o encontro de uma vontade com outra vontade,
segundo o modelo do mestre e do escravo, e o da liberdade com as instituições.[25] Complexas, porque suas
posições com relação a ela são flutuantes e o próprio Ricoeur admite que
houve um período que parece ter cedido ao que ele chama de ‘tentação
hegeliana’. Ambivalentes, por se sentir fascinado e repelido por ele, um
hegeliano e um anti-hegeliano.
De
qualquer maneira, na sua comunicação, em Bonneval, enumera ao lado de sua
formação fenomenológica, existencialista e das pesquisas de tendências lingüísticas,
aquela da renovação dos estudos hegelianos.[26]
Quando, portanto, Ricoeur analisa o opus
freudiano se serve também de categorias filosóficas retiradas especificamente
da Fenomenologia do Espírito. O
primeiro ensaio dessa confrontação Hegel – Freud se dá em Bonneval.
A
conferência causou uma forte impressão sobre os participantes, inclusive sobre
Lacan que a elogiou publicamente,[27]
parecendo-lhe - ou fingindo acreditar, segundo E. Roudinesco - que as colocações
de P. Ricoeur fossem as mais próximas das suas e tendessem igualmente “para
uma reavaliação da descoberta freudiana”.[28]
3.
Freud e Hegel na comunicação ricoeuriana, em Bonneval.
O
texto de Bonneval - O consciente
e o inconsciente – é o centro focal onde convergem as leituras anteriores
do filósofo sobre Freud, ao mesmo tempo que dele se irradiam as teses futuras
que, na época, apresentava apenas como provisórias. Não foi uma mera reflexão
filosófica sobre o inconsciente psicanalítico, mas uma verdadeira exposição,
mesmo que resumida, de uma primeira interpretação do conjunto da obra
freudiana. Uma ‘exposição’ não apenas de idéias, mas do próprio Ricoeur
que, dez anos depois de ter abordado o problema do inconsciente em sua tese de
doutorado numa perspectiva fenomenológico-existencial é forçado a rever suas posições.
Reconhece
antes de tudo o abalo considerável que constitui para ele, enquanto filósofo,
o encontro com a psicanálise e é forçado a uma dupla confissão que soa como
uma verdadeira autocrítica: “eu não compreendo o inconsciente a partir do
que sei da consciência ou mesmo do pré-consciente”; “eu já não
compreendo sequer o que seja a consciência”.[29]
Em seguida, apresenta três questões novas, que delas decorrem, parecendo três
propósitos de penitenciamento filosófico: “Como devo repensar e reformular o
conceito de consciência para que o inconsciente possa ser o seu
outro?”; “Como... conduzir uma crítica no sentido kantiano [e não mais
fenomenológico] sobre os ‘modelos’ que o psicanalista constitui
necessariamente se quiser dar conta do inconsciente?”; Como construir uma
antropologia filosófica capaz de assumir a dialética do consciente e do
inconsciente, o paradoxo da responsabilidade e da fragilidade, ao aceitar o
descentramento da consciência?[30]
As
respostas, apenas esboçadas como provisórias em Bonneval, apontam para a
necessidade de uma releitura não idealista da consciência, realista do
inconsciente e dialética da relação consciente-inconsciente. Uma releitura
que encontrará, cinco anos mais tarde no Ensaio
sobre Freud, o desfecho mais
sistematizado.[31]
Destaco
aqui a inspiração hegeliana no projeto ricoeuriano de retomar a problemática
da subjetividade, integrando as contribuições de Hegel e Freud. É preciso
pensar consciente e inconsciente um pelo outro e não um contra o outro;
renunciar a uma filosofia e psicologia imediata da consciência para aceder à
ela como tarefa, seguindo o método reflexivo que parte do movimento objetivo
das figuras do Espírito; finalmente, articular
dialeticamente e não ecleticamente as duas hermenêuticas dos símbolos
culturais, isso é, a progressiva (fenomenologia do espírito) e a regressiva,
(arqueologia do inconsciente).
Quer
isso dizer que, justapondo ecleticamente o Ego freudiano e o Selbst hegeliano,
teríamos uma compreensão mais ampla e verdadeira do ser humano? Evidentemente,
não é essa a resposta de Ricoeur. Arqueologia e teleologia não são duas
metades que um discurso da ontologia do sujeito deve integrar. Cada uma delas
pretende explicar a totalidade do homem. Não se pode, portanto, entender Freud
como mestre da opacidade do desejo e Hegel como mestre da luminosidade do espírito,
porque as duas nos falam da totalidade do homem e não de suas partes. Somente
assim, conclui Ricoeur, poderemos compreender a expressão de Freud citada
tantas vezes aqui: Wo es war, soll ich
werden. Onde “Id” estava,
“Eu” (“Je”) devo tornar-me.[32]
Para
Ricoeur, a tarefa de uma antropologia filosófica depois de Freud será
precisamente articular, numa síntese dialética, a economia freudiana do desejo
e a teleologia hegeliana do espírito, a metapsicologia freudiana que desloca o
centro de referência em direção ao inconsciente e a ‘metapsicologia’
hegeliana, em direção ao espírito.
4. Repensando o texto
Na
psicanálise, a luta do Senhor e Escravo se trava no complexo de Édipo, na luta
da criança com a figura parental e na relação transferencial analítica. Em
ambos os casos trata-se de passar de uma situação desigual para outra de
reciprocidade. Mas como saímos do Édipo? Quem nos arranca dele? O que é
tornar-se adulto?
A
resposta de Hegel a essas perguntas seduzem Ricoeur mais do que as de Freud. O
primeiro descreve o percurso de um ser que, partindo do mundo do desejo e do
conflito, entra no mundo de experiências culturais cada vez mais complexas.
Trata-se de percorrer novamente a aventura da consciência que se torna espírito.
É passar do mundo do desejo, cruzar pela experiência do mestre e do escravo,
da consciência estóica, cética, infeliz, entrar na razão etc.
Em
suma, é essa espécie de constituição progressiva de sentido e de si mesmo
que nos arranca de nosso infantilismo e de nosso arcaísmo rumo à maturidade.
Ricoeur vê nisso uma espécie de desenraizamento do desejo, um afastamento do
mundo biológico rumo ao mundo da cultura. Esse movimento para frente
(teleologia), esse sentido que vem no fim, essa verdade que está na frente, se
torna o contrapeso da teoria das pulsões de Freud. A teleologia é um convite a
compreender o sujeito não apenas e só a partir da verdade do desejo e,
portanto, de sua carência, mas também da verdade do espírito e do que pode
ser. O sujeito não é apenas o que é, mas também o que pode tornar-se nas
suas relações com o mundo cultural. Não é só destino, mas também promessa
e história.
Ricoeur,
naturalmente não é um ingênuo a ponto de acreditar que seja possível “após
mais de um século, restaurar a Fenomenologia
do Espírito tal como foi escrita”[33].
As peripécias da consciência na Fenomenologia
são para Ricoeur apenas um ‘exemplo esclarecedor, não constrangedor’,[34]
até um ‘contra-exemplo’ onde os
mesmos problemas se apresentam numa ordem inversa’. Uma ‘homologia’, não
uma analogia.[35]
Apesar
de todas essas precauções e distinções, as aproximações Freud-Hegel não
deixavam de serem suspeitas e arriscadas, mesmo que si situassem dentro do
contexto de renovação dos estudos hegelianos na França. Mais tarde,
reconhecerá que uma certa ambição de totalizar as múltiplas mediações
entre si e si mesmo num sistema de estilo hegeliano se revelaria cada vez mais vã
e suspeita.
Resumindo e concluindo
Aproximamos dois pensadores, o psicanalista Lacan e o filósofo Ricoeur
que se serviram da Fenomenologia do Espírito para pensar a questão do
sujeito recolocada pela psicanálise freudiana. As duas leituras, apesar das
divergências, evidenciam a fecundidade do pensamento hegeliano que certamente
continua provocativo, confirmando a tese de Merleau-Ponty: “Hegel
está na origem de tudo que se fez de grande há um século - por exemplo, do
marxismo, de Nietzsche, da fenomenologia alemã, da psicanálise; ele inaugura a
tentativa de explicar o irracional e integrá-lo a uma razão ampliada que
continua sendo a tarefa do século”.[36]
A
descrição que Hegel nos oferece da consciência é extremamente sedutora:
“ela sai de si, retorna a si, se precipita, é travada,
some, emerge, luta, se exprime, progride, afirma, nega, sofre, morre, crê,
sabe, ignora, se divide, se reconhece, nos arrasta numa sarabanda desenfreada,
freqüentemente inquieta e de repente apaziguada, se erguendo contra a evidência
e cedendo à força das coisas, conhecendo a boa e a má fé, a prisão e o
despertar da liberdade, se elevando enfim à sua verdadeira estatura, à atitude
forte e modesta deste saber absoluto que conhece conceitualmente o mundo
sem nada acrescentar-lhe e estabelece uma exigente identidade entre o que é dado
e o que é compreendido”.[37]
A
descrição de Freud, de Lacan e do próprio Ricoeur – mesmo nas suas diferenças
- certamente é menos narcísica e otimista. Não somos obrigados a uma tomada
de posição que exija de nós uma adesão incondicional a uma ou outra leitura.
A pergunta de Hegel pelo “quem é a
substância?”[38]
ou de Lacan pelo “que sou eu?”[39]
ou de Ricoeur pelo “quem fala, quem age, quem é descrito, quem é o
sujeito moral da imputação[40]
remetem todas à meia verdade que nos é possível atingir em cada época e que,
graça também a eles, somos forçados a repensar continuamente.
[1]
LACAN, J. Subversion du sujet et dialectique du desir dans l´inconscient
freudien. In: Écrits. Paris: Seuil, 1966, p.793-827 (Doravante,
citaremos esse texto por SSDD).
[2]
RICOEUR, P. Le conscient et l´inconscient. In: EY, H. L´inconscient. VI
Colloque de Bonneval. Paris: Desclée de Brower, 1966, p.409-422.
[3]
JONES, E. Vida e obra de Sigmund Freud.
Rio de Janeiro: Zahar, 1979, p.431. O congresso se realizou em Weimer,
de 21 a 22 de setembro.
[4]
Ibidem, p.431
[5]
Cf., especialmente, HYPPOLITE,
J. Phénoménologie de Hegel et psychanalyse. In: Figures de la pensée
philosophique. T. I. Paris: PUF, 1971, p.213-230.
[6]
Cf. LACAN, J. De nos antécédents. In: Écrits. Paris: Seuil, 1966,
p.80
[7]
ROUDINESCO, E. Jacques Lacan: esboço de uma vida. História de um
sistema de pensamento. S. Paulo: Companhia das Letras, 1994, p.102.
(Doravante, citaremos por JL).
[8]
Kojève ministrou seu famoso seminário sobre a Fenomenologia do Espírito
durante seis anos, de 1933 a 1939, todas as segundas feiras, a partir das
19:30. Lacan esteve inscrito nesse seminário na lista de ‘ouvintes assíduos’
durante três anos, de 1934 a 1937. As lições de Kojève foram reunidas e
publicadas depois da guerra por Raymond Queneau. KOJÈVE, A. Introduction
à la lecture de Hegel: leçon de 1933 a 1939 à l’EPHE réunies et publiées
par Raymond Queneau. Paris: Gallimard, 1962. (Primeira edição: 1947).
[9]
JL, p.118.
[10]
Ibidem, p.119.
[11]
LACAN, J. Fonction
et champ de la parole e du langage en psychanalyse. In: Écrits.
O.c., p.237-322.
[12]
Ibidem, p.268.
[13]
Ibidem, p.279.
[14]
Ibidem, p.292.
[15]
No terceiro número de La Psychanalyse, foi
publicada a conferência que pronunciou, no dia 11.05.1955, na SFP,
relacionando a psicanáaise com a Fenomenologia do Espírito. Cf. HYPPOLITE,
J. Phénomenologie de Hegel et psychanalyse. In: Figures de la pensée
philosophique. p.213-230.
[16]
Roudinesco, E. História da psicanálise na França. A batalha dos cem
anos. Vol. II: 1925-1985. Rio de
Janeiro: Zahar, 1988, p.262. (Doravante, citaremos essa obra por HPF2).
[17]
LACAN, J. L´instance de la letrte dans l´inconscient ou la raison depuis
Freud. In Écrits. O.c., p.493-528.
[20] SSDD, p.802
[21].
HEGEL. Fenomenologia do Espírito. Trad. Paulo Meneses. 7 ed. Rev.
Petrópolis, RJ: Vozes: Bragança Paulista:
USF, 2002, p.34.
[22].
Cfr. HYPPOLITE, J. La “phénoménologie” de Hegel et la pensée française
contemporaine. In: Figures de la pensée
philosophique. Tome I. Paris: Presses Universitaire de Fance, 1971,
p.235ss.
[23]
PÖGGELER, O. Conflit des interprétations. “Laudatio”, en l’honneur
de Paul Ricoeur (14 juin 1985). Archives de Philosophie, 52, p.3-11,
jan./mars 1989. A citação é da p.9. A resposta que o orador nos apresenta
já revela em parte as aproximações possíveis entre o pensamento de
Ricoeur e o de Hegel, bem como os limites intransponíveis. Destaca a
utilização ‘detalhada’ da Fenomenologia do Espírito por parte de
Ricoeur no livro sobre Freud. Reconhece, ao mesmo tempo, que a teleologia de
que nele se fala não tem por objetivo o saber absoluto, mas a compreensão
de uma história aberta e dotada de um certo sentido.
[24] RICOEUR, P. Philosophie
de la volonté, I. Le voluntaire et l´involuntaire. Paris: Aubier, 1950
[25] . RICOEUR, P. Hegel
aujourd’hui. Étude théologique et religieuses, 49, n.3, 1974,
p.348-349.
[26] RICOEUR, P. Le conscient
et l’inconscient. In Ey, H. L’inconscient. O.c., p.411.
[27]
Cf. a entrevista concedida por Ricoeur a François Azouvi e Marc de Launay. La
Critique et La Conviction.
Paris: Calmann-Lévy, 1999, p.107-108.
[28]
HPF2, p.417.
[29]
RICOEUR, P. Le conscient et l’inconscient. In: EY, H. L’inconscient.
O.c., p.409.
[30]
Ibidem, p.409-410.
[31]
RICOEUR, P. De l´interprétation:
essai sur Freud. Paris: Seuil, 1965. (Doravante, DL). As três questões
de Bonneval - a da noção de consciência, a epistemológica (a crítica
dos conceitos freudianos) e a antropológica (a dialética do consciente e
do inconsciente) - formam o tripé da exposição de Ricoeur, antecipando o
que no Ensaio sobre Freud chamará de problema epistemológico (como o
discurso energético e hermenêutico se articulam em Freud); problema
reflexivo (a nova compreensão do ‘si’ fornecida pela psicanálise);
problema dialético (a interpretação da cultura como arqueologia e
teleologia).
[32]
Ibidem, p.422.
[33]. DL, p.448
[34].
RICOEUR, P. A questão do sujeito. In: Conflito das Interpretações.
Rio de Janeiro: Imago, 1978, p.206.
[35]
DL, p.446.
[36]
MERLEAU-PONTY, M. Sens et non sens. Nagel, 1948, p.109.
[37]
JARCZYK, G. e LABARRIÈRE, P. -J. Présentation. In: Phénoménologie de
l’Esprit par G.W.F. Hegel. Paris: Gallimard, 1993, p.22.
[39] SSDD, p.819