Ano 2º - N.º 03 Dezembro de 2005
O vínculo conceitual da
filosofia
Profa. Dra. Maria Helena
Franca das Neves - (UNIME – União
Metropolitana de Educação e Cultura Lauro de Freitas – Faculdade S. Bento -
Salvador/ Brasil)
Resumo
A Comunicação O VÍNCULO CONCEITUAL DA FILOSOFIA tem como objeto de estudo o Prefácio à Fenomenologia do Espírito, que Hegel escreveu em 1807, em Bamberg, onde corrigia as provas para a edição da obra. Como se sabe, o Prefácio constitui uma grandiosa introdução ao Sistema da Ciência, porém o que aqui se enfatiza é a pretensão de Hegel em fazer da filosofia um sistema conceitual.
À Filosofia tida freqüentemente como ‘’um saber formal e vazio de conteúdo’’, Hegel pretende que se inscreva como filosofia do acontecimento de verdade, conceito do mundo novo, o mundo burguês em nascimento. O teórico do Logos, que coloca no movimento do conceito a própria razão existencial da ciência, atribui-se ao propósito de trabalhar no sentido de que a Filosofia se aproxime da forma da ciência, e passa então, a elaborar a meta na qual a filosofia possa deixar seu nome de amor do saber e ser saber efetivo.
Palavras chaves: Conceito; Filosofia; Amor ao saber; Saber-poder-tecnologia, Saber efetivo; Sistema; Devir
Gilles Deleuze supunha que só poderemos colocar a questão O que é Filosofia? tardiamente, quando chega a velhice, a hora de falar concretamente (2000, 9). Em Hegel - o pensador da Revolução francesa, 1- o momento para colocar a questão O que é Filosofia? vem a ser o tempo de transição. A hora de nascimento, de passagem de estilos, de idades, de transformação de conceitos:
(
...) não é difícil ver que nosso tempo é um
tempo de nascimento e passagem para um novo período.(...) O Espírito [sic]
rompeu com o mundo de seu existir e do seu representar que até agora subsistia
e, no trabalho da sua transformação está para mergulhar esse existir e
representar no passado. (Hegel, 1992, 196).
No momento em que a Europa, na carpintaria da estrutura do seu novo mundo, dava um salto qualitativo, Hegel propôs a conexão da filosofia à ciência, por uma pedagogia do conceito, um conceito não-dado, criado, estando por criar; não formado, ele próprio pondo-se em si mesmo: o todo que retorna a si mesmo a partir da sua sucessão como da sua extensão.(Id.,ibid.). A Alemanha da época de Hegel marcada pela guerra dos Trinta Anos era atrasada política e economicamente, o despotismo feudal impedia o surgimento de um estado moderno, subjugava-se a liberdade e a cultura. Hegel visualizou a importância e necessidade de se construir um Estado moderno e racional, mediante as suas aspirações democráticas e de liberdade pregou a urgência filosófica de uma ´´idéia ou conceito de estado racional´´.
Ao situar o movimento dialético retorno-sucessão-extensão que exprime por um lado, a contradição do mundo existente, e por outro, a necessidade de superar os limites desse mundo existente, Hegel manifesta a influência do estilo romântico vigente em sua época, elabora o princípio da mutação natural de tal forma que deixa perpassar um certo lirismo característico do romantismo: ‘’O botão desaparece no desabrochar da flor, o fruto surge no lugar da flor como verdade da planta’’(Id, 192).
A grande tarefa que a filosofia ocidental impôs a si mesma, segundo Hegel foi demonstrar o que Heráclito disse com visão profética: tudo flui. Tudo muda exceto a própria mudança. Tudo flui e nada permanece; tudo se afasta e nada fica parado; você não consegue se banhar duas vezes no mesmo rio, pois outras águas e ainda outras sempre vão fluindo; é na mudança que as coisas acham repouso. No entanto isso não quer dizer que para Heráclito tudo fosse um caos, por trás do fluxo e do conflito, ele descobriu um princípio diretor, uma força organizadora que chamou de logos, palavra grega que significa ´´razão´´, ou ´´lógica´´. O logos supera a opinião. A opinião, diz Hegel não concebe a diversidade dos sistemas filosóficos como o progressivo desenvolvimento da verdade, na diversidade a opinião vê apenas a contradição. Em sincronia com a Revolução Francesa, considera a diversidade como o limite do existente, para ele a diversidade começa onde ´´a coisa termina e é o que a coisa não é´´. A Revolução Francesa significou fundamentalmente para Hegel, o triunfo da razão: Todo racional é real, dirá.
Na visão hegeliana é o efetivamente real que põe a si mesmo, o que vive em-si-mesmo, o ser-ai que está no conceito a renovar-se, a transpor-se e a transformar-se. Ou como ele mesmo dirá de forma analógica: ´´Assim como um edifício não está pronto quando foram postos seus alicerces, assim o conceito do todo que se conseguiu alcançar não é o próprio todo´´. (Id,196). Ou seja, a idéia formadora de conceito vai sendo construída em seu contínuo devir o processo.
G. Deleuze considera que os filósofos não se ocuparam o bastante com a natureza do conceito como realidade filosófica, preferindo tomá-los como um conhecimento ou uma representação de dados que se explicam por faculdades capazes de formá-los por abstração ou generalização ou de utilizá-los, como juízo, no entanto, Hegel, segundo o próprio Deleuze mostrava como o conceito ´´nada tem a ver com uma idéia geral ou abstrata, nem tampouco com uma Sabedoria incriada, que não dependeria da própria filosofia´´(Deleuze, 2000, 20).
Hegel, o teórico do Logos, que coloca no movimento do conceito a própria razão existencial da ciência, delega a si próprio o propósito de trabalhar no sentido de que a filosofia se aproxime da forma da ciência, e passa a elaborar a meta na qual a filosofia possa deixar seu nome de amor do saber e ser saber efetivo. Abre-se o caminho para a Epistemologia. Já Kant, em Prolegômenos de suas Lições de Metafísica vai contextualizar a filosofia como ciência.2 Tomando a filosofia como saber prático, efetivo, Hegel pressupõe que o saber filosófico elabora-se em sistema de conceitos por meio do qual o pensamento filosófico produz a universalidade do saber, ou seja, produz o conhecimento cultivado e acabado, inteligível, pois, dirá Hegel, a justa exigência da consciência que se aproxima da ciência é chegar ao saber racional por meio do entendimento.Defende a democratização do conhecimento, porquanto para ele a forma inteligível da ciência ´é o caminho para ela oferecido a todos e tornado igual para todos´´.´ (Hegel, 1992, 197). A democratização do conhecimento é um dado que merece destaque e que faz do Prefácio à Fenomenologia do Espírito um documento de inovador confronto ao tradicional sistema de conhecimento da época.
O pensamento hegeliano ao estabelecer o vínculo conceitual da filosofia subsumiu o conhecimento ao entendimento, em outras palavras, subordinou a questão do conhecimento ao entendimento, por sua vez é no entendimento que se dá a criação de conceito, porquanto a razão em pleno domínio do conhecer penetra no campo de novas significações geradas no contexto da própria democratização desse conhecer.
Em Hegel entender é pensar: O entendimento é o pensar, um movimento do Eu por meio do qual a consciência não-científica pode penetrar imediatamente na ciência. Para Deleuze pensar é experimentar no tempo histórico. ´´Sem história, a experimentação permaneceria indeterminada, incondicionada, mas a experimentação não é história, ela é filosófica´´. (Deleuze, 2000, 143). Kant emprega a expressão a posteriori para designar todos os raciocínios que resultam da experiência. Para Hegel a experiência é dialética. Mais uma vez Hegel prega a criação de um novo modelo. Na filosofia grega dialética significa a arte do diálogo e da discussão. Na filosofia medieval, equivale a lógica formal em oposição à retórica. O termo dialética é utilizado por Hegel para compreender e exprimir a real situação do mundo. A dialética hegeliana é um método de pensar o mundo através de uma vontade de efetiva funcionalidade com vistas a superar as limitações geradas por uma realidade social dividida, alienada, contraditória. A História é para Hegel, a realização e a construção do Espírito Absoluto, que se manifesta como processo de experiência, de conquista de si mesmo e, desta forma, de libertação, de autolibertação.
Na filosofia de Hegel distinguem-se dois tipos de universalidade: o universal concreto e o universal abstrato. O universal concreto ou existencial dá-se no plano ideal onde as coisas adquirem existência, ou seja, na História, na experimentação, enquanto que o universal abstrato é formado por uma operação do espírito (razão) que isola os elementos comuns de um dado objeto para expressá-los por um conceito. O espírito (o eu) dispõe-se à atividade seja pelo exercício contínuo da razão, do logos, em seu processo de renovação e mudança, seja pela disponibilidade, ou movimento espontâneo da autoconsciência em despojar-se de presunçosas arrogâncias e entregar-se à busca ´´cultivada´´ do saber:
Tal universalidade não é nem a indeterminação e indigência do senso comum, mas o conhecimento cultivado e acabado, nem a universalidade extraordinária da disposição da razão que se corrompe com a preguiça e a presunção do gênio, mas a verdade que cresce até alcançar sua forma ingênita, capaz de se tornar a propriedade de toda razão consciente-de-si. (Hegel, 1992, 224)
Nos dias atuais de pleno enfrentamento da questão do saber-poder-tecnologia, da razão corrompida pela ambição desmesurada, corrupta e corruptora, pela violência, a tarefa propriamente filosófica da construção conceitual pode ser uma estratégia de referência ou de coordenação entre filosofia-ciência-tecnologia-ética-estética-arte.
Na visão de Deleuze é forçoso que a filosofia, a ciência e a arte se coloquem numa independência respectiva, suscitando entre elas relações de conexão.
A questão conduz ao seguinte corolário: se ao retomar o caminho do que Hegel denomina ´´conhecimento cultivado e acabado`` em detrimento da ``indeterminação e indigência do senso comum``, se ao descobrir que ``o movimento do existente consiste, de uma parte, em tornar-se outro e, desse modo, tornar-se conteúdo imanente a si mesmo`` (Hegel, 1992, 215), não poderá esse movimento dialético de uma parte, nos permitir examinar até que ponto o próprio sistema hegeliano alcança um grau de objetividade e precisão que nos levará à concepção dialética do conceito, e de outra parte, facultará um modelo de reflexão sobre como fazer do filosofar uma tarefa séria no seio do império do capitalismo contemporâneo em que a única coisa que é universal e que se diz conceitualista é o mercado?3
A Filosofia diz Hegel, tida freqüentemente como um ``saber formal e vazio de conteúdo``, deverá inscrever-se como Filosofia do acontecimento de verdade, conceito do mundo novo, o mundo burguês em nascimento, o mundo do homem revoltado (revolucionário), Hegel indaga:
Onde
se poderia exprimir melhor o cerne de um escrito filosófico do que nos seus
fins e resultados, e onde poderiam estes ser melhor conhecidos do que na
diversidade com o que a época atual produz na mesma esfera? (Hegel, 1992, 192).
Albert Camus em L`Homme Revolté descreve como a liberdade é subjacente ao princípio de todas as revoluções e estas, por sua vez, surgem a partir das idéias. A revolução diz Camus, começa a partir da idéia. Precisamente, ela é a inserção da idéia na experiência histórica, uma revolução é uma determinação, uma tentativa de modelar o ato sobre uma idéia, a determinação de configurar o mundo em um plano teórico. (Camus, 1965, 516)4. O que a filosofia questiona não é o abstrato ou o que é privado de realidade efetiva, o sujeito do olhar filosófico, na visão hegeliana é o efetivamente real, o que ‘’põe-a-si-mesmo, o que vive-em-si-mesmo, o ser-aí que está no seu conceito´´ dirá Hegel, ao fazer a distinção entre conhecimento filosófico e conhecimento matemático, determina o caminho teleológico do sistema filosófico, entendendo que a ´´ razão é o agir de acordo com um fim. (...). O fim atualizado ou o efetivo existente é o movimento e devir desenvolvido´´. (Id., 200).
Em Filosofia do Direito Hegel lembra: aconteça o que acontecer, cada indivíduo é filho de seu tempo; da mesma forma, a filosofia resume no pensamento o seu próprio tempo. Considerando o elemento da filosofia como o processo que engendra e percorre seus momentos, sendo esse movimento na sua totalidade o que constitui o efetivamente real, a filosofia, dirá Hegel, considera a determinação enquanto essencial, vinculada à construção da idéia, tomando o em si e o por si como processo dialético de determinação. O conceito em si compreende o pensamento em seu imediatismo e o por si, o pensamento em sua reflexão e mediação, a essência da idéia, maturada no processo de crítica contra a pretendida riqueza e imediatismo da experiência sensível.
O real em Hegel se dá como devir, movimento, passagem, mediação, a dialética do saber e do real, tomados como elementos universais. Para Hegel a filosofia reside essencialmente no elemento da universalidade, que contém o particular. Os conhecimentos mais imediatos como o saber matemático, ou o senso comum, na visão hegeliana fazem parte da categoria do em-si e carregam a cristalização de tradições, de modalidades de educação e devem ser interpretados ou compreendidos sob o olhar da mediação, ou a determinação de-si. .A filosofia é o saber capaz de ler a subjacência mediatizada que esses conhecimentos carregam na sua imediatidade.
L. M. Veit, em `´O Conceito de Experiência em Hegel´´ observa como Hegel contribuiu para a compreensão de que o olhar sobre qualquer objeto é sempre um olhar falado, educado, determinado pelo tempo e lugar e mil outras formas oriundas de passadas experiências advindas por sua vez, de antigas vivências. É nessa engrenagem de mediação que se concebe o processo do saber filosófico e a contribuição que Hegel prestou ao saber. Diz Veit:
Não existe mais a experiência imediata. Tudo é determinado por um tecido de reenvios. A verdade está na Totalidade. A experiência fora sempre dialética e mediatizada, mas Hegel o compreendeu e demonstrou. E isso faz toda diferença. Esta tese desalojou muitas certezas e introduziu graves suspeitas sobre o bem fundado de certezas adquiridas em todos os domínios, até em ciência e matemática. Isso porque o próprio sentido da verdade se viu transformado. A história emerge como o lugar obrigatório, o modo essencial da verdade e do ser. (Veit, 1983, 33).
Hegel vê na universalidade conceitual a saída para a elevação da filosofia à condição de ciência, porquanto compreende que ``os pensamentos verdadeiros e a intelecção científica somente podem ser alcançados no trabalho do conceito. Somente esse trabalho pode produzir a universalidade do saber.``(Hegel, 1992, 224). A escatologia ocupa uma função aliada à mediação propiciadora da criação de conceitos ou encontro com o juízo verdadeiro:
Devemos
estar convencidos de que o verdadeiro tem a natureza de romper adiante quando o
seu tempo chegou, e de que ele somente aparece quando chegou esse tempo. Por
essa razão o verdadeiro nunca chega cedo demais nem encontra um público
imaturo. (Id., 225).
Deleuze defende que os conceitos e as funções científicas se cruzam necessariamente, cada um sendo criado por seus meios próprios. É por isso, diz, ´´ que é sempre desagradável que os cientistas façam filosofia sem meio realmente filosófico, ou que os filósofos façam ciência sem meio efetivamente científico (...). O conceito não reflete sobre a função, nem a função se aplica ao conceito. Conceito e função devem se cruzar, cada um seguindo sua linha´´.(Deleuze, 2000, 207).
De agora em diante, a grande aventura é compreender o desenvolvimento da experiência conceitual filosófica na área de mercado, na era do marketing on line. Pierre Lévy considera que esse novo marketing pode ser caracterizado como ´´o processo de criação de interfaces dinâmico e circular, por meio do qual a consciência coletiva toma consciência de si e se manipula´´. Refletindo sobre o fenômeno de transformação social que estamos vivendo, e estabelecendo o ponto de junção entre a economia e a inteligência, supõe que ´´o centro secreto da sociedade humana do futuro é provavelmente a capacidade de escuta e de manipulação da consciência coletiva que flutua nos milhões de canais do ciberespaço’’ e pondera: ´´Quem acreditaria que o pensamento, pensando a si mesmo, primeiro motor da metafísica em Aristóteles, ou o espírito absoluto tomando consciência de sua liberdade em Hegel, tomariam essa forma?´´ Logo em seguida responde:
Mas
é assim. As instituições, os Estados, os partidos, as administrações públicas,
as universidades, os museus, as empresas, as associações, os grupos de
interesse, os indivíduos, todos aqueles que negligenciarem os estudos das
melhores maneiras de se inserir nos processos de inteligência coletiva e de
distribuição da atenção que estão em jogo em um ciberespaço planetário não
poderão mais pretender desempenhar um papel importante no mundo que virá.(Lévy,
2001,60).
Na área do marketing, a filosofia se propõe a refletir não sobre verdades adquiridas, mas sobre a idéia de uma investigação livre, em busca das finalidades. A Sabedoria –ferramenta da filosofia – define-se como a busca das finalidades, como define Boécio5. Segundo Merleau Ponty reconhece-se o filósofo ‘’pela posse inseparável do gosto da evidência e do sentido da ambigüidade ´´(Mearleau-Ponty, 1998, 10). O filósofo busca compreender o sentido da situação humana, nisto determina-se a questão da ambigüidade. De uma forma resumida podemos aqui esclarecer o sentido conceitual dessa palavra, (ambigüidade) que representa o equívoco entre dois termos, e que vem a ser o movimento pelo qual podemos alcançar o interior do ser (das coisas), para vislumbrar o absoluto filosófico ou o interior do ser que se movimenta na história, na ambigüidade de um mundo cuja imagem renovada é apenas uma maneira dialética de aliar valores e acontecimentos. O absoluto filosófico não se situa em parte alguma, nunca está fora do acontecimento, ele é o próprio acontecimento, portanto fenomenológico. Ponty assinala que ``qualquer filosofia é também uma arquitetura de sinais, forma-se em estreita relação com as outras formas de contacto que constituem a vida histórica e social``:
A
filosofia está no seio da história; não é nunca independente do transcurso
histórico. (..) Em contacto com todos os fatos e experiências, procura captar
rigorosamente os momentos fecundados em que um sentido toma posse de si próprio,
recupera e impele para além de qualquer limite o devir da verdade que pressupõe
e faz que haja uma única história e um único mundo. (Merleau-Ponty, 1998, 72,
3).
Ensinar Filosofia na área de estudo administrativo do marketing ou para um alunado egresso de uma educação positivista pode ser algo no mínimo utópico, especialmente levando-se em conta na era do imediatismo, a maturação exigida pelo conhecimento filosófico, pois como dirá Hegel, o sujeito se automediatiza pela reflexão (Id, 208), a filosofia então aparece como que deslocada. Merleau-Ponty pondera:
Há
razão para temer que também o nosso tempo rejeite o filósofo em si próprio e
que, mais uma vez, a filosofia seja apenas nuvens. Pois, filosofar é
procurar, é afirmar que há algo a ver e a dizer. Ora, hoje, quase não se
procura. ´´Regressa-se´´, ´´defende-se´´ uma ou outra tradição. As
nossas convicções fundam-se menos sobre valores ou verdades descobertas do que
sobre os vícios e os erros (...). O nosso pensamento é um pensamento
aposentado ou enrugado. Todos expiam a sua juventude. Esta decadência está de
acordo com o processo da nossa história. Passado um certo ponto de tensão, as
idéias deixam de proliferar e de viver, caem no plano das justificações e dos
pretextos, tornam-se relíquias, pontos de honra, e aquilo a que pomposamente
chamamos o movimento das idéias reduz-se ao conjunto das nossas nostalgias, dos
nossos rancores, dos nossos acuamentos, das nossas fobias. Neste mundo em que a
negação e as paixões mal-humoradas ocupam o lugar de certezas, não se
procura fundamentalmente ver, e a filosofia, porque pretende ver, é tida como
impiedade.(Id. , 55, 6).
O tema do saber ou a questão do conhecimento tem uma inserção clara na filosofia de Hegel. No Prefácio à Fenomenologia do Espírito entre as caracterizações que faz da filosofia, encontra-se a que considera a filosofia ´´o conhecimento efetivo do que é em verdade´´, quer dizer com isso que a teoria acerca da realidade exige uma contínua elucidação do que é o conhecimento, o saber, o pensar no processo mesmo de coisa sabida, na relação interna e estrutural entre ser-pensar ou sujeito-objeto.
Ciência em Hegel não tem a ver com uma acepção positivista, mas dialética, método que consagrou a teoria do conhecimento da filosofia moderna. Ele considera que a necessidade interior de que o saber seja ciência reside na própria natureza do saber e só a filosofia esclarece satisfatoriamente tal necessidade. A filosofia é verdadeiramente conceitual segundo Hegel porque a filosofia é o ato de compreender a realidade tal como é, na sua vida, e no seu movimento.
Deleuze dirá:- ´´Não é nos grandes bosques nem nas veredas que a filosofia se elabora, mas nas cidades e nas ruas, inclusive no que há de mais factício nelas´´. (Deleuze, 1994,270,1) Existe aí uma conjunção com o pensamento de Hegel, para quem ´´a filosofia reside essencialmente no elemento da universalidade, que contém em si o particular’’(Hegel, 1992, 191).
A nossa relação com a verdade passa pelos outros, não há verdade solitária, diz Merleau-Ponty. Levar o discurso filosófico para uma concentração em negócios humanos é uma tradição socrática – pelo discurso aprendemos como viver ensinava Sócrates. Hegel defende em Prefácio à Fenomenologia do Espírito, a necessidade da elaboração da cultura filosófica, pois esta leva o conceito à imersão na profundidade da coisa, a fim de que se forme um juízo de verdade, gênese do diálogo, do encontro com o outro, ou como ele dirá: ´´então tal conhecimento e modo de julgar conservarão seu devido lugar na conversação´´. (Id, 193).
1Hegel
se presenta, pues, ante la historia, com mayor motivo que los demás filósofos
alemanes (Kant, Fichte), como el pensador de la Revolución francesa. La
percibe y reflexiona sobre ella y sobre su continuación, la epopeya napoleónica,
desde el fondo de sua Alemania atrasada. El filósofo alemán no se contenta
com transcribir los hechos políticos en su lenguaje. Los sitúa en una
perspectiva y para ello crea su lenguaje, el del concepto. .(Lefebvre, 1976,
75)
2
... Quando reunimos conjuntamente todos os conceitos puros, isto é, aqueles
que são totalmente separados dos conceitos empíricos, temos uma ciência.
O conhecimento filosófico consiste no conjunto dos conceitos puros a
priori. (Kant, 2002,46)
3 Como a filosofia, essa velha senhora, poderá alinhar-se com os jovens executivos numa corrida aos universais da comunicação para determinar uma forma mercantil do conceito,(...)? Certamente, é doloroso descobrir que ``Conceito`` designa uma sociedade de serviços e de engenharia informática. Porém, quanto mais a filosofia tropeça em rivais imprudentes e simplórios, mais ela os encontra em seu próprio seio, pois ela se sente preparada para realizar a tarefa, criar conceitos, que são antes meteoritos que mercadorias. Ela tem ataques de riso que a levam ás lágrimas. Assim, pois, a questão da filosofia é o ponto singular onde o conceito e a criação se remetem uma ao outro. (Deleuze, 2000, 19, 20)
4 La révolution commence (...) à partir de l’idée. Précisément, elle est l’insertion de l’idée dans l’expérience historique (…).
5 ...., a Sabedoria consiste em avaliar a finalidade de todas as coisas, (...) (Boécio, 1998, 26)