Ano 2º - N.º 03 Dezembro de 2005
Alessandra
Uchôa Sisnando (Mestranda/UFPE- Brasil)
Na Fenomenologia do Espírito, Hegel nos oferece o que denomina como a escada necessária para que o indivíduo chegue à compreensão de si mesmo enquanto espírito. O saber de si enquanto espírito seria, pois, o mais alto grau ao qual o saber poderia chegar. Entretanto, esse espírito que já é desde o início, não se sabe a si mesmo, e seria neste percurso que a consciência parte da chamada certeza sensível até o saber absoluto.
No sentido dessa longa construção a fenomenologia do espírito aparece como o caminho a ser percorrido pela consciência, que ao final desse périplo parte do saber que é um conhecer absoluto em direção ao ser, saber e conhecer nesse momento são uma e a mesma coisa.
Como citamos anteriormente o espírito está presente desde o início, ele já é. Entretanto, só por meio da figuras da consciência (certeza sensível, percepção, entendimento, consciência infeliz, etc.) é que pode tornar-se verdadeiramente espírito, pois é necessário que para tal possua a consciência-de-si enquanto espírito. Só esta consciência plena, pode garantir ao homem seu desejo último, a mola que o impulsiona na vida, ou seja, o ser livre. Deste modo, a consciência passa por momentos que vão desde o estranhamento com o outro, quando o outro ou o objeto é estranho a ela, momento da certeza sensível até a incorporação do outro como uma parte de si, a percepção, para então, uma posterior compreensão, de que o outro não é uma parte, mas outro de si mesmo. Só por meio desse reconhecimento é que o indivíduo compreende o outro como o si mesmo. A consciência caminha de uma certeza ingênua sobre o objeto, uma certeza imediata ligada aos sentidos, passa pela percepção, onde se utiliza da abstração, para posteriormente compreender que a única verdade é a certeza de si mesmo, pois no interior do objeto ela só descobre o mesmo que no exterior, ou seja, a si mesma.
Fica claro pois, que a consciência-de-si necessita de um outro a partir do qual faz um retorno sobre si mesmo. E ao suprassumir essa relação imediata com esse seu outro se coloca como desejo. Entretanto, o desejo propriamente humano só é encontrado quando o outro é mais que um objeto, mas antes, outra consciência-de-si que também é desejante. Portanto, o desejo deve evoluir de um desejar o outro enquanto objeto, para o desejar o desejo do outro, ou em última instância, o desejo de ser reconhecido pelo outro enquanto consciência-de-si, enquanto sujeito ou espírito.
Com efeito, conforme o nosso inesquecível Pe. Lima Vaz “O sujeito humano se constitui tão-somente no horizonte do mundo humano e a dialética do desejo deve encontrar sua verdade na dialética do reconhecimento”.[1] É na dialética do reconhecimento, que Hegel trata mais detidamente das questões referentes ao desejo, aqui de momento, só nos interessa a compreensão básica da importância e do papel da consciência na obra hegeliana. Pensamos pois que a consciência é o ponto chave através do qual o espírito pode saber a si mesmo enquanto espírito, o que propicia o único meio de tornar o indivíduo realmente livre de um espírito no qual apenas possa estar posto como consciência alienada.
O caminho para essa liberdade em Hegel parece ser o próprio fim ou finalidade do desejo, contudo, considerando o que nos ensina o próprio Hegel, isto é, que “o verdadeiro é o vir-a-ser de si mesmo, o círculo que pressupõe seu fim como sua meta, que o tem como princípio, e que só é efetivo mediante sua atualização e seu fim.”[2] Seria o próprio produzir ou o próprio trabalho do Conceito que já seria a possibilidade da liberdade, em outras palavras, seria o meio enquanto movimento de produzir-se a si mesmo e não o fim enquanto algo definitivo, cristalizado, estático; a realidade efetiva da liberdade humana seria um meio que teria como requisito básico a consciência-de-si.
Numa longa citação de Hegel que nos permitimos usar para concluir:
“A consciência-de-si só alcança sua satisfação em uma outra consciência-de-si.” Para tanto, é necessário considerar os três momentos nos quais a consciência-de-si alcança o seu conceito:
“a) O puro Eu indiferenciado é seu primeiro objeto imediato.
b) Mas essa imediatez mesma é absoluta mediação: é somente como o suprassumir do objeto independente; ou seja, ela é desejo. A satisfação do desejo é a reflexão da consciência-de-si sobre si mesma, ou a certeza que veio-a-ser verdade.
c) Mas a verdade dessa certeza é antes a reflexão redobrada, a duplicação da consciência-de-si. A consciência-de-si é um objeto para a consciência, objeto que põe em si mesmo seu ser-outro, ou a diferença de-nada, e nisso é independente. (...)
É uma consciência-de-si para uma consciência-de-si. E somente assim ela é, de fato: pois só assim vem-a-ser para ela a unidade si mesma em seu ser-outro.O Eu, que é objeto de seu conceito, não é de fato objeto. Porém o objeto do desejo é só independente por ser a substância universal indestrutível, a fluida essência igual-a-si-mesma. Quando a consciência-de-si é o objeto, é tanto Eu quanto objeto.”[3]
O que emerge desse movimento de constituição de si é: “Eu, que é Nós, Nós que é Eu.
A consciência tem primeiro na consciência-de-si, como no conceito de espírito, seu ponto-de-inflexão, a partir do qual se afasta da aparência colorida do aquém sensível, e da noite vazia do além supra-sensível, para entrar no dia espiritual da presença.”[4]
[1] Lima Vaz, H. C. – In Apresentação na edição brasileira da Fenomenologia do Espírito, pp 21,22.
[2] Hegel, G. W. F. – Fenomenologia do Espírito, p.35.
[3] Id., pp. 141, 142.
[4] Ibid., p.142.