ISSN 1980-8372

REVISTA ELETRÔNICA ESTUDOS HEGELIANOS

Revista Semestral do Sociedade Hegel Brasileira - SHB

Ano 3º - N.º 04 Junho de 2006

 

 BEM-AVENTURADA VIDA ÉTICA

LEITURA E REPRESENTAÇÃO DA INDIVIDUALIDADE, NECESSIDADE E TRABALHO NO SISTEMA HEGELIANO

 Prof. Dra. Maria Helena Franca Neves -Fac São Bento, UNIME/BA

 

Resumo

 Este artigo faz uma abordagem ao Sistema da Vida Ética, concentrando-se no primeiro capítulo (A Vida Ética Absoluta Segundo a Relação) para demonstrar como Hegel através da reflexão sobre a construção da individualidade, trata do trabalho humano no processo de transformação da realidade objetiva, no curso da qual o homem se autoconstrói. A idéia hegeliana  de ver o indivíduo como produto da sua ação, isto é como ser determinante da autocriação, é aqui enfocada como ponto de partida para a questão da alteridade, do indivíduo em relação com o outro,  sob a égide do pensamento, pois no entender de Hegel pensar sobre alguma coisa altera a própria coisa. Considerando a racionalidade elemento de transformação do homem e gestação da moral, Hegel propõe a relação individualidade-necessidade-trabalho-fruição, como elementos fundacionais do devir ético, berço da bem-aventurada vida ética.

Palavras-chave: natureza – real – individualidade – trabalho – necessidade-ferramenta-utensílio – autocriação – devir ético – bela vida ética – ataraxia.

 

 

O Indivíduo, Sujeito das Ações e dos Acontecimentos

Ninguém é por si mesmo para a totalidade da sua necessidade. (Hegel, 1991,76)

 

A compreensão do Sistema da Vida Ética (1802) passa, necessariamente, pela inserção do tratado hegeliano no amplo processo de transformações ao qual a Europa esteve submetida durante o final do século XVIII e início do século XIX. Contemporâneo da ampla crise do Antigo Regime, quando se desencadeava na França o longo processo de constituição de modelos político-institucionais alternativos, díspares entre si, o sistema ético de Hegel (obra da juventude), evidencia alguns dos principais e marcantes traços do seu momento histórico – o do Romantismo, a influência do pensamento de Rousseau, e o empenho de formação na Alemanha, de um estado moderno - assim é que Hegel começa o seu tratado ético segundo a concepção romântica da natureza, 1 ainda que sob o privilégio da explicação lógica da realidade, que o leva a reduzir ao desenvolvimento da Idéia o domínio da existência, o racional e o real e orquestrar uma austera filosofia política de intervenção do Estado que é por ele considerado como o racional em si e por si. Dirá, em Filosofia do Direito: ´´O Estado é a realidade da Idéia ética´´. ( Hegel, 1944, 210§257).

O pensar e o conhecer são os dois grandes elementos estruturais que fazem a realidade da vida humana e resultam no agir existencial,2  este ponto de vista hegeliano, absorvido por Dilthey, pode ser tomado como elemento sinalizador para a compreensão do Sistema da Vida Ética. Tanto em Estética quanto no Sistema da Vida Ética o espírito - a Idéia absorve a natureza. Na fusão sentir e pensar processa-se a intuição da quididade da natureza, que passa a figurar como realidade conceitual. Para Merleau-Ponty a natureza é tratada por Hegel como fenômeno de perda.  No entender de Hegel: ´´a natureza nada mais é em si do que a subsunção da intuição no conceito´´ (ob.cit, 13,4). Interpreta-se: a natureza condensada (perdida) na intuição e expressando-se conceitualmente.

No enunciado hegeliano da idéia, o real eleva-se a objeto absoluto da consciência, ou sistema de identidade idéia-natureza, com suas determinações. Hegel, mais tarde, ao escrever o tratado de lógica, grifa: `` todo o real, na medida em que é verdadeiro, é a idéia: e tem a sua verdade somente por meio e por força da idéia``. (Hegel, 1936,201). Mais adiante, acrescenta:

As diversas maneiras de conceber a idéia como unidade do ideal e do real, do finito e do infinito, da identidade e da diferença, e assim por diante, são mais ou menos formais, designando elas um grau qualquer do conceito determinado. (id.ibid., 203,4).

É dentro desse quadro que será engendrado com suas especificidades, a constituição do sistema ético. No dizer de J. Hyppolite, `` enquanto Schelling vê na produção da obra de arte a intuição absoluta, que concilia o subjetivo e o objetivo, o consciente e o inconsciente, Hegel, escrevendo em Iena o System der Sittlichkeit, substituiu a obra de arte, como expressão do absoluto, pelo organismo concreto da vida de um povo. A sua primeira filosofia do espírito será a descrição social desde as bases – as necessidades concretas dos homens – até ao topo – o Estado e a religião do povo, grandeza espiritual, ao mesmo tempo subjetiva e objetiva``.(Hypolitte, 1988,17).

O Sistema é a reflexão sobre a construção da individualidade, esse tema será retomado por Hegel em História da Filosofia, ao introduzir a história política ressalta ´´o indivíduo, na singularidade da sua índole, do seu gênio, das suas paixões, da energia ou da fraqueza de caráter, em suma, em tudo o que caracteriza a sua individualidade, é o sujeito das ações e dos acontecimentos´´. (Hegel, 1961,37). O indivíduo passa a ser contemplado filosoficamente, assim é que Hegel será o primeiro filósofo da modernidade a refletir sobre a questão da individualidade, trará o sujeito para o centro do mundo, da sua própria existência, autor da história, enquanto constrói a sua própria individualidade.

O Sistema da Vida Ética abrange dois momentos distintos: o da Ética Natural e o da Ética Absoluta, articulados em três partes, assim compreendidas: A Ética Absoluta Segundo a Relação ou Ética Natural; O Negativo: a Liberdade ou o Crime; Eticidade.

O campo da ética natural ou A Vida Ética Absoluta Segundo a Relação trata da esfera do singular, do particular, estágio do sujeito, onde impera o sentimento ou subjetivismo suprasumido na relação do sujeito com o outro. Estado de movimento dialético de passagem e repouso entre intuição e sentimento: potencia prática: ``Esta intuição, enquanto totalmente mergulhada no singular, é o sentimento; e dar-lhe-emos o nome de potencia prática.``3. (Ob. cit.10). Algumas páginas seguintes esclarece grifando:

A primeira potência é a vida ética natural enquanto intuição; a plena indiferenciação da mesma, ou o ser-subsumido do conceito na intuição; portanto, a natureza propriamente dita. (Ob. cit, 16).

  Apresentando a edição portuguesa de 1991, do Sistema da Vida Ética, Artur Morão4 ao referir-se à primeira parte do estudo – A eticidade absoluta segundo a relação ou Eticidade natural – considera que essa parte ``engloba o domínio das atividades naturais, que promanam da necessidade e do instinto, uso de utensílios, posse; inteligência, linguagem; relação homem-mulher, pais-filho, senhor-escravo. À família segue-se a vida social, na forma de relações de intercâmbio econômico e jurídico (propriedade, troca e contrato). Os indivíduos surgem aqui como figuras jurídicas e constituem simplesmente uma unidade formal, abstratamente quantitativa``5. (Ob.cit., 11), no entanto é na situação relacional que o indivíduo se torna eticamente o sujeito das ações, e moralmente responsável por elas, porquanto o fazer do homem – na relação hegeliana sujeito-objeto-conceito – supõe a trindade dialética pensar-fazer-produzir ou criar, situação determinante da contradição do Certo e do Errado. Logo, uma consciência ética resulta na moral efetiva, no qual o certo é conceitual,  racional e ético, o errado evidencia-se na sua insujeição às  regras ou princípios do sistema da vida moral.

A passagem da ética natural para a ética absoluta exige, supõe Hegel, um processo de reconstrução em si e por si. - (a identidade emerge da diferença, é por essência negativa).(Ob. cit. 16).  A identidade do particular em sua imperfeita relação de unificação com o universal se dá por meio da subsunção da intuição no conceito, uma tentativa de apresentação científica da verdade, esclarece Alfredo Moraes, com quem se continua, a fim de explicitar a subsunção intuição-conceito:

 A metafísica hegeliana enquanto Metafísica do Conceito não será uma reflexão exterior à coisa, mas a Coisa mesma em seu desenvolvimento, a manifestação do conteúdo no movimento do vir-a-ser de si mesmo, a exposição do desdobramento de suas determinações efetivas, o espírito na construção conceitual do conhecimento de si mesmo, na elevação à sua Verdade. (Moraes, 2003, 64).

 A questão da natureza humana se manifestar na intuição, aparece logo explicitada na introdução do Sistema, na advertência sobre a relação entre idéia-intuição:

 Para conhecer a Idéia da vida ética absoluta, deve a intuição estabelecer-se de um modo inteiramente adequado ao conceito, pois a Idéia nada mais é do que a identidade dos dois. (Ob.cit., 13).

A construção da identidade ser-pensar é o primeiro passo para a edificação da vida ética que deve ser absoluta identidade da inteligência com o real ou o determinado, o sujeito das ações.

A Revolução Francesa – que tanto influenciou o pensamento político de Hegel – gerou os sistemas representativos e eleitorais que conhecemos na atualidade, e, ao mesmo tempo, possibilitou o surgimento de uma massa operária cada vez maior e egressa do campo em direção às cidades. A conclamada igualdade revolucionária produziu gradativamente o desaparecimento do indivíduo e foi construindo um monstruoso nivelamento, gerando o surgimento da grande massa e de Estados cada vez mais poderosos perante o indivíduo, capazes de inclusive se não anulá-lo, pelo menos, neutralizá-lo, na sua autenticidade de ser ou de existir. O sujeito enfrenta a questão da relatividade: Na existência, assinala Hegel ´´ o sujeito, não é mais imediatamente qualitativo; mas está em relação e conexão com um outro, com um mundo externo. Com isso, a universalidade recebeu o significado desta relatividade’’. (Hegel, 1936,172).  No entanto, existe toda uma atividade que é sempre individualizada e que se revela na ação. O ativo - diz Hegel - é sempre individual, ´´eu sou o que sou na ação´´.

 As paixões são o elemento ativo, e Hegel não considera que elas estejam sempre opostas à moralidade, embora admita que de acordo com os interesses, muitas vezes, as paixões se portam como más e egoístas, entende que todas as grandes ações realizadas no mundo devem a sua realização à paixão. Tendo em vista a paixão não como sinônimo de interesses particulares, de propósitos egoístas,  muito embora, em geral a paixão seja compreendida como 6 movida pelo subjetivismo e, portanto formal, da energia da vontade e da atividade.

a vontade, por sua vez, movimentando-se na esfera da  potência prática acionada pela necessidade promove a ruptura (separação) entre o subjetivo e o objetivo, a necessidade que resulta da paixão,  pode tornar-se um poder estranho, sobre o qual o indivíduo não tem domínio algum. (Ob.cit, 76).

Hegel faz distinção entre indivíduo e homem, distinguindo no primeiro termo, o particular e no segundo o geral, defende que o indivíduo é, como tal, algo que existe, enquanto que o homem tomado como termo geral ´´não existe´´, ele só existirá concretamente, como um homem determinado, portanto, indivíduo, ou seja o homem burguês: o sujeito. A necessidade concerne ao indivíduo no exercício da potência prática. O sistema da necessidade salienta, compreende-se como ``sistema da  universal dependência  física recíproca  de uns em relação  aos outros´´. (Ob.  cit., 76) 

Segundo M. Inwood os usos que Hegel faz da palavra necessidade são influenciados pelo contraste que Aristóteles faz entre o que é real (energeiai) e o que é meramente potencial (dunamei). Movida no âmbito da necessidade, a separação entre o subjetivo e o objetivo, ocasionará o sentimento de fruição: ´´O sentimento da separação é a necessidade; o sentimento enquanto ser-suprimido da separação é a fruição´´, diz Hegel, no Sistema..(Ob. cit. 16). Assim é que do sentimento natural ou intuição para o racional ou idéia, na esfera da potência prática, gesta-se o sentimento de necessidade, num trânsito relacional de esforço, ou trabalho, propiciador do estágio final: o da fruição.

A práxis  ocorre ao mesmo tempo e com a poiesis, no sentido de formação ou criação da consciência ética, gestada na experiência transformadora do homem (indivíduo) pelo trabalho, ou mais precisamente, pela ferramenta, a tecné, fomento da libertação ética hegeliana.

Em Filosofia do Direito, a caligrafia hegeliana sobre a constituição dos sistemas das necessidades envolvendo a Sociedade Civil, qualifica o trabalho como um sistema de ´´mediação da necessidade e satisfação do indivíduo, (...), e a satisfação das necessidades de todos os demais,(...).´´( Hegel, 1944, 175). 

Na concepção de Aristóteles a natureza nada faz sem propósito,7 ela é  o verdadeiro fim de todas as coisas. Hegel parece retomar esses enunciados aristotélicos como ponto de partida para refletir sobre o contexto da vida ética natural, na qual a própria natureza propicia o movimento dialético das passagens entre negação ou supressão do subjetivo pelo objetivo. Para Hegel a potência se constitui naquilo que é ´´em si´´, como possibilidade interiorizada. Para a realização da potência tornam-se necessários os fins, ou a finalidade. que se processa no movimento do devir ético, sob os auspícios da dialética.  O Sistema penetra no campo histórico da natureza ao tentar determinar a gestação da consciência ética em seu primeiro estágio, o do sentimento ou intuição, que denomina de potência prática, e cuja característica é ser particular e concernente ao individual, apresentando-se, através de esferas, onde estabelece as relações de relativismo natural do homem com elementos fundacionais projetados pela própria natureza humana da qual emanam os sentimentos (potência prática) de necessidade e de satisfação (fruição), estabelece-se portanto, o ciclo do devir ético ou trânsito operacional de autoconstrução do sujeito.

A atividade prática material, especialmente, o trabalho, era considerada no mundo grego e romano como uma atividade indigna dos homens livres e própria dos escravos. Ao grego interessava o domínio da polis – expressão do universo humano, espelho da transformação consciente do homem como ser social ou ´´animal político’’.  Na sociedade da antiga Grécia o trabalho era visto em função do produto e este, por sua vez, em função de sua utilidade ou capacidade de satisfazer uma necessidade humana concreta.

A questão da atividade prática, ou seja, do trabalho, como o elemento transformador do mundo material e do próprio homem, só surgirá na consciência filosófica moderna, especialemente a partir de Hegel,  Gramsci, o indicará como o precursor teórico das revoluções liberais do século XIX.

Com efeito, ao elaborar a idéia teleológica do trabalho, através da qual `` põe-se, a diferença do desejo e da fruição``, ao  inculcar o sentido de atividade transformadora do homem pela dupla recusa da animalidade e da natureza, tal como ela é, tendo como fim satisfazer racionalmente as necessidades humanas, ao posicionar a atividade prática como objeto relacional eu-e-o-outro e, ao mesmo tempo, processo de auto-superação, Hegel dará um sentido filosófico ao trabalho, abrindo assim, o caminho para as futuras especulações existenciais em torno do homem na realidade industrial e fundamentando os pilares da filosofia e da ética praxista que norteará o homem contemporâneo R. Garaudy ao definir o trabalho como superação do ser, não deixa de partir do projeto hegeliano:

Só tenho consciência de mim mesmo através da presença dos outros em mim mesmo. Esta presença se manifesta através da linguagem com a qual eu falo comigo e do trabalho com o qual eu me supero. O trabalho é, como superação do ser, a primeira categoria da moral. São duas funções do outro e são ambas funções de transcendência. ( Volpe, et al.82,22).

J. C. Salgado ao desenvolver o tema do Direito e do Estado em Hegel destaca:

A comunidade livre de Hegel só pode ser compreendida na consideração do momento da sociedade civil do mundo moderno, em que o trabalho é o valor fundamental, direito e dever dos indivíduos. Com isso, a idéia de justiça em Hegel mostra a sua face social, que constitui o traço característico que assinala o Estado democrático contemporâneo.  (Salgado 1996,505).

Segundo o seu biógrafo Rosenkraz  e a hipótese de G. Lukács, Hegel já conhecia  a doutrina econômica de Adam Smith que fez do trabalho o centro da sua doutrina.  Seja lá como for, é indubitável que Hegel torna-se o criador do olhar filosófico sobre o trabalho, porquanto compreendido como atividade transformadora do homem que subsume a dupla recusa da animalidade e da natureza, tal como ela é, visando satisfazer racionalmente as suas necessidades, o que levará assim, o homem a desempenhar um papel definido na economia. Desse modo é que Hegel  será sucedido, mais tarde, por Karl Marx,8 que ao refutar o sistema hegeliano9, visualizará um estatuto específico elegendo a relação trabalho e capital, e daí deduzindo a dimensão social e política que o trabalho encerra em si, gerando as teorias socialistas determinantes das noções de força de trabalho, liberdade de trabalho, direito ao e do trabalho.

Já Sanchez Vázquez destaca que Hegel apesar de mover-se dentro de limites – os da economia política – concebe o trabalho como uma ``categoria filosófica, - ou mais exatamente, antropológica – que transcende seu conteúdo meramente econômico`` (Vázquez, 1986, 71).

Gramsci considera a filosofia da praxis10 como uma reforma e um desenvolvimento do hegelianismo e acredita que Hegel representa:

na história do pensamento filosófico, um papel especial; e isto porque, em seu sistema, de um modo ou de outro, mesmo na forma de ‘’romance filosófico’’, consegue-se compreender o que é a realidade, isto é, tem-se – em um só sistema e em um só filósofo – o conhecimento das contradições que antes resultava do conjunto dos sistemas, do conjunto  dos filósofos em polêmica entre si, em contradição entre si. (Gramsci, 1989, 114).

Jean Hypolite situa a praxis em Hegel  como ´´a relação originária no homem com o mundo e com os outros homens.´´ (Sartre et al.1984,56). O sentido de universalidade que reside no trabalho se manifesta nas expressões hegelianas: ´´o trabalho é totalidade´´, ´´a totalidade do trabalho é a individualidade levada a cabo’’, mas será  no elemento fundacional do trabalho - a ferramenta, ou utensílio – que dará ao trabalho o sentido de universalidade. Pelo utensílio (instrumento ou ferramenta) ´´o trabalho deixa de ser algo singular´´ e eleva-se ao universal.

Na contemporaneidade, não são raras as profissões  que originam-se da ferramenta instrumental tecnológica. Os coletivos inteligentes,  entre os quais se desenvolve a conversação homem e máquina, operando segundo a performance ou personalidade instrumental dos softs, se apresentam como um padrão open à relação homem-mundo.

Filho da era da máquina a vapor na terra e no mar, influenciado pela mecanização da inovadora idade industrial11, Hegel já antevia no meio de reprodução, esse aspecto aberto, ou de  universalidade que só o padrão instrumental do trabalho oferece: ´´cada qual pode copiá-lo e também trabalhá-lo; o utensílio é a este respeito a regra permanente do trabalho´´, diz, referindo-se expressamente à ferramenta,  e esclarece:

Em virtude desta racionalidade do utensílio, ele figura como termo médio mais alto do que o trabalho, e também do que o objeto elaborado (...), e do que a fruição, ou o fim; e é por isso também que todos os povos que se encontram na potência da natureza honraram tanto o utensílio; e em Homero encontramos a mais bela expressão da veneração perante o utensílio a seu respeito. (Ob. cit., 25).

 

A lira melodiosa do aedo famoso, assim como os remos dos célebres navegadores, ou  a adaga de bronze, com a guarda de prata, revestida com uma bainha de marfim, podem ser alguns dos mais honrosos utensílios citados por Homero em sua Odisséia, que inspiraram Hegel a compreender o papel de mediação prática propiciadora da normatividade gestada entre o fazer e a formatividade que o utensílio encerra em si mesmo, cuja extensão pode até apresentar uma característica de intervenção vital ou fatal  para o homem. Por exemplo, Hegel entende que a arma de fogo, o revólver, o canhão é a ´´invenção da morte universal´´. (Ob.cit.,60).

A era da máquina é também a era do operário, a era da massa, da massificação.  K. Mark  ao fazer a crítica à  Filosofia do Direito (1884)  registra:

O proletariado começa a formar-se na Alemanha agora com o invasor processo industrial, porque o proletariado não está constituído pela pobreza surgida naturalmente, mas pela produzida artificialmente; não pela aglomeração mecânica de homens comprimida pelo peso da sociedade, mas pelo surgimento da dissolução aguda, especialmente da dissolução da classe média; (...). (Marx in Hegel, 1944, 21)12.

O trabalho se apresenta no Sistema como uma relação entre homem e objeto, na qual unem-se o objetivo e o subjetivo, o particular e o geral num devir conceitual promovido pelo domínio empírico da ferramenta - ´´o utensílio transmuda-se em máquina´´, ( ‘’visto que a própria inquietude do subjetivo, do conceito, se põe fora do sujeito’’). (Ob. cit., 29).

Uma vez que o homem interfere na natureza, dela apropriando-se para transformá-la, a natureza embora não deixe de ser a natureza, passa a ser o pensado, o real, portanto, acaba por tornar-se produto de uma idéia. Alfredo Moraes lembrando a questão da construção conceitual, que é a Filosofia da Natureza hegeliana, diz :

... não é um outro, posto na exterioridade, tampouco numa diferença indiferente, mas enquanto outro de si mesmo do logos, é o próprio logos no seu ser outro, numa determinação somente possível pela condição de dele diferenciar-se em si mesmo, ou seja, apresentar uma diferença no interior de si mesmo. (Moraes, 2003,164).

Entende Hegel que ´´a idéia, - a qual existe para si, - considerada segundo esta sua unidade consigo, é intuição e a idéia intuidora é natureza´´. (Hegel, 1936,220 § 244). Em Introdução à História da Filosofia, escreve:

O homem é, por exemplo, pensante, e então pensa o seu pensamento; deste modo o objeto do pensamento é o próprio pensamento, a racionalidade produz o racional, a razão é o seu próprio objeto.(Hegel, 1961, 93).

 

A razão é, para Hegel, a realização construída, e o ser é, em sua própria essência, razão. O homem é pensante, e então pensa o seu pensamento; deste modo o objeto do pensamento é o próprio pensamento, a racionalidade produz o racional, a razão é o seu próprio objeto.

Será essa metafísica inconsistente para a compreensão dos dias atuais? Denis Rosenfield em Retratos do Mal entende que o ´´mundo atual é resultado do pensamento humano´´.13  Marx observa:

As necessidades teóricas constituem imediatas exigências práticas? Não basta que o pensamento determine a realização, a própria realidade deve aproximar-se do pensamento. (...). ( id. Ibid., 17).14

A ética segundo Hegel é conceitual, logo pensada como nous, espírito, o ´´espírito autoconsciente´´, tendo a liberdade como fundamento, a vida ética é a formação15 absoluta que vai determinar  a participação efetiva do sujeito na vida comunitária. Juliana González considerando o movimento etimológico da palavra ética observa que a idéia mais aproximada do significado de ethos pode ser compreendida como ``segunda natureza``,16 quando o homem passa a conviver com uma nova ordem de ´´necessidade´´.

A eticidade hegeliana fundada no absoluto, no controle dialético da vontade, pode encontrar um ponto de apoio na ataraxia do estoicismo, a paz da alma, que procede da ausência de necessidade voluntariosa, elemento determinante da dor.

O campo propício à ética absoluta se dá quando o sujeito alcança um estado que renuncia a qualquer preferência em matéria de valor. Assim, pode-se chegar à extinção do desejo, quando o sujeito em pleno devir ético atinge a maioridade racional e, ao entregar-se a uma espécie de estoicismo aniquila os individualismos ou particularismos em favor do conceito de universalidade, resultado empírico da bela vida ética.

Para os estóicos, a indiferença ética resulta da razão e da sabedoria que conduzem o filósofo a desligar-se voluntariamente das coisas que não dependem dele. Na vida cristã esse desprendimento estóico pode ser estudado em São Francisco de Sales que, quando mencionava a ´´santa indiferença´´ referia-se à criatura que se abandona a Deus e faz uma cruz sobre qualquer desejo pessoal, incluindo a salvação eterna. Hegel entende que a vida ética é bem-aventurança:

A vida ética é sem sofrimento e bem-aventurada: com efeito, suprimiu-se nela toda a diferença e toda a dor. É o divino, absoluto real existente, o que é, sem véu algum, sem que seja preciso primeiro elevá-lo à idealidade da divindade e extraí-lo antes do fenômeno e da intuição empírica; ela é imediatamente intuição absoluta.(Ob. cit., 58).

 

O absoluto hegeliano representa o último estado do desenvolvimento da idéia. Progressão última da razão implica, portanto, na ausência de limite. A vida ética será assim uma questão de formação acabada, instruída. (Bildung). É o momento, diríamos da magnificência do ser, que vive, vivencia e expressa o absolutismo ético não como a ´´suma, mas a indiferença de todas as virtudes’’, um estágio de plenitude da consciência em sua capacidade de renúncia ao favoritismo valorativo. Esse estado de indiferença subsume-se na vivência do conceito ético segundo uma condição absolutamente necessária na superação de particularidades, de todo individualismo,   assim é que no Sistema, a vontade política, ´´não se manifesta como amor à pátria, ao povo e às leis, mas como a vida absoluta na pátria e para o povo. (Ob. cit., 58). Neste sentido vigora o pressuposto: não sé é ético para si próprio, mas em relação a si-e-ao-outro.

 A bela vida ética hegeliana com sua teleologia magnificente tem significado cultural e metodológico, no entender de Hegel a ´´ ética é a idéia da liberdade´´. Ser livre é ser racional, é ser um bom vivente, e ser um bom vivente implica em ser responsável pelo desempenho de uma bem-aventurada vida ética, por sua vez, só atingida na prática moral do dever ser.

A consciência ou a idéia do dever-ser encontra-se em potência no espírito do homem e determina-se conceitualmente na prática social, por meio da relação interpessoal sujeito-necessidade-trabalho-satisfação ou fruição-liberdade.

 

Referências Bibliográficas

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MORAES, Alfredo de Oliveira. A metafísica do conceito. Porto Alegre, Edipucrs, 2003

 

ROSENFIELD, Denis L. Retratos do Mal. Rio de Janeiro, Zahar, 2003

 

SALGADO, Joaquim Carlos. A idéia de justiça em Hegel. São Paulo, Loyola, 1996

 

SARTRE, Jean Paul ...et al.  Marxismo e Existencialismo. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1984

 

VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Filosofia da Práxis. Rio de \Janeiro, Paz e Terra, 1986

 

VOLPE, Galvano della.... et al. Moral e Sociedade.  São Paulo, Paz e Terra, 1982

 



1 ``A época de Hegel era um tempo de fermentação política e cultural, mas também de prodigiosa realização filosófica. Isso envolveu três principais tendências. Primeiro, durante a infância e a juventude de Hegel, Immanuel Kant estava produzindo as suas mais importantes obras. Estas inspiraram uma legião de jovens alemães a publicar obras filosóficas de sua própria autoria, expondo, desenvolvendo e (ou) criticando Kant. Sistemas filosóficos e críticas de sistemas filosóficos seguiam-se uns aos outros em rápida sucessão. Segundo, as tendências filosóficas estavam, muito mais do que em qualquer outra parte da Europa, entrelaçadas a desenvolvimentos literários e outros de natureza cultural. Suas mais óbvias manifestações foram o movimento Sturm und Drang (literalmente, ``tempestade e ímpeto``) e, mais tarde, o Círculo ROMANTICO. [sic] Sturm und Drang foi uma reação ao racionalismo iluminista (de, entre outros, Kant) em literatura, estética, religião, história etc. Sublinhava a necessidade, como Hegel fez mais tarde, de superar as nítidas dicotomias do ENTENDIMENTO [sic]: entre, por exemplo, RAZÃO e SENTIMENTO [sic], e entre pensamento e sensação``. (Inwood, 1997, 32)

 Salgado, por sua vez, relaciona a compreensão da filosofia de Hegel, a ´´dois acontecimentos culturais importantes, que se desenvolveram na Europa e que foram por ele vividos. O racionalismo da Ilustração, inaugurado por Descartes e Galileu, e o romantismo, como fenômeno cultural que dominou pelo menos a literatura alemã a partir de Goethe´´. (Salgado, 1996, 300).              

2 Dilthey  considera que ´´ no ser vivo, o pensar e o conhecer se encontram dentro de uma coesão estrutural que abrange desde a percepção do mundo exterior até uma adaptação recíproca entre o mundo exterior e ele próprio´´. (Dilthey, 1994 13)

3 - ``Universalidade, particularidade e individualidade são os três MOMENTOS[sic]|do conceito. Hegel rejeita a noção de que universais, particulares e individuais são lógica, ontológica e epistemologicamente distintos uns dos outros. O  universal é CONCRETO[sic], não ABSTRATO [sic], e DESENVOLVE-SE [sic] para o particular e o individual, embora mantendo-se neles``. ( Inwood ,1997,315)

4 Traduziu o Sistema da Vida Ética tomando por base o texto hegeliano, tal como foi estabelecido por Georg Lasson G. W. F. Hegel, Schritten zur Politik und Rechtsphilosophi,, 1923, várias vezes reimpresso pela Editora Felix Meiner (Hegel, 1991,11)

5 Á época de Hegel a Alemanha já incursara nos estudos estatísticos. A escola de estaística  alemã atingiu sua maturidade com A. L. von Schlozer (1735-1809), embora com idéias diferentes daquelas que fundamentaram a Estatística Moderna, pode-se dizer que o seu principal legado foi o termo "Staatenkunde", cunhado pelo matemático alemão Gottfried Achenwall (1719-1772), que  deu origem à designação atual.

 

6 La pasión se considera como algo que no es bueno, que es más o menos malo; el hombre – se dice – no debe tener pasiones. La palabra pasión no es, empero, justa para lo que quiero expresar aquí. Me refiero aquí, em general, a la actividad del hombre, imupulsada por intereses particulares, por fines especiales, o, si se quiere, por propósitos egoístas, de tal suerte que estos ponen toda la energía de su voluntad y carácter em dichos fines, sacrificándoles los demás fines posibles, o, mejor dicho, todo lo demás. Este contenido particular está tan unido a la voluntad del hombre, que la determina totalmente y resulta inseparable de ella,  de este modo es lo que es. (Hegel, 1974, 83, ).

7 Aristóteles, De Caelo 29 1b 13,De na. 432b21 in  Guthrie,1995,201

8 Adam Schaff  considera Marx devedor de Hegel ao determinar o trabalho como processo de transformação e autocriação humana: ´´...Marx recoloca ´´sobre os pés´´ a concepção hegeliana´´. (Volpe, et al. 1982,85)

9 Roger Garaudy observa que ´´o marxismo não é o sistema  de Hegel ao contrário. O método de Hegel é derrubado por Marx quando passa de uma concepção especulativa a nova concepção experimental, científica e militante da dialética. Refutar o sistema não significa contentar-se em dizer matéria onde Hegel dizia espírito mas excluir uma dialética teológica que constitui um sistema de leis finitas, dadas um vez por todas. (Volpe, 1982,10).

10 ´´A filosofia da praxis pressupõe todo este passado cultural, o Renascimento e a Reforma, a filosofia alemã e a Revolução Francesa, o calvinismo e a economia clássica inglesa, o liberalismo laico e o historicismo; em suma, o que está na base de toda a concepção moderna da vida. A filosofia da praxis é o coroamento de todo este movimento de reforma intelectual e moral, dialetizado no contraste entre cultura popular e alta cultura. Ela corresponde ao nexo Reforma protestante mais Revolução Francesa: trata-se de uma filosofia que é também uma política e de uma política que é também uma filosofia. (Gramsci, 1989, 106,7)

11 ``Hegel –diz Lukács – é não apenas o filósofo que tem mais profunda e adequada compreensão, na Alemanha, da essência da Revolução Francesa e do período napoleônico, como também o único pensador alemão do período que se ocupou seriamente dos problemas da Revolução Industrial então ocorrida na Inglaterra e o único que na época correlacionou os problemas da economia clássica inglesa aos problemas da filosofia dialética’’. (apud Vázquez, 1986,64)

12 El proletariado comienza a formarse em Alemania ahora com el invasor proceso industrial, porque el proletariado no está constituído por la pobreza surgida naturalmente, sino por la producida artificialmente; no por la aglomeración mecânica de hombres comprimida por el peso de la sociedad, sino por la  que surge de su disolución aguda especialmente de la disolución de la clase media; (...). (Ob. ci.t, 21)

13 De um lado, é justo dizer que idéias políticas nascem de necessidades práticas, que podem incluir desde o fortalecimento e o desenvolvimento de determinados grupos econômicos, até a luta propriamente dita pelo poder, passando pelas mais diferentes associações, de sindicatos a ONGs. De outro lado, é forçoso reconhecer que inclusive essa atuação passa pela elaboração de idéias, pelo seu confronto armado ou democrático dependendo da sociedade e do período histórico. Idéias são poderosos geradores de novos comportamentos, alterando a fisionomia das sociedades e das histórias. Pense-se, por exemplo, na Reforma protestante, graças às idéias de Lutero, na doutrina dos direitos humanos ou nas lutas emancipatórias das mulheres. Nesse sentido pode-se dizer que o mundo atual é resultado do pensamento humano, do modo mediante o qual as ações humanas foram enformadas por determinadas idéias. (Rosenfield, 2003, 121).

14 ¿ Las  necesidades teóricas constituyen inmediatas exigências prácticas? No basta que el pensamiento impulse hacia la realización, la misma realidad debe acercarse al pensamiento. (Id.ibid.,17)

15 Bildung: instrução educação

16 El ethos es ciertamente nueva naturaleza, naturaleza libre, naturaleza moral, creada ``sobre`` la ``primera`` naturaleza (``natural``, originaria: la physis), a partir de ella. Pero es a la vez ``naturaleza``, forma definida y determinada de ser. El ethos, en efecto, sobrepasa, trasciende permanentemente la mera naturaleza creando un nuevo orden de ``necessidad``, um nuevo ``destino``; es, paradojicamente, forma libre de fatum. Y la paradoja se acentua si se insiste en lo inverso: que el ethos no es naturaleza ni destino en el sentido de algo dado e inmutable. Consiste él mismo en um perpetuo emerger desde si mismo; es ``arte`` moral, y como todo arte, obra de esfuerzo continuado, ``disciplina``, perseverancia. Es uma ``pratica`` cotidiana como la de cualquier artista.(González,1996, 11).

Em Michael Inwood encontra-se no verbete moralidade a seguinte explicação: ´´ Todas as três palavras alemães para ‘’moralidade’’ derivam de uma palavra para ‘’COSTUME’’: Ethik veio do grego ethos, Moralitat do latim mos (plural: mores), e Sittlichkeit do alemão Sitte. Mas só no caso Sittlichkeit  (“VIDA ÉTICA’’) Hegel sublinha essa genealogia: Ethik tem para ele pouca significação mas usa-a  ocasionalmente para abranger Sittlichkeit e Moralitat. Moralitat é regularmente usada para designar a ‘’moralidade individual’’, sobretudo de acordo com a concepão de Kant. Hegel compartilha da crença de Kant em que ser moral é ser racional, em que a racionalidade é o núcleo central da natureza humana e em que ser moral é, portanto, ser LIVRE. (Inwood, 1997,274)


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