ISSN 1980-8372
Ano 3º - N.º 04 Junho de 2006
HEGEL
E RICOEUR
Aluisio Antonio Bezerra de Carvalho*
Resumo
Neste texto, pretendo apresentar a critica da falta de interpretação da consciência feita por Hegel à visão moral de Kant aos olhos de Ricoeur e as críticas feitas à Hegel por Ricoeur, no interior da obra O si mesmo como um outro. Mostraremos, inicialmente, o contexto em que o projeto hermenêutico da dialética do si caminha em busca de uma ética-ontológica como local da problemática da denúncia crítica. Posteriormente, explicaremos em que consiste propriamente a denúncia crítica a partir da problemática da visão moral de mundo de Kant e as conseqüências da crítica como boa e má consciência no projeto ricoeuriano. Por fim, concluiremos, considerando algo mínimo a respeito do texto.
1. Contexto da denúncia crítica de Hegel na Hermenêutica do Si
O problema do sujeito ricoeuriano está diretamente ligado a sua hermenêutica do si, que é aprofundada pela consideração da dialética entre o mesmo e o outro. O desdobramento da problemática do si considera as diversas acepções do verbo agir que perpassa os dez estudos da sua obra O si- mesmo como um outro. Mas, em que se constitui propriamente a hermenêutica do si?[1]
Ricoeur
buscou os três maiores enfoques constituintes de sua hermenêutica: o desvio da
reflexão pela análise, a dialética da ipseidade e da mesmidade, e a dialética
da ipseidade e da alteridade. Dando assim, através da pergunta “quem?”,
forma interrogativa de atestação
para toda problemática da resposta “si”,
que corresponde a quatro maneiras de interrogar: Quem fala? Quem age? Quem
é descrito? Quem é o sujeito moral da imputação? Passando pelos planos da
linguagem, da ação, da narração e da ética-política, possibilitando-lhe
identificar um sujeito que tem a capacidade de designar-se a si mesmo como
locutor, de reconhecer-se como autor de suas ações, de identificar-se como
personagem de uma narrativa de vida e de se imputar moralmente como responsável
por seus próprios atos relacionados reciprocamente ao outro, respeitando as
instituições éticas-políticas.
No décimo estudo de sua obra, após ter passado pela dialética da reflexão e da analise (dimensão ontológica da atestação), pela dialética da ipseidade com a mesmidade e pela dialética do ser como ato e como poder, Ricoeur investiga as bases ontológicas da terceira dialética, dialética da ipseidade e da alteridade.
O que distingue a terceira dialética da dialética da ipseidade e da mesmidade é “Que a alteridade não se acrescenta de fora à ipseidade, como para prevenir daí a deriva solipsista, mas que ela pertence ao conteúdo de sentido e à constituição ontológica da ipseidade”[2]. Dessa forma, a dialética do Mesmo e do Outro encontram sua verdadeira dimensão. Mas o Mesmo como o Outro são divididos: a identidade do Mesmo abrange o idem e o ipse, em que se desdobra com as formas do Outro, como formas da alteridade na ipseidade multiplicando-se, e as formas fenomenológicas da passividade representam uma fenomenológica da alteridade. Nisto, são atribuídas três experiências da passividade: a experiência corporal, a da carne; depois a experiência da relação entre si mesmo e o estranho, o outro além de si, que intervém na intersubjetividade e finalmente; a da relação de si consigo mesmo, isto é, a passividade da consciência, que por sua vez, é o local em que se desenvolve à problemática da denúncia hegeliana.
A hermenêutica do si busca uma compreensão filosófica do mundo que pretende situar-se além da filosofia do conceito de Hegel, descentralizando a filosofia da teoria do conhecimento para a ontologia. O ser-sendo que caminha em direção do conhecimento do absoluto, enquanto conceito através do suprassumir (aufheben) de suas particularidades, é trocado pelo ser-no-mundo, que por sua vez, busca seu sentido nos diversos pensamentos do mundo da vida. Como conseqüência, a metafísica racionalista de Hegel, que toma o pensamento enquanto princípio universal da filosofia do mundo real, é considerado como um delírio pela hermenêutica ricoeuriana. Assim, a filosofia da consciência moral hegeliana que mantém o seu fundamento a partir de si própria, uma vez que o sujeito entendido como um para si mesmo é, ainda, no seu vir-a-ser outro consigo mesmo, substância absoluta e efetual que se supera enquanto certeza sensível na síntese das diversas consciências-de-si, ao constituir a unidade de todas, é trocado pelo Dasein ontológico.
No pensamento hermenêutico de Ricoeur, é preciso afirmar que são dois os lados da consciência: por um lado, a consciência é posta como alteridade do próprio corpo e à de outrem, onde Ricoeur trata da complexidade relacional da meta-categoria de alteridade; por outro lado, a consciência, projetada posteriormente sobre todas as experiências de passividade, coloca antes dela a sua força de atestação[3]. Desse modo, a consciência é inseparável da reflexão sobre a atestação desenvolvida no Soi-même comme um autre. Se a atestação ontológica não se separa da consciência como atestação, a ética não está longe da ontologia?
Na tentativa de considerar a consciência, no sentido alemão de Gewissen, como o lugar de uma forma original de dialética entre ipseidade e alteridade, Ricoeur lança três desafios na problemática da consciência. Desses, o terceiro não será tratado, porque passa longe do nosso objeto de análise; o segundo será tratado no próximo ponto, porque é a conseqüência mais próxima do primeiro; e necessariamente o primeiro, pois é o caminho para chegarmos ao nosso objetivo, pois é o local em que aparece a denúncia crítica a Hegel como suspeita da resposta dada ao primeiro desafio, que é:
Primeiro
desafio: se a metáfora da voz e do apelo parece acrescentar uma dimensão inédita
aos conceitos em torno dos quais se organizaram nossas investigações dos
conceitos de base da ética, esse excedente de sentido não se concretiza
necessariamente nas noções tão suspeitas quanto a “má” e a
“boa” consciência?[4]
Esse desafio coloca à prova a tese de que a atestação da ipseidade é inseparável de um exercício de suspeita. Trata-se da relação do fenômeno da consciência com a atestação, misturando o ser-verdadeiro com o ser-falso. A consciência é vista como um lugar em que as ilusões sobre si mesma são misturadas à veracidade da atestação. A suspeita busca o excedente de sentido que a consciência superpõe no conceito de ética: viver bem, obrigação e convicção. O problema é quando a consciência reinscreve os conceitos ético na dialética do Mesmo e do Outro, sob uma modalidade específica de passividade, em que a metáfora da “voz” é o sintoma ou o indício, como veremos adiante.
2. A denúncia crítica de Hegel à visão moral de mundo em Kant
É possível observar na obra Ser e Tempo de Heidegger um capítulo que tem o nome de Consciência[5]. Segundo Ricoeur, neste capítulo, o elemento de verticalidade que eleva o pensamento de Heidegger como um pensamento do testemunho é o Gewissen, isto é, a voz da consciência. Em que “O testemunho de um poder-ser próprio é fornecido pela consciência”[6], a atestação de um poder-ser autentico é dada pela consciência. A voz da consciência intervém como um apelo e rompe a mera coincidência de si consigo mesmo. Mas a metáfora da voz não é totalmente reveladora. A autenticidade desse fenômeno se dá através das interpretações moralizantes que encobrem sua força reveladora. A solução para recobrir a capacidade reveladora da metáfora da voz está na prova da suspeita, que é denunciada através dos textos de Hegel.
É neste
momento que Hegel aparece no texto de Ricoeur como um crítico da falta de
interpretação da consciência, quando no capítulo VI da Fenomenologia do
Espírito trata da visão moral do mundo.[7].
Na visão moral kantiana de mundo, não há oposição entre vontade e lei,
tendo em vista que a lei exprime a própria natureza da vontade. A união entre
vontade e lei é postulada como exigência da vida moral, onde nunca se chega à
perfeição da moral. Hegel encontra uma contradição entre “perfeição
moral” e “autoconsciência moral” nos princípios kantianos.
Nega que a consciência moral tenha em si a lei, dessa forma, a lei se apresenta
como um além, um dever ser. No nível do conceito, na Filosofia do Direito,
Hegel afirma que “o que é moral não é definido, como o que
se opõe ao imoral, assim como o direito não é imediatamente o que se opõe à
injustiça. Mas o ponto de vista universal do que é moral, como do que é
imoral repousa sobre a subjetividade da vontade”.[8]
A consciência conceitual como Gewissen é uma tentativa de superar o dualismo kantiano entre impulso e lei moral, é uma confiança no conhecer imediato do bem e do mal, é um saber e fazer aquilo que é concretamente justo. O sujeito hegeliano tem condições de elevar-se à consciência de si como ser-em-si-e-para-si, fundamentado no conceito de razão humana livre, em que uma ação racional livre provoca uma adequação desta ação a um pensamento racional e livre e a uma vontade racional e livre.
A preocupação é com o que deve ser conhecido no nível do conceito, pois é aí que a vontade caminha em direção à construção de leis justas. O Estado deve estar sempre firmado por leis justas construídas pela razão livre e pela vontade livre, que por sua vez só são possíveis quando são pensadas no nível conceitual. O povo deve ser consciente de suas leis caminhando em direção da liberdade no nível do conceito, o Estado também deve caminhar em direção da liberdade no nível do conceito, conseqüentemente, as ações do povo no estado caminharão em direção da liberdade no nível do conceito.
Dessa forma, o sujeito dotado de consciência conhecedora e possuidora do âmbito conceitual é o meio em que a vontade exterioriza-se no mundo como ação. Assim, a atestação feita por Hegel surge para que o fenômeno autêntico da consciência não seja arrastado na queda kantiana da visão moral do mundo, ao qual
pertence a famosa crítica: o Gewissem é solidário a uma dialética de grau superior em que se afrontam a consciência que age e a consciência julgadora: o “perdão” saído do reconhecimento de um pelo outro dos dois antagonistas que confessam o limite de seus pontos de vista e renunciam à sua parcialidade designando o fenômeno autêntico da consciência.[9]
A critica hegeliana ataca os postulados de causalidade do formalismo kantiano e busca uma nova construção moralista do mundo em três postulados[10]:
No primeiro postulado, a moralidade exige em sua totalidade que o dever seja feito, torne-se real, pois ela condena o desejo e marca de forma insignificante a natureza inteira, portanto, se a satisfação da ação é uma ilusão, a intenção não poderia guardar sua serenidade.
No segundo postulado, há uma falta de produção harmônica entre o dever-ser e o ser, o dever não poderia permanecer no dever-ser, se a efetividade foge sem fim, é um adiamento infinito da moralidade com relação ao momento de satisfação, que é procurado no agente da ação.
No terceiro
postulado, o acordo entre forma e conteúdo da moralidade não é dado neste
mundo, é transferido na consciência de um santo legislador situado fora do
mundo, pois, se a reconciliação com a realidade é transportada para um outro
mundo não é possível permanecer na autonomia do princípio moral soberano.
3. Algumas conseqüências no projeto hermenêutico ontológico ricoeuriano
As conseqüentes críticas feitas à Hegel por Ricoeur parecem um pouco superficiais. Ricoeur o acusa de disfarçar Kant ou Fichte, utilizando-se de “artífice que tem lugar entre os excessos como, transgressões, hipérboles de todas as espécies das quais se nutre a reflexão moral e talvez a reflexão filosófica em geral”.[11] Para Ricoeur, as críticas colocadas aos postulados kantianos por Hegel são como um jogo em que a consciência se entrega à outra para tentar escapar das contradições dissimuladas dos postulados da visão moral do mundo. Mas, o que importa no sistema hegeliano como conseqüência para o projeto hermenêutico da subjetividade ricoeuriana é a “estratégia de desmantelamento” aplicada ao “deslocamento equívoco”[12] que apare na seção seguinte da Fenomenologia, chamada como A DISSIMULAÇÂO.
È necessário lembrar, no § 617 da Fenomenologia do Espírito, a verdadeira posição de Hegel sobre a visão moral de mundo e a consciência com suas dissimulações:
a visão moral de mundo não é, de fato, outra coisa que o aprimoramento dessa contradição fundamental em seus diversos aspectos; para usar uma expressão kantiana, que aqui se ajusta ao maximo, é ‘um ninho inteiro’ de contradições carentes-de-pensamento. A consciência se comporta assim nesse desenvolvimento: fixa um momento e daí passa imediatamente a outro, e suprassume o primeiro; mal porém acaba de estabelecer esse segundo, também o dissimula de novo e faz, antes, o contrário ser a essência.
E ainda,
Ao
mesmo tempo, a consciência é também consciente de sua contradição e
[de seu] dissimular, pois passa de um momento imediatamente,em relação
com esse momento mesmo, ao oposto; porque um momento não tem
realidade para ela, põe precisamente esse momento como real, ou, o que
é mesmo: para afirmar um momento como em si essente, afirma o oposto
como o momento em-si-essente. Com isso, confessa que de fato não toma a sério
nenhum deles. É o que vamos ver mais de perto nos momentos desse movimento
desvairado.”[13]
Mas Hegel é desprezado e tratado como um hipócrita, “É com ‘desprezo’ que dispensaremos, portanto, uma hipocrisia que não conseguiria dissimular os deslocamentos equívocos”.[14] O momento ulterior do espírito hegeliano já presente como em negativo ou em filigrana no deslocamento equívoco é o único local em que essa crítica tem sentido.
Conseqüentemente, diz Ricoeur que:
Hegel colocou os três momentos da visão moral do mundo, do deslocamento equívoco, da dialética da bela alma e do herói da ação, culminado no momento da reconciliação e do perdão, sob o título de: ‘O espírito certo de si mesmo. A moralidade’.[15]
Com essa afirmação Hegel aparece como encaminhador da consciência para saída da visão moral de mundo, como o ponto em que o Gewissen iguala-se à certeza de si-mesmo, que faz com que “Hegel só ressoe ainda uma repreensão antes que estoure com Nietzsche o trovão decisivo”[16]. Nessa metáfora ricoeuriana, a critica hegeliana aparece como uma “força de denunciação”, que aponta antes de Nietzsche de forma implícita, a força da interpretação da suspeita como consciência igual a “má consciência”.
Ricoeur,
acredita em uma possibilidade de opor o aspecto genealógico da crítica
nietzscheana ao aspecto teleológico da crítica hegeliana, em que “...o
método genealógico opera um cruzamento entre uma semiologia de origem textual
e uma sintomatologia de origem medical”. Esta é a razão utilizada
para afirmar que podemos encontrar aí alguma coisa da denunciação da transferência
metafórica e da inversão metonímia que o Philosophenbuch colocava sob
o título que Hegel volta a chamar de Verstellung, do deslocamento-dissimulação.
Como conseqüência da busca de uma saída da “boa” e “má” consciência, em que Hegel aparece como uma “força de denunciação” e Nietzsche como “o trovão decisivo”, ligando o fenômeno da consciência ao fenômeno central da atestação, cuja suspeita é a outra face, Ricoeur encontra o seu segundo desafio anunciado no começo do capítulo que é:
Supondo
que pudéssemos liberá-la do jogo dos preconceitos ligados à “boa” e à
“má” consciência, a consciência designaria um fenômeno distinto da
atestação de nosso poder-ser? O lance será aqui, diante dessa versão não-moral
da consciência, precisar os fenômenos tais como a injunção ou a dívida
que a metáfora da voz parece designar[17].
È uma busca em saber por qual traço, até aqui observado, a atestação da ipseidade, da qual partimos, contribui de maneira inédita para a dialética do Mesmo e do Outro. È a “desmoralização da consciência”, em que Ricoeur mais uma vez, acredita encontrar uma saída em Heidegger.
Para Heidegger, a verticalidade não pode ser confundida com uma transcendência, da qual não tem o estatuto. O que não deixa de ter conseqüências: por um lado, a consciência é desmoralizada, está para além do bem e do mal. Por outro lado, a inadequação da verticalidade a uma transcendência não deixa de ter efeitos para o próprio apelante, pois é na imanência integral do Dasein a si mesmo que Heidegger vai reconhecer uma superioridade[18]. A Elevação não rompe com o Dasein, o que se repercute na Exterioridade. A uma Elevação sem transcendência corresponde uma Exterioridade sem alteridade. Se a elevação for sem transcendência, a exterioridade é a de um sentir-se estrangeiro sem outro. A estranheza-exterioridade transferida para uma estrutura do ser-aí (no mundo) é dissociada do estar-com.
Ricoeur prossegue a sua interpretação, mostrando que a noção de dívida (Schuld)[19], introduzida por Heidegger, não tem uma dimensão ética. Tal como a consciência está para lá do bem e do mal, e a noção de boa ou má consciência ferida de vulgaridade, a resolução que está separada da exigência de outrem e de toda a determinação ética mantém-se indeterminada como o apelo ao qual ela responde. Indissociável do elo entre Elevação e Exterioridade, a atestação heideggeriana é igualmente inseparável de uma abordagem na qual as dimensões da ética e da ação são inexistentes.
A compreensão do contexto em que Ricoeur trabalha sua dialética ontológica no décimo estudo de sua obra O si mesmo como um outro, foi fundamental para o desenvolvimento de nosso trabalho, pois foi possível encontrarmos o lugar da problemática da denúncia. O contexto clarificou o projeto hermenêutico da dialética do si, que por sua vez, caminha em busca de uma ética voltada para uma ontologia como cura das angustias do sujeito moderno. Do terreno ricoeuriano da denúncia hegeliana é possível afirmar quatro pontos, isso é, que: 1. consciência é inseparável da reflexão sobre a atestação desenvolvida no Soi-même comme um autre; 2. a consciência, no sentido alemão de Gewissem, é o lugar de uma forma original de dialética entre ipseidade e alteridade; 3. o primeiro desafio proposto coloca à prova a tese de que a atestação da ipseidade é inseparável de um exercício de suspeita, relacionando o fenômeno da consciência com a atestação, misturando o ser-verdadeiro com o ser-falso; 4. a consciência é vista como um lugar em que as ilusões sobre si mesma são misturadas à veracidade da atestação, é onde a suspeita busca o excedente de sentido que a consciência superpõe no conceito de ética: viver bem, obrigação e convicção.
Ricoeur faz com que a denúncia crítica hegeliana seja conseqüência da resposta do pensamento de Heidegger ao primeiro desafio, que vê o Gewissen como a voz da consciência. Para recobrir a capacidade reveladora da metáfora da voz é utilizada a prova da suspeita, que é denunciada por Hegel. Esse aparece no texto de Ricoeur como um crítico da falta de interpretação da consciência, atestando a visão moral do mundo de Kant. A critica hegeliana ataca os postulados de causalidade do formalismo kantiano e busca uma nova construção moralista do mundo em três postulados.
As conseqüentes críticas feitas à Hegel por Ricoeur parecem um pouco superficiais, pois parte de um pensar que nega o pensar conceitual de Hegel ao mesmo tempo que utiliza-o para o seu projeto. Hegel é acusado de disfarçar Kant ou Fichte, utilizando-se de artifícios excessivos como: transgressões, hipérboles de todas as espécies das quais se nutre a reflexão moral e talvez a reflexão filosófica em geral, e é desprezado e tratado como um hipócrita, por não ter conseguido, segundo Ricoeur, dissimular os deslocamentos equívocos. A utilidade da crítica hegeliana para o projeto Ricoeuriano aparece como uma “força de denunciação”, que aponta antes de Nietzsche de forma implícita, a força da interpretação da suspeita como consciência igual a “má consciência”, que vai desaguar no segundo desafio. A “desmoralização da consciência” encontra uma saída em Heidegger, onde a verticalidade não pode ser confundida com uma transcendência, da qual não tem o estatuto, a consciência está para além do bem e do mal e a inadequação da verticalidade a uma transcendência que não deixa de ter efeitos para o próprio apelante, pois é na imanência integral do Dasein a si mesmo que Heidegger vai reconhecer uma superioridade.
Devemos lembrar que passamos longe de exaurir as questões ontológicas da ética ricoeuriana, tendo em vista que nossa intenção foi apenas tratar da critica da falta de interpretação da consciência feita por Hegel e suas conseqüências no projeto de Ricoeur, no interior do texto O Si mesmo como um outro.
RICOEUR, P. Soi-même comme un autre. Paris: Seuil, 1990. (O si mesmo como um outro. Trad. Lucy Moreira César. Campinas. São Paulo: Papirus, 1991) .
HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito. Trad. de Paulo Meneses. Ed. Revisada.Vol. Único. Petrópolis: Vozes, 2002.
____. Príncipes de la Philosophie du Droit ou Droit Naturel et Science de L’état em Abrégé. Trad. Roberto Dérathé. Paris: Vrin, 1975.
HEIDEGGER,
M. Ser e Tempo.
Trad. Márcia de Sá Cavalcante. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1998. Parte II.
*
Mestre em Filosofia pela UFPE
e Professor de Hermenêutica e Filosofia do Direito da Faculdade dos
Guararapes-PE
[1]RICOEUR, P. Soi-même comme un autre. Paris: Seuil, 1990. (O si mesmo como um outro. Trad. Lucy Moreira César. Campinas,. São Paulo: Papirus, 1991, p.28.) .
[2] Idem, p. 375.
[3] A atestação é a conseqüência em abandonar uma abordagem do cogito que perpassou no confronto entre Descartes e Nietzsche e foi posteriormente fortalecida, após ter tratado dos conceitos de Elevação (relação vertical com a transcendência, com um Outro) e de Exterioridade (relação horizontal com o outro e com os outros), no confronto com: Jean Nabert, núcleo da tradição reflexiva, a Elevação é interpretada em seu pensamento como “afirmação originária” e a Exterioridade pela mediação de outras consciências que testemunham o absoluto; Heidegger, núcleo da reflexão hermenêutica, a Elevação é interpretada em seu pensamento pelo Gewissen e a Exterioridade pela noção de “estranheza do sentir-se estrangeiro” em Sein und Zeit; Emmanuel Lévinas, núcleo da parceria com Ricoeur na construção do plano ético, a Elevação é interpretada pela “gloria do infinito” e a Exterioridade pela “chamada pelo outro à responsabilidade do si”.
[4] Idem, p. 397.
[5] HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Trad. Márcia de Sá Cavalcante. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1998. Parte II., § 54-60, p. 52-92.
[6]Idem. Parte II., § 54, p. 52-55.
[7]
HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito.
Op. cit..Cap. VI, p.
411-420.
[8] HEGEL, G.W.F. Príncipes de la Philosophie du Droit ou Droit Naturel et Science de L’état em Abrégé. Trad. Roberto Dérathé Paris: Vrin, 1975. p. 151, § 108.
[9] RICOEUR, P. Op.cit. p. 399.
[10]
HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito.
Op. cit. Cap. VI, p.
411-420.
[11]
RICOEUR, P. Op. ci.t. p. 399.
[12] Idem, p. 401.
[13]
HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito.
Op. cit. §
617, p. 421.
[14]
RICOEUR, P. Op. cit. p. 400
[15] Idem, p. 400.
[16] Idem, p. 400.
[17] Idem, p. 397.
[18] Idem, p. 405.
[19] Idem, p. 406.