ISSN 1980-8372
Ano 3º - N.º 05 Dezembro de 2006
A emergência categorial do desejo na
filosofia de Hegel - Considerações preliminares
Profa Ms. Alessandra Uchôa Sisnando
A consciência-de-si é desejo.
G. W. F. Hegel
Para fins de atender nosso propósito de encontrar a raiz filosófica
hegeliana do desejo como categoria do pensar e, além disso, como constitutiva
do homem, enquanto existência efetiva tomaremos nesse ponto uma passagem do Propedêutica
Filosófica de Hegel. Aí encontramos:
“O Espírito prático não tem
apenas idéias, mas é a própria Idéia viva. É o espírito que se determina a
partir de si mesmo e proporciona realidade externa às suas determinações. É
preciso distinguir o eu enquanto se põe como objeto, como objetividade, só teórica
ou idealmente, e também como se põe prática ou real (efetivamente).”[1]
Com efeito, a exigência hegeliana de transpor a mera especulação teórica
ou evitar cingir-se apenas às formulações epistemológicas sobre o eu, de
modo a não pensá-lo somente como objeto do conhecimento, mas, sobretudo, como
algo existente e assim buscar as determinações efetivas que o constituem como
essente, ser-aí que se dá efetividade na sua configuração fenomênica e só
aí encontra as condições de elevando-se acima das determinações naturais
alcançar o caminho da realização de sua liberdade, ou seja, daquilo que o
sustém na existência e primeiramente o constitui como si-mesmo – a vontade.
Por conseguinte, “O espírito prático chama-se sobretudo vontade
livre, porquanto o eu pode abstrair de toda a determinidade em que está, e
em toda a determinidade permanece indeterminado e na igualdade consigo mesmo.
A vontade, como o conceito interiormente determinante, é essencialmente atividade e ação. Transpõe
as suas determinações internas para o ser determinado externo, a fim de se
representar como Idéia.”[2]
De modo, que o eu não é apenas a idéia pura ou a idéia no elemento
abstrato do pensar, mas porque existe é idéia viva que se dá realidade
efetiva e nisso encontra na vontade de ser si mesmo aquilo que propriamente o
constitui, pois lhe permite recusar toda determinação que lhe sobrevém do
exterior e tomar suas próprias determinações internas como momentos de sua
efetividade, sem se deixar petrificar em nenhuma determinação, experimenta de
um lado a angústia de ser movimento evanescente, inquietação absoluta, e de
outro a liberdade de fazer-se idéia ou assumir a si mesmo como atividade e ação
na identidade com a vontade.
Contudo, a vontade livre não pode ser entendida como desmedida, desvario
da razão ou liberdade incondicionada abstrata, mas, seu sentido e possibilidade
de efetivação radica no sentimento prático, enquanto esse ”engloba em si as
determinações e as leis práticas jurídicas e morais, mas imediatamente e,
portanto, não desenvolvidas e não pensadas e acima de tudo impuras, em virtude
da mescla da singularidade subjetiva.”[3]
Trata-se, evidentemente, do alvorecer das relações sociais ou, o que é
o mesmo, da própria condição humana, pois na perspectiva hegeliana o homem
jamais existiu em um ‘estado de natureza’, onde quer que o encontremos ele
está sempre em relação com o outro de si mesmo, seu semelhante; assim, mesmo
ainda não configurada num arcabouço de codificação jurídica ou de éditos
morais escritos, nas palavras do próprio Hegel não
desenvolvidas e não pensadas, as determinações e leis práticas aí estão
presentes.
Daí, que Hegel possa afirmar que: “O sentimento de uma determinação
prática e ao mesmo tempo o sentimento da sua condição, de ser algo de
interior e de não realizado, ao qual, no entanto a realidade é ao mesmo tempo
essencial, é o impulso. Esse último
pertence à natureza subjetiva e dirige-se unicamente para a sua determinidade.
O desejo é uma determinação singular
do impulso e, graças à conformidade ou não conformidade do ser determinado
externo com ele, o sentimento torna-se agradável
ou desagradável. No impulso e no
desejo, o espírito prático é na naturalidade um ser dependente e não
livre.”[4]
Temos aqui a emergência do desejo como categoria filosófica e, vale
lembrar, que em Hegel todo começo é tomado como imediatez e por isso mesmo
como ainda carente de desenvolvimento, o desejo surge como categoria, mas numa
relação muito estreita com as determinidades do homem enquanto se afirma como
natureza subjetiva, que tem no sentimento o impulso de sua singularidade e não
ainda a verdade dessa mesma subjetividade no jogo das alteridades, no qual
somente pode alcançar a dignidade especial que o distingue. Será necessário,
portanto, que o espírito possa “elevar-se da imersão nos impulsos à universalidade, de modo que os impulsos não se imponham como
absolutos para si na sua particularidade, mas as suas determinações retenham o
seu lugar e justo valor apenas como momentos da totalidade, purificando-se assim
da contingência subjetiva.”[5]
Com efeito, no cerne dessa formulação está ínsito que o “espírito,
como essência livre, consciente-de-si, é o eu igual a si mesmo, que na sua
relação absolutamente negativa é, em primeiro lugar, eu exclusivo, singular
essência livre ou pessoa.”[6]
Significa dizer que a categoria de pessoa não emerge, no texto hegeliano, de
uma especulação assentada em imperativos teórico-abstratos nem fortuita ou
gratuitamente, mas a partir da necessidade existencial do espírito prático que
se quer na efetividade da realização do seu si mesmo.
O homem em-si e para-si (natureza e
espírito)
No seu famoso Prefácio à Fenomenologia do Espírito, Hegel, é categórico
e inequívoco ao asseverar: “Se o embrião é de fato homem em si, contudo não
o é para si. Somente como razão cultivada e desenvolvida – que se fez a si
mesma o que é em si – é homem para si; só essa é sua efetividade.”[7]
Nosso desafio é expor aqui essa conquista essencial, a realização do
paradoxo: tornar-se outro para ser si mesmo.
Aceitando uma das hipóteses científicas atuais quanto à origem do ente
que em todo caso somos, teríamos então dois processos envoltos num movimento
de suprassunção. O ente humano primeiramente passa por um processo de hominização,
durante o qual adquire por força das circunstâncias ambientais e das disposições
naturais a forma ou a constituição fisiológica propriamente humana; o marco
referencial dessa fase é a transfiguração da postura, a adoção da postura
ereta, o caminhar sobre os pés, trouxe duas conseqüências imediatas e
decisivas, a saber: a) a liberação das mãos, e b) as condições de
possibilidade do desenvolvimento de uma fala articulada.
A liberação das mãos nos permitiu a criação e o desenvolvimento de
uma cultura técnica, que desde seu início até hoje tem como fim a expansão
das habilidades físicas, mas que contribui inegavelmente ao desenvolvimento
cerebral/mental, posto que toda criação técnica seja uma ferramenta ou
instrumento, uma alavanca ou um micro-processador de informações, abrem novas
possibilidades e incitam à descoberta de usos que invocam outros tantos raciocínios
ou construções mentais, daí que apenas numa exposição didaticamente se
possa tratar separadamente a cultura técnica da dimensão simbólica constituída
a partir da fala articulada, aliás, quem diz cultura diz implícita ou
explicitamente símbolo, sentido, significado.
Originariamente não fomos dotados de um aparelho específico para a fala
articulada, mas a postura ereta teria implicado na atrofia de uma glândula do
aparelho respiratório capacitando-o para o uso da articulação de sons, surge
então a fala articulada que junto com a liberação das mãos constitui a maior
conquista da humanidade, ou melhor, aquilo que nos permite ser o que somos –
animal simbólico, ente cultural, espírito.
Até aqui o processo de hominização – o momento do em-si, que traz em seu interior a contradição que impulsiona ao
processo de humanização – o momento do para-si,
e tem neste a sua verdade e suprassunção, de modo que a tendência da
humanidade é consumar-se na espiritualidade pura ou elevada a tal grau
evolutivo que as habilidades técnicas venham a se tornar inessenciais.
Na Fenomenologia Hegel inicia a
viagem antropológica do espírito, na Certeza
Sensível, figura na qual situa o momento inaugural do em-si no paradoxal
começo do seu fim, uma vez que a Certeza
Sensível assinala o ponto em que a certeza posta na simples sensibilidade
experimenta em si a necessidade de ir além de si mesma para alcançar a sua
verdade na Percepção.
“Num
primeiro momento, essa consciência que sente se entrega à sua plenitude
imediata e se deleita com a indefinida riqueza de suas determinações. No
entanto, a partir do instante em que busca definir-se, isto é, enunciar o que
experimenta, em si, introduz-se a desigualdade. Ela se descobre como ‘eu’
puro e vazio que não encontra como único fundamento para seu ser além desse
objeto – o ‘puro sentir imediato’ que experimenta. Está segura de si; sua
verdade, no entanto, está fora dela mesma, no isto, no aqui-agora que
lhe dá realidade. Mas que realidade? Pode-se considerar o isto como real? Se
nos interrogamos sobre seu status, percebemos que ele próprio se desfaz. Dele
resta apenas a universalidade abstrata – para todo isto, todo instante pode ser um agora,
todo lugar um aqui. Somos pois
remetidos ao sujeito da sensação: ao eu.
Mas, por sua vez, este se revela ser apenas um universal abstrato, uma determinação
sem verdade. A verdade da consciência sensível está, pois, em outra parte; a
verdade da sensação que sinto se encontra na coisa que percebo.”[8]
A percepção, por sua vez, ao experienciar as contradições ínsitas no
ato de apreensão do seu objeto de conhecimento e querendo chegar à compreensão
do verdadeiro do processo de constituição de seu saber e a verdade de seu
objeto, descobre-se ultrapassando seus limites, suprassumindo a si mesma no Entendimento.
Com efeito, no Entendimento está
o ponto de inflexão que conduzirá, em definitivo, esse ente que se apreende idêntico
à sua Consciência a experimentar a certeza de ser toda a realidade, ou como já
sabemos:
“Levanta-se, pois, essa cortina sobre o interior e dá-se o olhar do
interior para dentro do interior; o olhar do homônimo não-diferente que a si
mesmo se repele, e se põe como interior diferente; mas para o qual também se dá,
imediatamente, a não-diferenciação dos dois – a consciência-de-si. Fica
patente que por trás da assim chamada cortina, que deve cobrir o interior, nada
há para ver; a não ser que nós entremos lá dentro – tanto para ver como
para que haja algo ali atrás que possa ser visto.”[9]
O sujeito humano se descobre assim, como sendo o doador de significado, o
dativo de sentido às coisas, à realidade que em todo caso é a sua, retorna
sobre si mesmo e se faz consciência que quer conhecer a si mesma, vem a ser
consciência-de-si. Mas, nem tudo que está à mão, ao alcance do seu ser, é
objeto passivo acolhedor de seus significados, e mais, não está só no mundo,
ou ainda, o seu mundo como totalidade dinâmica de significados exige, como
condição de sua existência a interação dos significados no universo simbólico
que converte, numa metamorfose essencial, o cogito em cogitamus
– surge o Outro.
Com efeito, já não se trata de um simples em-si, a consciência-de-si
é para-si, mas somente será em-si e para-si em sua verdade quando se fizer
reconhecer por uma outra consciência-de-si; desse modo a dialética do conhecer
que é ser na busca constitutiva do seu si mesmo, irá se revelar como movida
pela dialética do desejo, cujas metamorfoses em vias de sua realização
conduzirá à dialética das relações Eu-Outro, desvelando a insuficiência do
cogito e a necessidade de sua suprassunção no cogitamus.
Consciência-de-si e identidade, o
desejo nas relações constitutivas da subjetividade (a descoberta do outro ou a
conversão do desejo) dialética do desejo.
Como compreender a identidade do que é evanescente na fluidez mesma do
seu movimento de devir? Tomemos como ponto de partida a seguinte assertiva de
Hegel: “o verdadeiro é o sujeito: e como tal é somente o movimento dialético,
esse caminhar que a si mesmo produz, que avança e que retorna a si.”[10]
Desde essa perspectiva do sujeito não se pode dizer que ele é uma Coisa, mas
apenas um movimento. E se a isso assomarmos que na busca do saber de si mesmo a
Consciência tomando a si mesma como objeto chega a concluir que: “o Em-si
é a consciência, mas ela é igualmente aquilo para
o qual é um Outro (o Em-si): é
para a consciência que o Em-si do objeto e seu ser-para-um-Outro são o mesmo.
O Eu é o conteúdo da relação e a relação mesma; defronta um Outro e ao
mesmo tempo o ultrapassa; e este Outro, para ele, é apenas ele próprio.”[11]
Teremos que reformular a visão hodierna do Eu e de sua identidade.
Uma asserção hoje já de domínio público nos diz que é mais fácil descobrir uma nova verdade do que encontrar os meios de
realizá-la, contudo, parece que no tocante à verdade sobre si mesmo o
homem tem dificuldade não de realizá-la, mas primeiramente de aceitá-la.
Desde há muito redefinimos nossa posição nos universo, já estão longe os
tempos de Galileu em que a centralidade da Terra no Cosmos era objeto de debate
e perseguição; no entanto, seguimos buscando, numa presunção absurda,
continuar nos imaginando no centro do universo, no ápice da evolução.
O que está posto no texto hegeliano é que essa entidade que somos não
é algo dado, ‘pronto e acabado’, uma ‘coisa interior’ que se supõe
como algo determinado e que na melhor das possibilidades se desenvolve
desdobrando-se por acréscimo como uma concha do mar, uma pedra que o tempo
burila e a poeira aumenta. Gostamos de pensar que temos ‘personalidade’ estática,
petrificada, imutável a tal ponto que uma simples mudança de atitude ou preferência
já é tida como perda de personalidade, falta de caráter etc.
O Espírito do Mundo, como nos
disse Hegel, ou o conjunto de valores e princípios hegemônicos em determinado
momento, são tomados por nós como a verdade imutável, por força da
identidade que comungamos com a cultura na qual estamos nascidos e formados,
seus valores se confundem com o que somos, a tal ponto que lutamos por eles como
se fosse por nós mesmos, esquecemos ou não nos damos conta de que são valores
cultivados em nós, e nessa identidade ingênua os vemos não como valores
nossos, mas como se constituíssem a nossa essência, o nosso ser. Nessa alienação,
deixamos de apreender os valores como momentos necessários ao nosso crescimento
e os tornamos absolutos como se esses valores e princípios fossem nossa verdade
última, definitiva, imutável.
Daí o nosso apego às tentativas de petrificação, de imutabilidade, de
estabilidade, aí provavelmente a sede da nossa resistência em admitir a
fluidez do Eu, tentamos petrificá-lo em atributos inessenciais que
caracterizamos como parte de nossa ‘personalidade’, de nosso caráter, jeito
de ser etc. Mas, se o nosso Eu não é algo fixo que desde uma posição nomênica
assiste a todas as nossas afecções, como pensar nossa identidade nessa
fluidez?
Parece-nos que a chave encontra-se na assertiva de Hegel supra mencionada
de que o Eu é o conteúdo da relação e a relação mesma, pois enquanto é a
relação é fluidez, na sucessão das figuras e simultaneidade dos momentos,
enquanto é conteúdo é o que permanece, na totalidade das vivências que se
suprassumem e na dinâmica interna dos processos de assimilação do negativo
como determinidade sua.
Com efeito, a questão é: como opera na dialética do desejo a dinâmica
da consciência-de-si ou do Eu no processo constitutivo do seu si mesmo? Ou,
ainda, como se retém na fluidez o fio condutor desse Eu que é movimento, teia
de relações que se imbricam, e que se conhece como si mesmo? Aí entra em jogo
a necessidade de transmutar o desejo em desejo do desejo ou a metamorfose em que
o conhecer a si mesmo implica um reconhecer a si mesmo no Outro e,
simultaneamente, ser reconhecido como si mesmo por um Outro, ou ainda, poderíamos
dizer que a dialética do desejo e a dialética do reconhecimento são indissociáveis.
Por conseguinte, é necessário re-efetuar
esse desenvolvimento ou ler o périplo fenomenológico da consciência-de-si
como uma vivência, retomemos o texto:
“Para a consciência-de-si portanto, o ser-Outro é como
um ser, ou como momento diferente;
mas para ela é também a unidade de si mesma com essa diferença, como segundo momento diferente.
Com aquele primeiro momento, a consciência-de-si é como consciência e para ela é mantida toda a extensão do mundo sensível;
mas ao mesmo tempo, só como referida ao segundo momento, a unidade da consciência-de-si
consigo mesma. Por isso, o mundo sensível é para ela um subsistir, mas que é
apenas um fenômeno, ou diferença que não tem em si nenhum ser. Porém essa
oposição, entre seu fenômeno e sua verdade, tem por sua essência somente a
verdade, isto é, a unidade da consciência-de-si consigo mesma. Essa unidade
deve vir-a-ser essencial para ela, o que significa: a consciência-de-si é
desejo, em geral.”[12]
Aqui se confirma o desejo como categoria, ou seja, modo a partir do qual
se manifesta a consciência-de-si em sua efetividade, no duplo sentido de
constituir um estatuto gnosiológico de sua explicitação e apreensão
conceitual e, também, um estatuto ontológico-existencial de sua consumação
como ser-no-mundo, porquanto a fluidez própria do Eu
revela sua identidade como ato constitutivo de si mesmo.
Importa, contudo, observar que assim como no momento da certeza sensível
a consciência se viu impulsionada a ir além de si mesma para alcançar a sua
verdade na percepção; agora, a consciência-de-si irá além de si mesma como
desejo, em geral, para apreender a verdade de si mesma na superação do
solipsismo, de modo a superar uma visão do Eu
que o hipostasia e o põe como fundamento ou pressuposto, instaurar sua verdade
numa visão que concebe o Eu como ato,
relação e conteúdo da relação mesma,
que nisso tem implicada a necessidade do abrir-se ao Outro,
seja no simples conhecer de algo outro como si mesmo e mais essencialmente no
re-conhecer Outro como Outro de si mesmo, para ser movimento de plenitude de si
mesmo como abertura para o Outro
operando a conversão do Eu num Nós.
Com efeito, temos de percorrer esse périplo em seus momentos, pois não
se pode ‘queimar’ etapas. No seguimento do texto hegeliano a consciência-de-si
dá o primeiro passo:
“A consciência tem de agora em diante, como consciência-de-si, um
duplo objeto: um, o imediato, o objeto da certeza sensível e da percepção, o
qual porém é marcado para ela com o sinal do negativo; o segundo objeto é
justamente ela mesma, que é a essência verdadeira e que de início só está
presente na oposição do primeiro objeto. A consciência-de-si se apresenta
aqui como o movimento no qual essa oposição é suprassumida e onde a igualdade
consigo mesma vem-a-ser para ela.”[13]
Ora, nisso a consciência-de-si já se põe efetivamente como verdade,
posto que, como sabemos a verdade é o
movimento dela mesma em si mesma. Contudo, esse é um ponto difícil de ser
apreendido pela consciência comum, que na sua ‘naturalidade’ em vez de
empenhar-se em desvelar o seu si mesmo, toma por sua verdade a aparência de si
mesma como manifesta para a certeza sensível e a percepção em lugar desse
movimento do pensar que se constitui num imbricado de relações de relações,
enquanto a consciência que se põe no caminho do saber efetivo tem aqui o ponto
de inflexão a partir do qual penetra na dialética do devir de si mesma como
espírito.
De início a consciência tinha o seu objeto como algo distinto dela, a
manifestação que a ela se oferecia - na certeza sensível, na percepção e no
jogo de forças do entendimento - parecia ter cada qual um subsistir por si; no
entanto, a experiência vivenciada pela consciência revelou que a verdade
dessas manifestações era ser-para-Outro ou sua verdade é ser fenômeno,
porquanto, sua verdade não estava nela, mas na própria consciência.
“Agora, a consciência examina sua própria certeza: seu objeto
coincide com sua verdade. Com efeito, sendo o objeto ‘aquilo que é para
outro’, quando a consciência é objeto para si mesma, nesse caso coincidem
ser-para-outro e ser-em-si. (...) O que nas figuras anteriores era o ‘objeto
verdadeiro’ da sensação, percepção ou entendimento, agora não passa de
momentos da consciência-de-si: abstrações, que para ela são o nada de
evanescentes essências e não as realidades subsistentes que se
‘afiguravam’. (...) Contudo, como consciência-de-si, a consciência é
movimento de retorno, a partir do ser percebido e sentido, sobre si mesma. (...)
Ora, este movimento é precisamente o movimento do desejo: portanto, a consciência-de-si
é desejo, já que vai em vusca do outro para poder ser e o destrói como outro,
dissolvendo-o em sua própria identidade. O desejo é, pois, o movimento em que
a consciência-de-si suprassume a oposição, ao produzir a identidade consigo
mesma.”[14]
Do exposto podemos deduzir que o que Hegel chama desejo está muito longe
do sentido hodierno que lhe dá a experiência comum, pois aqui a reflexão do
Eu a partir do mundo sensível, ou se se prefere do ser-outro, é a essência
mesma da consciência-de-si que, desse modo não é mais do que esse movimento
ou esse retorno a si. Tal movimento que é a consciência-de-si tem como exigência
a alteridade, o mundo da consciência que assim é conservado para a consciência-de-si.
Com efeito, esse mundo é conservado não como ser em si, como um objeto
que apenas reflete a consciência, mas como objeto negativo, que deve ser negado
a fim de que a consciência-de-si institua nesta negação do ser outro a sua própria
unidade consigo mesma. Por isso a consciência-de-si é, como se disse, desejo
em geral.
O desejo é o movimento da
consciência que não respeita o ser, mas antes que o nega, ou seja, que dele se
apodera de modo efetivo e o torna seu. O desejo supõe assim o caráter fenomênico
do mundo, o que significa dizer que o mundo é apenas um meio para o si mesmo.
Hegel, portanto, não mantém o Eu na tautologia vazia do Eu=Eu, mas apresenta a
consciência-de-si imbricada num debate com o mundo. Assim, o fim do desejo não
é o objeto sensível ou percebido ou mesmo apreendido pelo entendimento, mas, a
unidade do Eu consigo mesmo . A consciência-de-si é desejo, mas o que ela
deseja é ela mesma, seu próprio desejo, embora de início ainda não saiba
disso. Em razão disso, como veremos mais adiante, somente poderá consumar a
dialética do desejo ao encontrar outro desejo, ou melhor, outra consciência-de-si.
O desejo ao propiciar à Consciência-de-si essa unidade se constitui
verdadeira e indubitavelmente como categoria,
pois segundo o próprio Hegel: “Mas o que é coisa é a consciência-de-si;
ela é assim a unidade do Eu e do ser, a categoria.
Quando o objeto é determinado desse modo para a consciência, ela tem razão. A
consciência, como também a consciência-de-si, é em si propriamente razão:
mas só pode dizer que tem razão a propósito da consciência para a qual o
objeto se determinou como categoria.”[15]
A dialética do desejo, enquanto esse é a essência da consciência-de-si,
pode ser compreendida em três momentos, a saber:
a)
O desejo conduz aos objetos do mundo, é o momento do consumir e do traduzir a
realidade efetiva que não pode ser imediatamente consumida em saber e, assim,
progredir do incorporar pelo consumo algo ao seu ser fisiológico para o
consumir espiritual, no qual o objeto transfigurado em significado é tornado
parte do seu si mesmo na forma do conhecimento;
b)
O desejo desvela um objeto que lhe é homólogo – a vida, um objeto que é
reflexão em si mesmo, um algo centrado-em-si-mesmo, o meio no qual a consciência-de-si
busca a si mesma e que constitui assim a sua primeira verdade, vindo a ser como
seu outro é a vida. Aquilo a que a consciência-de-si encontra diante de si é
a vida, que é necessariamente outro e o mesmo; desejar a vida outra coisa não
é senão desejar ser si mesmo;
c)
O desejo suprassume o desejo – desejar a vida conduz a desejar a si mesmo,
desejar o desejo, o conhecer se transmuta em reconhecer e a consciência-de-si já
não se satisfaz apenas em conhecer quer ser reconhecida em seu desejo, assim é
o desejo que se busca a si mesmo no outro, o desejo do reconhecimento do Eu por
outro Eu, o desejar o desejo do Outro.
O homem não tem, como os outros animais, o desejo único de perseverar
em seu ser, de ser aí como uma coisa, um isso-aí, mas tem o desejo imperativo
de fazer-se reconhecer como consciência-de-si, pondo-se acima da vida puramente
animal, e esta determinação por ser reconhecido exige, por sua vez, o
reconhecimento de outra consciência-de-si.
Na consciência-de-si a substância aparece pela primeira vez como
sujeito, ou o que é o mesmo, com a consciência-de-si entramos no reino
espiritual da verdade, no mundo que em sua totalidade, expresso no conceito de
vida, se reflete na consciência-de-si; ora, em seu conceito mesmo a consciência-de-si
é retorno a si mesma desde a alteridade. O outro, o mundo sensível,
manifesta-se nela como outro, mas como outro que ela nega em sua alteridade
independente para relacioná-lo consigo mesma.
Com efeito, o que constitui a consciência-de-si não é a contemplação
do ser, mas sua ação movida pelo desejo, é o desejo do outro o que conduz a
consciência-de-si a se reconhecer a si mesma. O desejo é o movimento pelo qual
a consciência-de-si se lança até o outro, não para eliminar o outro pura e
simplesmente, mas para negá-lo em sua independência e convertê-lo em meio de
sua própria afirmação. Essa a razão pela qual se deve entender que a consciência-de-si
busca somente a si mesma, a ela não importa o objeto enquanto tal; assim, a
consciência-de-si não pode jamais encontrar em algum objeto sensível a
satisfação do seu desejo.
Por conseguinte, se o que a consciência-de-si busca no desejo não é o
outro, mas a si mesma, somente poderá satisfazê-la um objeto no qual não
apenas possa reconhecer-se, mas um no qual nessa relação possa também ser
reconhecida; ou seja, é necessário que o objeto seja também desejo de si
mesmo ou outra consciência-de-si. O desejo encontra, portanto, a sua consumação
como desejo do desejo, enquanto a consciência-de-si consuma a sua realização
enquanto suprassume o desejo de conhecimento no desejo de reconhecimento.
Essa a razão pela qual podemos afirmar com Hyppolite que: “O desejo
deve conduzir ao desejo e encontrar-se como tal no ser, deve encontrar-se e ser
encontrado, aparecer como um outro e aparecer a um outro.”[16]
E, ao mesmo tempo, essa é também a razão pela qual se pode compreender o
desejo como constitutivo essencial dos momentos que Hegel distingue no conceito
da consciência-de-si.
Referências
Bibliográficas
Châtelet, F. - Hegel. Trad. Alda Porto. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, 1995.
Hegel, G. W. F. - Propedêutica Filosófica. Trad. Artur Morão. Lisboa. Edições 70, 1989.
-
Fenomenologia do Espírito, in 2 vols. Trad. Paulo Meneses. Petrópolis. Vozes, 1992.
Hyppolite, J. - Genèse et Structure de la Phénoménologie de l’Esprit Hegel. Paris. Aubier montaigne, 1974.
Meneses, P. - Para Ler a Fenomenologia do Espírito. São Paulo. Edições Loyola, 1985.
Moraes, A. de O. - Razão e Conhecimento: considerações sobre a Weltanschauung hegeliana, In Revista Filosofia Política, Série III; n.3. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, 2002.
[1] Hegel, G. W. F. – Propedêutica Filosófica, §173, p. 72.
[2]
Id., p.72.
[3]
Id., - §177, p. 73.
[4]
Ibid., §178, p. 73.
[5] Ibid., §179, p. 74.
[6] Ibid., §181, p. 74.
[7] Hegel, G. W. F. – Fenomenologia do Espírito, pp. 36, 37.
[8] Châtelet, F. – Hegel, pp. 65, 66.
[9] Hegel, G. W. F. – Fenomenologia do Espírito, § 165, p. 132.
[10] Id., § 65, p. 65.
[11] Ibid., §166, p. 135.
[12] Hegel, G. W. F. – Fenomenologia do Espírito, §167, p. 136.
[13] Id., pp. 136, 137.
[14] Meneses, P. – Para Ler a Fenomenologia do Espírito, p.56.
[15] Hegel, G. W. F. – Fenomenologia do Espírito, p.246.
[16]
Hyppolite, J. – Genèse et Structure de la Phénoménologie de l’Esprit de Hegel,
p.157.