ISSN 1980-8372
Ano 4 - N.º 06 Junho de 2007
O
UNIVERSAL ATIVO E SUAS DETERMINAÇÕES FUNDAMENTAIS: UMA INTRODUÇÃO À LEITURA
ESPECULATIVA DOS §§ 20-23 DA ENCICLOPÉDIA
DAS CIENCIAS FILOSÓFICAS EM COMPÊNDIO (1830) DE HEGEL[i]
Prof.
Ricardo Wuicik (SPLEFA – GUARAPUAVA/PR)
Prof.
Drndo. Manuel Moreira da Silva (SPLEFA/UNICENTRO/PR/UNICAMP)
Palavras-chave: Universal ativo, pensamento, Eu puro, Filosofia especulativa.
Key
Words: active
Universal, thought, pure I, speculative philosophy.
O presente
artigo tem por objetivo central explicitar o conceito do Universal ativo[ii],
mais precisamente, desdobrá-lo e apresentá-lo segundo suas determinações
fundamentais tal como emersas nos §§ 20-23 da Enciclopédia das ciências
filosóficas em compêndio (1830)[iii]
de G. W. F. Hegel; os quais constituem o cerne do Conceito Preliminar da
Lógica enciclopédica, onde Hegel nos apresenta o objeto próprio dessa ciência:
o pensar. Para apresentar-nos o conceito do pensar e assim elevar-nos ao mesmo,
Hegel parte da representação comum que o toma como uma atividade subjetiva e,
ao desdobrar essa representação – em seus elementos interiores e a partir de
suas conseqüências necessárias –, demonstra brevemente que o pensar e seus
produtos são, na verdade, o que há de mais objetivo; a um só tempo, no
sentido do que já fora tematizado no § 1 da Introdução à Enciclopédia, pensamento objetivo ou ativo e, portanto, Conceito.
Assim, dado que nos referidos §§ 20-23 Hegel objetiva nos apresentar o pensar
em suas determinações mais precisas, tais como: (1) Universal ativo, (2) meditação
(Nachdenken)[iv] – ou a atividade do
Universal –, (3) alteração (Veränderung), (4) Eu puro,
e, enfim, (5) pensamentos objetivos, este texto desenvolverá cada um desses parágrafos,
através dos quais se pretende explicitar cada uma dessas determinações de
modo a sistematizá-las à luz do próprio texto hegeliano.
Aqui,
partimos da identificação entre o Universal ativo e os pensamentos objetivos
como suas determinações imanentes, as quais, como determinações de
pensamento, resultam da elevação do espírito pensante, a partir da representação,
ao plano do conhecer e do conceber pensantes[v]
tão só por meio da meditação e da alteração que por meio dela ocorre no
conteúdo mesmo do pensar, que assim, a um só tempo, se reconhece como Eu puro,
reconhecendo também as suas determinações de pensamento como pensamentos
objetivos. Neste sentido, haja vista Hegel pretender levar a Filosofia ao seu
completo desenvolvimento como ciência[vi],
se faz necessário explicitar e desdobrar pelo menos aquelas que designamos as
determinações fundamentais do pensar, enquanto Universal ativo, mediante a
exigência propriamente hegeliana segundo a qual o pensamento constitui o
fundamento da realidade; de onde se impor a necessidade de uma consideração
imanente, ou melhor: especulativa, do conceito do Universal ativo e suas
determinações mais precisas. Portanto, pretendemos explicitar o conceito do
Universal ativo e seus desdobramentos, que se determinam como meditação,
como alteração e, finalmente, como Eu
puro. Sobre a meditação, por sua vez, explicitaremos suas determinações
como um pensar-que-reflete e como um pensar superveniente.
O conceito
do Universal ativo aparece no § 20 da Enciclopédia, nos quadros do Conceito
preliminar da Lógica, após Hegel ter apresentado o pensar como
objeto dessa ciência[vii]. O pensar, objeto da Lógica,
é representado habitualmente como uma faculdade subjetiva ao lado de outras e
que produz pensamentos, considerados universalidades; no entanto, nos §§
20-23, Hegel demonstra que o pensar, enquanto produtor de pensamentos
universais, é o próprio Universal em atividade produzindo-se a si próprio.
Infelizmente, nestes parágrafos, Hegel se limita a um tratamento meramente exotérico
do problema que aqui nos interessa, o que o impede de apresentar um
desenvolvimento maior e mais aprofundado – vale dizer, esotérico – do
Conceito segundo as determinações aí emersas; como ele não desenvolveu isso
em outro lugar, propomo-nos a fazê-lo de modo a sistematizar tais determinações
à luz da própria apresentação hegeliana do Universal ativo. Tal é o caso da
meditação, não tematizada por Hegel nesses parágrafos, mas que
procuramos explicitar através de outros momentos da obra hegeliana, nos quais a
mesma se determina como um pensar-que-reflete e como um pensar
superveniente. Logo após, tendo em vista essa explicitação, pretendemos
discutir o resultado da meditação, determinado como uma alteração,
que leva o Universal a reconhecer-se a si próprio nessa atividade e nesse
resultado. Finalmente, o Universal ativo é apresentado como Eu puro,
como sujeito livre de seus momentos particulares e imerso na pura
universalidade.
Para
demonstrar que o pensar é o próprio Universal ativo produzindo-se a si
mesmo num movimento que se constitui mediante diversos momentos constitutivos,
partiremos de uma referência feita por Hegel no § 19 da Enciclopédia,
sobre o aparecimento de uma necessidade histórica de estabelecer-se o pensar
dentro de limites bem definidos que o apresentassem em seu real alcance,
passando à representação que resultou desse intento e que, assim, se põe
como ponto de partida para se atingir o Conceito. Desse modo, partindo-se da
representação em torno do pensar (como uma atividade subjetiva que produz
pensamentos universais), passamos às determinações gerais do sensível, da
representação determinada e novamente do pensamento (como resultado universal
desse movimento), que são as formas experienciadas pelas faculdades subjetivas;
encontrando nessas determinações gerais a sua universalidade inerente,
voltamos ao pensar para mostrar que ele permeia essas formas que são justamente
seus produtos inferiores, sendo ele o próprio Universal em sua atividade de
auto-produção. Finalmente, procuraremos mostrar que o Eu é o próprio pensar
enquanto sujeito de sua atividade.
Segundo
Hegel, no decorrer da história humana o pensar mostrou um grande poder que, não
obstante, no plano da vida, terminou por comprometer as relações superiores aí
existentes e, por isso, enquanto positivo, foi-lhe retirado tal poder,
limitando-o a um pensar negativo; por isso ele foi colocado em questão e
buscou-se compreendê-lo melhor e então limitá-lo ao seu alcance efetivo[viii],
limitação essa facilmente observável na filosofia crítica de Kant[ix].
Para tanto, o pensar foi apreendido e representado a partir de como se mostra em
sua atividade aparente, e fixado como uma faculdade humana distinta e ao lado
de outras[x],
tais como a sensação, a intuição e a vontade, etc., determinações das
quais o mesmo prescindia ou, pelo menos, só levava em conta na medida em que se
apresentavam a ele subordinadas ou dele dependiam de tal ou tal maneira. Então,
o pensar passou a ser definido e fixado pela representação como uma atividade
de alcance limitado e duvidoso, e, em alguns casos, as sensações externas,
referentes à forma sensível, passaram a ter um status mais elevado,
como aquilo que é o mais concreto e confiável, e o sensível foi considerado
como o objeto legítimo de uma investigação séria e científica – uma
expressão ilustrativa disso podemos encontrar nas Investigações Sobre o
Entendimento Humano de Hume, para quem “o pensamento mais vivo é sempre
inferior à sensação mais embaçada”[xi].
Para refutar e superar essas posições limitadas acerca do pensar Hegel parte
exatamente de sua representação:
Tomemos o pensar em sua representação que fica mais próxima; então
ele aparece: α) primeiro em sua significação habitual subjetiva, como uma
das atividades ou faculdades espirituais, ao lado de outras – da
sensibilidade, da intuição, da fantasia etc.; do desejar, do querer etc. Seu produto,
a determinidade ou a forma do pensamento, é o universal, o abstrato em
geral. O pensar, enquanto atividade, por conseguinte é o
universal ativo, e de fato o universal que se atua; enquanto o ato – o
produzido – é justamente o universal. O pensar, representado como sujeito,
é o pensante, e a expressão simples do sujeito existente como pensante
é Eu.[xii]
(E., § 20)
Enquanto o
pensar é considerado como uma atividade subjetiva que toma como seu conteúdo
algo que se contrapõe a ele – um objectum[xiii]
–, algo meramente externo, a ciência que trata desse pensar, a Lógica, se
ocupa apenas da forma mais correta com a qual ele deve apropriar-se do objeto.
Enquanto a sensação e intuição têm contato com a singularidade (Einzelnheit)
sensível, o pensamento, por sua vez, apreende o universal, a causa interior das
coisas, ou, para alguns, as leis e estruturas que subjazem a elas. Um pensar
como este, que abstrai um conteúdo de um objeto externo e o conforma à
universalidade (Allgemeinheit), pode ser chamado de pensar formal, pois
coloca tal conteúdo apenas sob a forma da universalidade abstrata. Entretanto,
como se verá mais adiante, essa abstração é limitada e não abarca todo o
movimento do pensar, ou seja, ao mover-se, o pensar é fixado por uma forma, por
uma representação que não o compreende em toda a sua verdade. Desse modo, o
pensar é representado como uma atividade subjetiva que produz pensamentos tidos
como universais, ou ainda, que têm a determinação da universalidade.
Entretanto, essa determinação não é apenas abstratamente universal, pois se
encontra também noutras formas, como no sensível e na representação; a
saber, universalidades tais como fora-de-um-outro (Außereinander),
ao-lado (Neben) e depois-de-um-outro (Nacheinander).
Buscando compreender o lugar lógico-ontológico de tais determinações, e para
avançar da mera representação em geral e demonstrar o Conceito ou o pensar
enquanto Universal ativo, Hegel nos apresenta as determinações do sensível (Sinnliche),
da representação (Vorstellung) e do pensamento (Gedanke).
Em nosso
caso, porém, antes de abordar essas três determinações, faz-se necessário
aqui uma exposição preliminar e etimológica do termo português
‘universal’[xiv],
que é derivado do latim tardio universalis, que por sua vez vem de universus
e significa “voltado (versus) para o um (unus)”[xv],
portanto, aquilo que é voltado para o Um é o universal. Assim,
como o pensar possui a determinação do universal, do voltado-para-o-um,
poderá ser observado, a partir das determinações que se seguem (sensível,
representação e pensamento), o fato de que nelas sempre está presente o caráter
da universalidade, ou seja, a experiência dessas formas é, em seu conjunto, um
único e mesmo movimento em direção ao um, mesmo que não o pareça
numa primeira aproximação. Nesse caso, mais que uma Ontologia, consubstanciada
na Lógica objetiva ou mais precisamente na Doutrina do Ser, poder-se-ia afirmar
que o ponto nevrálgico da elaboração hegeliana do Universal ativo exige antes
de tudo uma Henologia, da qual como que emergem diversos elementos na chamada Lógica
subjetiva ou do Conceito[xvi],
ou antes, já mesmo na Doutrina da Essência da Lógica objetiva, quando se põe
a tematizar o Absoluto e suas determinações, a um só tempo, enquanto negadas
e afirmadas[xvii]. Infelizmente, aqui não
poderemos nos aprofundar quanto a esse ponto; voltemos pois às determinações
do sensível (Sinnliche), da representação (Vorstellung) e do
pensamento (Gedanke).
Primeiramente,
sobre o sensível, pode-se dizer que é uma forma na qual um conteúdo aparece
individualmente, portanto, é determinado pela individualidade. Ao tentar
explicitar ou definir o sensível, ele é geralmente considerado como a forma de
tudo o que é externo ao sujeito[xviii]
que o sente; é tido como a fonte ou o material exterior de toda representação
e pensamento, como o que há de mais concreto e como o fundamento mais estável
e firme. Entretanto, aquilo que é considerado como um objeto sensível é, mais
propriamente, um conteúdo apresentando-se na forma sensível, como algo
singular e imediato, que se apresenta também, mas posteriormente, na forma da
representação e na forma do pensamento. Segundo Hegel, o sensível é a forma
mais inferior na qual o conteúdo se apresenta[xix],
pois é uma forma imediata e determinada pela individualidade; assim, os objetos
sensíveis podem ser melhor determinados como fora-uns-dos-outros, ou
ainda de modo mais preciso, ao-lado e depois-uns-dos-outros[xx]
– determinações que demonstram sua limitação ao espaço e ao tempo, como
objeto gerado e corruptível, e por isso, como o momento mais instável das
coisas. Se o sensível é apenas uma forma na qual um conteúdo aparece[xxi],
a questão mais importante, e que discutiremos adiante, é sobre qual é esse
conteúdo que se mostra na forma sensível, singular e imediata. Deve se
distinguir ainda que temos num primeiro momento a experiência sensível, que
toma os objetos singularmente sem representá-los nem sequer como tais; noutro
momento temos a determinação de um conteúdo como sensível, determinação
que nesse momento o altera e com isso ele deixa de ser apenas sensível, pois
passa a ser determinado como tal, ou seja, o que assim se tem é já uma
representação da coisa (Ding)[xxii]. Sucintamente: o sensível,
enquanto algo indeterminado, também é universal, ou seja, é universalmente
indeterminado, pois está diluído na unidade da indeterminação na qual o
sujeito, por nada representar, toma os objetos separadamente, como singulares, e
enquanto algo determinado é universal na medida em que na representação de
algo como singular encontramos o universal, pois toda determinação é uma
universalidade.
Uma
representação, por sua vez, é o tomar como conteúdo o mesmo objeto que se
apresentava como sensível, portanto, ela é uma re-apresentação do
objeto no sujeito, que não o toma mais apenas singularmente, mas o apreende em
sua universalidade ao dele abstrair suas determinações universais[xxiii].
Essa re-apresentação, alcançada por uma abstração das determinações
universais do objeto, é um outro momento daquele mesmo conteúdo que outrora se
apresentava sob a forma sensível – porém, deve recordar-se que não é
apenas do sensível que a representação se apropria, pois há representações
do jurídico, do ético, etc., que são produtos do pensar. A atividade do
pensar, de um modo geral, alcança aqueles universais que, porém, são
limitados e fixados em representações, pois ao abstrairmos a universalidade do
sensível, terminamos por nos determos e satisfazermo-nos nessas limitações,
ao invés de avançar nesse movimento. A representação também é tomada como
algo meramente externo ao objeto, dado que é colocada em oposição ao aparecer
daquele enquanto algo sensível[xxiv].
Desse modo, temos aí a cisão do objeto entre sua imediatez singular e a sua
universalidade abstrata – a representação é uma determinação abstrata, é
o colocar a coisa na determinação da universalidade; é a apreensão de
algo individual e sua apresentação naquela forma universal. Tanto a forma do
sensível quanto a forma do pensamento, captadas pela intuição, são fixadas
pela representação, que os determina de modo universal, ainda que
abstratamente universal, como separados de sua imediatez. Note-se que, quando se
trata a atividade do pensar como uma atividade subjetiva ao lado de
outras, essa consideração ela mesma é apenas representação acerca daquela
atividade, pois é uma determinação do representar ter os objetos ao-lado-uns-dos-outros[xxv],
tais como os apreende e os apresenta à consciência a partir de como esses
objetos lhe aparecem. Assim, o pensar, na representação que se tem dele, fica
reduzido à forma limitada de uma faculdade subjetiva.
Do que foi
discutido até aqui, depreende-se que o universal permeia todas as determinações
ou formas nas quais se apresenta a realidade e é somente pela atividade do
pensar que ele é encontrado – o universal determina a realidade desde suas
formas mais inferiores até as mais superiores. Além disso, como foi dito que
toda determinação encontrada pelo pensar é um universal, assim também a
linguagem é um produto do pensar e tudo o que é dito é universal, pois, ao
contrário, ou não seria dito ou não seria compreendido[xxvi]
– o universal permeia essas formas e elas são universalidades, ou, em outras
palavras, elas são o universal nas suas formas particulares. Quanto ao pensar
ele mesmo, Hegel afirma que ele é o próprio universal em atividade, atuando
sobre si mesmo e produzindo-se; desse modo, enquanto o pensar assim se
apresenta, ele é determinado como um Universal ativo (das thätige
Allgemeine), que se auto-produz e que não pode ser reduzido a uma mera
faculdade subjetiva, por se mostrar como um movimento universal do qual se
desdobram todas as faculdades chamadas humanas.
Além disso, aquelas determinações que foram constatadas no sensível (fora-de-um-outro,
ao-lado e depois-de-um-outro) e a própria representação, como
uma representação determinada, são também universalidades, pois, ainda que
inferiores ou tão somente subjetivas, também são e permanecem sendo determinações-de-pensamento
produzidas pelo Universal ativo.
Assim, o
pensar não pode ser apenas determinado de um modo fixo, ou seja, não pode
apenas ser representado e limitado, já que é movimento e produção de si
mesmo. A representação do pensar, apesar de ser um momento do Universal ativo,
não pode ser algo definitivo, pois ela é a fixação do movimento em um de
seus momentos assim como ele nos aparece: como uma atividade subjetiva ao lado
de outras; mas não como ele é em sua plenitude. O sensível e a representação
são as formas inferiores do pensar apreendidas pela consciência, que não tem
reconhecido nelas o movimento do pensar aí subjacente; por isso, o pensar tem
que ser delas distinguido, ou melhor, tem que se pôr em oposição a essas
formas enquanto o que nelas mesmas há de interior. Mas o pensar não se reduz
à representação que se tem dele, que o fixa e limita, pois ele é o movimento
que permeia a experiência do sensível, a representação e as faculdades
subjetivas, que, por sua vez, não são mais que momentos dele em seu movimento voltado
para o um (que é ele mesmo e que, assim, suprassume aquela oposição).
Portanto, o Universal produzido por sua própria atividade não pode ser
confundido com o universal abstrato, mas seu resultado último deve ser
reconhecido como conceito de si mesmo, como Universal ativo, Eu puro ou Conceito
livre[xxvii].
A partir da
afirmação de Hegel de que “o pensar, representado como sujeito, é o pensante,
e a expressão simples do sujeito existente como pensante é Eu”[xxviii],
podemos dizer que o ser humano, em sua essência, é pensar, e mais
propriamente, podemos dizer que, sendo o Universal sujeito de sua atividade,
sendo Eu, o ser humano apresenta-se como uma particularização desse Eu
universal. Pois, o Eu apresenta-se como expressão do puro pensar ou Universal
ativo enquanto sujeito, enquanto pensante, e como aquele permeia todas as
determinações particulares e modos da consciência, sensações, representações,
vontades etc., também o Universal em tudo está presente[xxix].
No entanto, como é papel da Filosofia trazer à luz da consciência as
determinações mais precisas acerca do Universal ativo[xxx],
deve-se, ainda, proceder a uma mediação mais completa entre a representação
ordinária em torno do pensar e o conceito deste, ou melhor, sobre esse pensar
mesmo enquanto Conceito livre, mostrando os momentos legítimos do Universal;
comecemos por considerá-lo em seu primeiro momento, a saber, como uma meditação,
que, por sua vez, determina-se como pensar-que-reflete e pensar
superveniente.
III.
O Universal ativo e as determinações
fundamentais da meditação
Afirmamos
acima que o pensar produz o universal e que esse está presente na determinação
do sensível e da representação, dado que as determinações são já
universalidades e que, desde a experiência sensível, passando pela representação,
até o puro pensamento, há uma atividade que os subjaz, que nada mais é que o
Universal ativo produzindo a si próprio e passando por momentos variados;
portanto, o pensar, enquanto atividade que permeia todas as outras atividades
espirituais, é o próprio Universal ativo. Agora, afirmaremos que o Universal
ativo ocupa-se apenas consigo mesmo, enquanto meditação, e que o universal por
ele produzido é o interior, o conteúdo da coisa[xxxi].
Ou seja, o Universal ativo que tudo permeia, enquanto possui a determinação de
atuar sobre objetos, que são as formas – sentimento e representação, etc.
– nas quais o universal aparece à consciência, é o que Hegel chama Nachdenken,
aqui traduzido como meditação, e que pode ser determinado como
“pensar que reflete, que tem por seu conteúdo e traz à consciência
pensamentos como tais”[xxxii], e pode apresentar-se
determinada como um pensar superveniente.
A primeira observação importante a ser feita aqui é que a versão brasileira da Enciclopédia, de Paulo Meneses, verte em vários momentos a palavra alemã ‘Nachdenken’ por ‘reflexão’[xxxiii] ou, mais raramente, por ‘meditação’[xxxiv], nos momentos em que o texto de Hegel traz num mesmo período as palavras ‘Nachdenken’ e ‘Reflexion’. Ambas, geralmente, são traduzidas por ‘refletir’, ‘meditar’, ‘considerar’, indistintamente. Entretanto, a utilização, por Hegel, desses dois vocábulos, Reflexion e Nachdenken, em momentos diferentes de sua obra, se tratada com rigor, aponta no sentido de um significado próprio para cada um deles. Aqui, porém, devido à complexidade dessas determinações, será dada especial atenção a Nachdenken. Considerando o verbo alemão ‘denken’, vê-se que é regularmente traduzido para o português como ‘pensar’ e o vocábulo ‘nach’, uma preposição, que pode ser traduzido pelas palavras ‘para’, ‘depois’, ‘conforme’, ‘na direção de’, etc. Então, depois dessa análise, pode-se, preliminarmente, verter ‘Nachdenken’ pela expressão ‘pensar na direção de’. Contudo, vale lembrar ainda que o termo Nachdenken possui um sentido comum, significando um pensar sobre algo, ou, de modo mais elevado, tem o sentido de meditar e, enquanto um substantivo, meditação, corresponde a uma atividade espiritual como “a ocupação incolor do espírito contraído dentro de si consigo mesmo” de que nos fala o prefácio à primeira edição da Ciência da Lógica[xxxv]. Além disso, Hegel aponta para um sentido mais rigoroso de Nachdenken, como “o pensar que reflete”; no entanto, esse conceito não teve um melhor desenvolvimento por parte de nosso filósofo, permanecendo a meio caminho de seu processo de sistematização[xxxvi]. O § 21 da Enciclopédia traz o seguinte:
β) Enquanto o pensar é tomado como ativo em relação a objetos
– a meditação sobre algo – o Universal, que é o produto de sua
atividade, contém o valor da Coisa, o essencial, o interior,
o verdadeiro.[xxxvii]
Assim, temos
o pensar ativo[xxxviii]
em relação a objetos – lembremo-nos de que o pensar foi determinado
anteriormente como o Universal ativo, aqui, no entanto, o temos como ativo em
relação a objetos – ou seja, está sendo apresentado aqui um
desdobramento, uma determinação mais específica do Universal, a saber, como
uma meditação sobre algo. Essa, portanto, apresenta-se como uma
determinação do Universal ativo na qual esse se ocupa com objetos, resta
demonstrar quais são eles. Para melhor realizar tal determinação, podemos
recorrer antes ao § 2 da Enciclopédia, no qual Hegel afirma que o
pensar permeia tudo o que é humano, desde as formas do sentimento, da intuição
e da representação, e que, portanto, na verdade há um só pensar. Nesse
contexto, enquanto parece óbvio que o ser humano distingue-se dos animais pelo
pensar, pode haver o preconceito de que aquelas formas sejam opostas ao
pensamento, e, assim, se exija que o sentimento religioso, por exemplo, não
deva contaminar-se com o pensar. No entanto, dado que só há um pensar, o
Universal ativo, e que ele permeia tudo o que é humano, essa oposição não é
verdadeira, porém foi considerada em relação à determinação do pensar
enquanto um “pensar que reflete, que tem por seu conteúdo e
traz à consciência pensamentos como tais”, ou seja, em relação à
meditação. Entretanto, é pela meditação que o Universal ocupa-se de
objetos, no caso, de pensamentos. Quando o pensar é oposto, pela consciência,
aos modos do sentimento e da intuição etc., na verdade, aquela está apenas na
esfera da representação e a sua consideração é uma simples representação
acerca do pensar – no caso, um momento do mesmo, que pode ser colocado em
oposição aos outros modos da consciência[xxxix].
Mais adiante[xl], Hegel distingue melhor
aquele pensar que permeia e determina tudo, do pensar sobre o sentimento,
a intuição, a crença, a representação, etc., esses são os modos da consciência
anteriores à meditação; os quais captam, cada qual a seu modo, as formas do
próprio Universal ativo e que são, pois, nessa medida, pensamentos universais.
Depois, portanto, daquelas formas do Universal – o sensível e a representação
–, captadas pelos seus respectivos modos da consciência, esses mesmos modos
passam a ser objetos da meditação[xli];
ou seja, como visto anteriormente, essas formas são pensamentos e a meditação,
além de tê-los como objetos, ao apresentar-se como um pensar que reflete,
traz à consciência o fato de eles serem pensamentos.
Segundo
Hegel, na vida cotidiana, porém, quando não se invoca uma reflexão (Reflexion)
particular sobre o pensar que põe em dúvida o acesso à verdade,
mantemo-nos na meditação, e graças à superveniência do pensar,
cremos que se pode alcançar o verdadeiro por essa atividade, pois é ela própria,
a meditação, que nos revela que o que conhecemos por seu intermédio é o
verdadeiro[xlii]. Aqui introduzimos,
portanto, outra determinação da meditação, a superveniência, sobre a
qual encontramos referência no seguinte fragmento do Prefácio à segunda
edição (1827) da Enciclopédia:
Com efeito, o fato da Filosofia é o conhecimento já elaborado, e por
isso o conceber seria apenas uma meditação, no sentido de um pensar superveniente;
só o julgar exigiria uma meditação no sentido habitual.[xliii]
Enquanto a
Filosofia tem por objeto “conhecimentos já elaborados”, deve transformar
esses conhecimentos finitos em conceitos. Esse conceber da Filosofia – que é
um produzir conceitos – é um momento mais elevado do Universal ativo, ou mais
precisamente, da meditação enquanto um pensar superveniente;
ou seja, o conceber não é mais que o sobrevir à consciência
do pensar que reflete, enquanto
este reflete a si mesmo e, portanto, na medida em que se
torna consciente de si, descobrindo-se portanto em meditação ou “dentro de
si ocupado consigo mesmo”. Ora, quando Hegel usa a expressão pensar
superveniente, dá a autonomia a esse pensar que é a meditação; essa se
caracteriza por ser o momento no qual o Universal se move livremente, de modo
que a consciência acede à Meditação somente pelo fato do pensar – enquanto
Universal ativo – sobrevir a ela. Por isso, apesar do pensar, em sua autonomia
e auto-movimento, sobrevir-nos, no sentido de que não somos nós,
empiricamente, os sujeitos de tal pensar, essa superveniência do Universal é,
na verdade, sobre ele mesmo, no sentido de que ele é o sujeito do pensar. Na
verdade, o sujeito empírico não é sujeito do pensar, mas uma particularização
do próprio Universal, que sobrevém a si mesmo e eleva-se também a si mesmo a
um momento mais elevado, até atingir a consciência-de-si como sujeito e
objeto, superando a cisão posta pela consciência entre ela e seu outro.
Segundo
Hegel, são várias as situações nas quais podemos detectar a meditação:
isso se dá sempre que procuramos aplicar uma regra a um caso particular, como a
criança que busca ligar um adjetivo a um substantivo. Ela depara-se a uma situação
particular e tem que aplicar aí uma regra universal que aprendeu noutro
momento, e para isso deve meditar. Outro exemplo é quando pautamos nossas ações
em regras morais pré-estabelecidas que se tornam para nós como universais aos
quais as situações particulares do dia-a-dia devem submeter-se, ao risco de
mostrarmo-nos incoerentes se isso não ocorre. Portanto, a cada caso particular
com o qual nos deparamos, sempre que devemos agir ou decidir, meditamos,
interiorizamo-nos, a ponto de nos mantermos fiéis às regras de conduta que são
aqui o universal[xliv]. Hegel cita ainda o fato
de termos objetivos na vida, aos quais procuramos orientar nossas ações
particulares e também os meios específicos que encontramos para alcançá-los.
Os objetivos, por sua vez, expressam o universal que guia nossas ações frente
ao particular, assim como nossa posição frente aos fenômenos naturais que se
apresentam imediatamente à experiência sensível. O que nos parece um simples
ato de nomear fenômenos de acordo com um gênero mais abrangente é o processo
da meditação que se manifesta – sobrevém a nós – em nossa insatisfação
perante os objetos em seu aparecer imediato. O ser humano busca conhecê-los,
saber a sua causa e seu interior em oposição ao exterior. O adendo ao § 21
lembra-nos ainda que essa atividade diante dos objetos produz uma divisão nos
mesmos: em exterior e interior. Afirmação que nos remete à afirmação de que
o Universal, enquanto produto da meditação, é o essencial, o interior, o
verdadeiro da coisa[xlv].
Além de a
meditação apresentar dois aspectos – como um pensar que reflete e um pensar
superveniente –, o produto dessa atividade é o Universal, que contém a
verdade do objeto. Enquanto na filosofia pré-kantiana[xlvi]
acreditava-se ingenuamente que o pensar conhecia a verdade das coisas, com Kant
questionou-se essa crença e supôs-se que o em-si da coisa não está ao
alcance do nosso conhecimento. Essa crença defendia que a verdade das coisas é
algo interior, em oposição ao seu aparecer exterior e imediato, e que para
alcançar essa verdade é preciso interiorizar-se, ou seja, é necessário
meditar. É nesse ponto que a crítica kantiana afirmará que o interior da coisa,
o em-si, além de ser outro em relação a seu exterior é outro também
em relação àquilo que nós atribuímos como sua verdade, tornando-se, esse último,
apenas um para-nós[xlvii].
Entretanto, ao afirmar que apreendemos a realidade fenomenal[xlviii]
através de categorias que estão em nós, Kant nos dá os meios para avançarmos
com Hegel na direção de sua refutação. Pois, ele afirma com isso (não com
essas palavras) que a nossa apreensão dos fenômenos é devida ao pensamento
meramente subjetivo, portanto podemos concluir que aquela apreensão é
pensamento ou é permeada por ele, como vimos ao afirmar que o Universal está
presente nas determinações do sensível e da representação[xlix].
De tal modo que o Universal encontrado nas coisas é pensamento e, enquanto elas
perecem no tempo e no espaço, esse pensamento é o que permanece, é aquilo que
é duradouro. Poder-se-ia, aqui, opor a isso o fato de que leis universais são
freqüentemente superadas ou refutadas; no entanto, em determinado momento, rumo
ao Universal, tais universalidades são o que há de permanente frente aos fenômenos
e, ainda mais do que isso, tanto as leis superadas quanto as que as superam são
pensamentos, demonstrando que dentre os universais abstraídos dos objetos há
um que permeia todos eles: o próprio pensar, ou seja, o Universal ativo. Desse
modo, o único caminho para captar e conhecer o Universal enquanto tal é pela
meditação, pois, o Universal ativo que produz a si próprio, não se vê nos
fenômenos, de modo imediato, é preciso que a meditação sobrevenha à consciência
para alcançá-lo, é preciso um pensar que reflete “e que traz à
consciência pensamentos como tais”. A meditação, ao buscar o Universal,
busca uma unidade a qual abarque uma multiplicidade, essa por sua vez é caótica
e a atividade do pensar busca uma ordem, um cosmos, o que nos remete à
etimologia da palavra ‘universal’: qualidade daquilo que é voltado para o
Um[l].
Vale destacar ainda o seguinte fragmento do texto hegeliano:
De
todos esses exemplos é mister concluir como a meditação está sempre à busca
do firme, do permanente, do determinado-dentro-de-si, e do que rege o
particular.[li]
(§ 21, Ad.).
Ora, como
vimos, o que rege e permeia o particular é o Universal, logo ele é o
determinado-dentro-de-si, o que há de firme frente à contingência. Ao
abstrairmos do universal meramente abstrato o que nele permanece, deparamo-nos
com o puro pensamento, ou seja, com o Universal ativo; portanto, o que parece
uma verdade externa ao objeto deixa de sê-lo, dado que desde as formas
inferiores do sensível e da representação encontramos universalidade, e o
movimento interior do puro pensar é sempre um movimento interior rumo a si e
ocupado apenas consigo próprio, pois o Universal ativo busca determinar-se
dentro de si mesmo. Ao final do adendo ao § 21 constata-se que o Universal compõe
a oposição[lii]
de um outro[liii], um imediato, exterior e
singular, e que o primeiro só é encontrado pelo pensar, ou melhor, pela meditação.
Vale lembrar a Anotação ao § 20, na qual Hegel afirma que o Universal “é
ele mesmo e seu outro, apodera-se desse outro e nada lhe escapa”; o que, de
ora avante, procurar-se-á melhor explicitar, apresentando o resultado obtido
pela meditação, por intermédio de uma alteração.
IV.
A meditação e o
reconhecimento de si do Universal ativo
Após
afirmarmos que a meditação refere-se ao movimento do pensar, que ela toma por
objeto as formas nas quais o Universal aparece e os modos da consciência, tais
quais o sentimento, a intuição, a representação, etc., e que reflete sobre
eles ao sobrevir à consciência, mostraremos agora que isso resulta numa alteração.
Pretendemos demonstrar que a meditação, por deparar o Universal ao outro
de si que é si-mesmo-rumo-a-si e a partir disso retornar a Si, se dá
por intermédio de uma alteração nas formas apreendidas, no sentido
etimológico do termo através de um tornar-se outro (alter ação).
Porém, deve-se abordar a discussão acerca da objetividade e verdade do
conhecimento alcançado pelo pensar, posto que, pouco antes de Hegel, Kant ele
mesmo afirmara que o pensar, ao alterar o objeto, não encontraria o em-si
das coisas, que se apresentaria inacessível ao conhecer, mas sim o que é para
nós, no sentido de que é o nosso pensar que põe nos objetos as formas que
neles pensa encontrar[liv]. Por isso, mostraremos
que essa alteração não é do conteúdo, mas da forma na qual ele se
apresenta, de algo que é meramente em-si
ou para nós ao que é precisamente para-si;
de modo que, como um outro-de-si, o conhecimento é justamente essa
alteração, pois é resultado e produto de si mesmo[lv].
Nessa alteração o universal do objeto é alcançado; e como este é atingido
pelo pensar, esse se reconhece a si próprio nesse resultado como Universal
ativo e, desse modo, como pensamento objetivo, pode-se dizer, com ele se
identifica em nele perfazendo a concordância do objeto consigo mesmo, isto é,
com seu conceito, afirmando-se a si mesmo em sua verdade[lvi].
Pelo fato da
meditação ser um pensar ativo, portanto, não meramente um pensar que recebe
os estímulos exteriores e interiores sem refletir sobre eles – ou
seja, não se comporta apenas através de seus modos inferiores, sensação,
intuição, representação etc., o que poderíamos associar às paixões da
alma –, ela altera o seu objeto. O Universal no objeto não se encontra de
modo imediato na simples aparência; ele é interior. Assim, aquilo que é
exterior, a aparência, é o outro do universal, daquilo que é interior,
que é o que aparece. Ou seja, o sensível singular é o outro do
universal abstrato, e este só vem à consciência, enquanto tal, pela meditação,
como pode ser visto a partir do § 22 da Enciclopédia:
γ)
Pela meditação, algo se alterou na maneira como o conteúdo é
inicialmente na sensação, intuição, representação. Por conseguinte, é
somente por intermédio de uma alteração que a verdadeira
natureza do objeto chega à consciência.[lvii]
Ao afirmar
que pela meditação algo se altera na maneira como o conteúdo é na sensação,
intuição, representação, e que é só pela alteração que a verdadeira
natureza do objeto chega à consciência, Hegel afirma que naquelas formas
anteriores, tais quais sensação, intuição, representação, não está ali
ainda presente à consciência a verdade do objeto. Portanto, essa verdade deve
ser outra coisa que o que nos aparece imediatamente. Enquanto a meditação, um pensar
que reflete, ocupa-se apenas com pensamentos, pois pensa a sensação, a
intuição e a representação, que são modos da consciência captar o conteúdo,
esse, em cada modo, é captado de uma forma diferente, de tal modo que ele
permanece o mesmo, o Universal, apesar das formas em que é apreendido. Assim,
as formas são o próprio Universal, e em cada modo da consciência que se ocupa
com uma dessas formas sobrevém a meditação que, em seu movimento eleva o
universal que permanece nessas formas a uma outra determinação sua mais
elevada. Ao mesmo tempo em que a sensação capta o sensível singular, ela faz
parte do movimento do Universal produzindo a si próprio. Assim, na determinação
do sensível como algo singular, como um outro do Universal, há
universalidade[lviii]
e esse outro é o próprio Universal num momento particular – e isso se
dá com as outras formas suas, as representações, etc. Portanto, quando Hegel
afirma que, através da meditação, algo se alterou na maneira como o conteúdo
é inicialmente na sensação etc., não está afirmando que o conteúdo
alterou-se, mas que há uma alteração na forma como o conteúdo passa a ser
apreendido pelos modos da consciência, como podemos ver no § 3 da Enciclopédia:
O
conteúdo que preenche nossa consciência, seja de que espécie for,
constitui a determinidade dos sentimentos, intuições, imagens, fins,
deveres, etc., e dos pensamentos e conceitos. Sentimento, intuição, imagem,
etc., são nessa medida as formas de tal conteúdo, que permanece um só
e o mesmo: quer seja ele sentido, intuído, representado, querido; quer
seja somente sentido, intuído etc., com mistura de pensamento; quer seja
pensado totalmente sem mistura.[lix]
Ao Hegel
afirmar que o Universal apodera-se de seu outro[lx],
podemos dizer que há um outro do Universal, que é suas particularizações, e
que esse é o seu ponto de partida para produzir-se a si próprio, no entanto,
esse ponto de partida já é também um momento seu, ou seja, seu outro é ele
próprio num momento particular, é apenas uma forma do Universal. E nesse
movimento de auto-produção produzirá outra coisa que aquilo que se lhe
apresenta: seu outro; logo, produzirá um outro de seu outro que será
ele mesmo mais desenvolvido. Esclarecedora é a etimologia da palavra alemã ‘Veränderung’,
na qual encontramos o radical ‘ander’ que significa ‘outro’,
traduzida para o português por ‘alteração’, que aponta no mesmo sentido,
dado que vem do latim ‘alter’, que significa ‘outro’[lxi],
portanto, alteração quer dizer ‘tornar-se outro’. Assim, a alteração de
que fala o texto, tanto na tradução de Meneses quanto no original alemão,
trata-se de um tornar-se outro pela da meditação. Inicialmente o
Universal ativo depara-se com um outro-de-si na forma sensível ou como
uma representação, o objeto em geral, e ao tornar esse objeto outro, ele
encontra a si mesmo. Ou seja, avançou de uma forma inferior sua até uma forma
mais desenvolvida, sua forma pura, a forma do Universal. O conteúdo universal
continua o mesmo, mas a forma na qual se apresentava é alterada, aquela forma
inicial é imediata e a forma desenvolvida, necessariamente, só é atingida por
uma mediação. A verdade do objeto, o Universal, não é encontrada, ou melhor,
não se mostra de modo imediato à consciência; a verdade é o resultado de uma
mediação produzida pela meditação, a verdade é uma alteração, e como o
resultado dessa alteração é o próprio Universal, na verdade, pela meditação
ele torna-se o outro de seu outro.
Entretanto,
a velha representação de que o pensar é uma faculdade subjetiva entra em
confronto com a afirmação de que a meditação traz a verdade dos objetos à
consciência mediante uma alteração dos mesmos. Nessa alteração o Universal
ativo encontra a si mesmo como resultado, e passa a ter consciência de que é
sujeito e objeto de si mesmo, alcançando a consciência-de-si. Primeiro,
o conhecimento pressupõe que se capte o objeto como ele é, sendo seu interior
algo que permanece, portanto nesse ponto de vista o objeto não pode ser
alterado para ser conhecido, sob o risco de perdê-lo. Para o entendimento é
algo contraditório alterar o objeto ao conhecê-lo, pois desse modo o que se
conhece passa a ser outra coisa do que aquilo que se pretendia no início. Também
para a Filosofia, no caso a kantiana, isso se apresentou como um problema,
resolvido pela oposição entre o em-si das coisas, tido como incognoscível,
e aquilo que o pensamento encontrava nelas pela meditação.
A Metafísica
tradicional acreditou sem hesitar no acesso à verdade pela meditação,
entretanto, por determinar de modo acrítico essa verdade, na modernidade surgiu
a dúvida a respeito da objetividade daquilo que ela apreendia. A Metafísica pré-kantiana,
denominada por Hegel como uma posição ingênua, não desenvolvia criticamente
o seu ponto de vista em torno do conhecimento a priori acerca dos objetos em geral ou das coisas em si; pois,
simplesmente o tomava como dado. Quando da negação do objeto dado na experiência,
como conseqüência da meditação que o altera, a crítica moderna aí se
justificava precisamente pela aparente perda do objeto com o qual se trabalhava,
o que contraria as leis estabelecidas sobre o conhecer, pelas quais, pelo menos
nas ciências empíricas, o objeto deve ser isolado para que mantenha certa
regularidade e apresente algo estável, leis subjacentes que o regem[lxii].
Assim, tendo como foco esses problemas, em Kant, a filosofia voltou-se para a
forma do conhecimento e para as suas condições de possibilidade; buscou-se
conhecer o conhecer, e foi levada a termo a separação do objeto em: o
que conhecemos da coisa – para-nós – e o que ela é nela
mesma – em-si – como completamente distintos[lxiii].
O problema, portanto, se encontrava justamente naquela subjetividade atribuída
pela crítica, ao conhecimento e à verdade, já que esta, para ser o que
é, acreditava corresponder ao objetivo e universal, e não à convicção de um
indivíduo. Enquanto a crítica se resigna à limitação do conhecimento como
algo apenas subjetivo – no qual está em jogo apenas a forma do
conhecer, um conhecer através das categorias contidas no sujeito que conforma o
objeto, isto é, o sujeito transcendental – a consciência em geral, porém, não
se satisfaz nessa posição, pois o verdadeiro que ela busca não é algo
subjetivo, mas sim objetivo. Portanto, se o conhecer é acerca do Universal não
pode se fundamentar apenas no sujeito, como resultaria da posição crítica[lxiv],
mas deve estar fundado no próprio Universal, e para isso precisa voltar-se para
a sua atividade legítima, a meditação[lxv].
O fato de a
meditação trazer à consciência os pensamentos como tais[lxvi]
refere-se à sua determinação como um pensar superveniente, e é necessário
que um pensar que reflete se desdobre em um pensar superveniente,
haja vista que se o primeiro – o pensar que reflete – é um pensar
autônomo e independente de nossa subjetividade, e se nós somos humanos pelo
pensar e há pensar em toda realização humana, nós pensamos apenas devido ao
fato de que esse pensar autônomo – o Universal ativo – sobrevém a nós.
Quando nós pensamos é na verdade o próprio pensar pensando-se a si próprio
em nós, em seu movimento sobrevindo a nós; por conseguinte, reconhecendo-se a
si mesmo em nós, em nos elevando a ele, elevando-se a si mesmo.
Além do
exposto, se o que surge na meditação é um produto de nosso pensar[lxvii],
aí está a referência ao Eu particularizado como eu empírico
que se volta a si mesmo pela meditação e que é o próprio Universal ativo,
enquanto um pensar que reflete e enquanto um pensar superveniente.
Entretanto, para que o Eu se realize enquanto tal, ou seja, para que
alcance a consciência-de-si e, portanto, a liberdade, para que o Universal
ativo saiba-se como sujeito e objeto, não basta uma atitude meramente
particular; a qual, por ter como característica a particularidade, não
acede ao universal em si e para si, ao Universal ativo. O sujeito
finito, por si só, não alcança o universal verdadeiro porque se detém no
particular, se detém na oposição entre as determinações finitas, que, por
serem limitadas umas pelas outras, não podem corresponder ao verdadeiro – a
verdade é ilimitada, infinita[lxviii]
(no sentido de que não é limitada por algo que é outro ao seu lado).
Porém, se a consciência avança, através da meditação, a partir da
representação, acede ao interior das formas e pode expressá-lo em uma forma
que lhe é própria, a forma do puro pensar, e além disso pode desenvolver a
forma do pensamento em sua determinação propriamente conceitual. Enquanto o
interior do objeto é encontrado e produzido pelo pensar, esse interior é
pensamento e o em si do objeto corresponde ao pensamento, pois “o
objeto em geral, o que ele é em si, é tal como enquanto algo pensado”[lxix].
Toda essa
atividade e verdade do pensar como Universal ativo deve ser levada a termo no
Conceito, que suprassume a oposição, dada na consciência em geral pela
representação, entre sujeito e objeto; essas limitações são superadas pelo
próprio Universal e postas apenas no lugar que lhes corresponde: como
momentos do todo. A Filosofia deve, de modo elaborado e desenvolvido, expressar,
porque o contém, esse movimento e verdade das formas do pensar que sempre
existiu e esteve presente à consciência de modo imediato e que, desenvolvido,
é o próprio Universal ativo elevado à consciência-de-si e à liberdade.
V.
O Universal ativo expresso como Eu
puro
Depois de
mostrarmos que o Universal ativo em seu movimento em direção a si mesmo passa
necessariamente pela mediação da meditação, – determinação
segundo a qual o Universal se ocupa apenas com pensamentos enquanto tais –
procuraremos afirmar aqui que a verdadeira natureza da coisa, que é
trazida à consciência pela meditação, é um produto do Eu em sua
liberdade. Pretendemos tematizar a afirmação segundo a qual o sujeito que
pensa é o próprio pensamento, o Universal ativo; bem como que o sujeito empírico,
por sua vez, só é sujeito quando paradoxalmente não o é, ou seja, quando se
eleva de suas particularidades e abandona-se ao puro e livre pensar. Esse produz
a natureza das coisas enquanto livre de todas as determinações particulares do
sujeito empírico, ou seja, somente junto a si mesmo. Pois aquela atividade tida
como apenas subjetiva não só encontra a verdade dos objetos como a produz, e
nessa produção reside a verdadeira liberdade do Eu. Finalmente pretendemos
apresentar, como conseqüência do exposto acima, que os pensamentos são o
objetivo verdadeiro, além disso, que tais pensamentos são o verdadeiro objeto
da Filosofia. Assim, para iniciarmos, acompanhemos o § 23 da Enciclopédia:
δ) Enquanto na meditação tanto vem à luz a verdadeira natureza
como esse pensar é minha atividade, assim também essa natureza é
igualmente o produto do meu espírito, e sem dúvida como sujeito
pensante; produto de mim segundo minha universalidade simples, enquanto
Eu absolutamente essente junto a si – ou seja, de minha liberdade.[lxx]
Até o
momento acompanhamos a atividade do Universal e encontramos alguns problemas
imputados a ela. Por exemplo, o fato de ela alcançar a verdadeira natureza do
objeto, no momento da meditação, por intermédio de uma alteração. O que
apresenta dois problemas, a saber, o primeiro se dá quando ela altera o objeto
para conhecê-lo, dado que comumente exige-se do conhecer que capte o objeto tal
como ele é, ao invés de alterá-lo, pois isso traria a conhecer outra
coisa que aquilo que se visava, ou seja, não pode ser encontrado nele outra
coisa que ele próprio. Entretanto, esse problema foi resolvido no capítulo
anterior ao demonstrar-se que a alteração é um tornar-se outro e como
as determinações do sensível e da representação são o outro do Universal,
são seus momentos particulares, o Universal, na meditação, toma seu outro e o
altera, tornando-se o outro de seu outro, o que resulta nele mesmo num momento
mais elevado, como Universal. Porém, resta ainda um problema, o fato de que o
Universal apresentou-se até as presentes determinações como algo ainda
subjetivo, e a verdade é o objetivo, portanto resta demonstrar como uma
atividade determinada até aqui como subjetiva alcança e traz à consciência o
objetivo.
Ao expressar
que na meditação vem à luz a verdadeira natureza do objeto, Hegel apresenta
por essa analogia o fato do Universal ativo conceber essa verdade. O interior do
objeto, o universal, é um resultado da atividade do próprio Universal e,
portanto, já está contido nas formas anteriores ao Universal descoberto
enquanto tal. No § 19 Hegel afirma que o pensar dá a si suas determinações
e leis próprias “e não que já tem e encontra em si mesmo”. Ou
seja, a verdade é uma concepção, é um produto da atividade do pensar, que é
o Universal ativo, pois ao trazer à luz da consciência a verdade pela meditação,
o Universal está produzindo-a, ou seja, está produzindo a si próprio. Assim o
universal abstraído das coisas é um resultado do movimento do próprio
Universal enquanto ativo, como dissemos anteriormente[lxxi].
O Universal apresenta-se como coisas particulares e ao manifestar-se em nós
depara-se com essas particularidades como se fossem outra coisa que ele mesmo e
meditando a partir delas, em elevando-as bem como a nós mesmos a si,
encontra-se a si próprio. Segundo Hegel, por isso no pensar reside a verdadeira
liberdade, pois é nessa atividade que o Universal está livre das
particularidades e ocupado apenas consigo mesmo, dado que ele é o pensar
propriamente dito.
Pela meditação
vem à luz da consciência a verdadeira natureza do objeto, pois a meditação
traz à consciência pensamentos como tais. Voltando à analogia entre ‘dar à
luz’ e ‘concepção’ encontramos que o Universal concebe a si próprio e,
pela meditação, traz à luz da consciência aquilo que concebeu. Sendo que a
verdadeira natureza é encontrada pelo pensar e, portanto, é produto desse
pensar, ela também é pensamento. Assim, como o pensar é o Universal ativo e o
pensamento é o universal produzido, o Universal é a verdadeira natureza da
coisa, natureza gerada pelo próprio Universal. Vale lembrar aqui o § 20 da Enciclopédia,
onde se afirma que o Universal ativo expresso como pensante é o Eu; o Eu,
portanto, expressa essa atividade do Universal enquanto sujeito, entretanto,
expressa a atividade mesma quando o Eu supera as meras abstrações e
apresenta-se de modo inteiramente abstrato – abstraindo-se das abstrações,
torna-se concreto. Para tanto é necessário que o eu particular se abstraia de
toda e qualquer particularidade, ou seja, voltando-se para o Universal ativo,
tornando-se Eu livre. A verdade é produto da liberdade do Eu puro, pois é
somente detido nele mesmo que o Eu encontra a si como Universal, verdade da coisa.
Enquanto preso às particularidades o Eu não alcança o Universal ativo, pois
fica imerso nas aparências e representações que, apesar de universais, não
se apresentam à consciência como tais. O sujeito deve, para tanto, abandonar
as opiniões particulares, deve superar a esfera da doxa (opinião), na
palavra de Platão, e mover-se na esfera da episteme (ciência). Se de um
lado a atividade do Eu puro é o que há de mais elevado e nobre, de outro a
contrapartida do sujeito é a elevação à mesma, dado que é de certo modo
apenas pelo seu despojar-se daquelas particularidades que o Eu se põe enquanto
puro. É necessário que os fins finitos sejam suprassumidos para que o infinito
se apresente enquanto Universal ativo, atividade voltada para o Um, livre em si
e para si mesmo.
Assim, as dificuldades que se apresentavam ao pensar, tais como sobre a sua possibilidade em encontrar a verdade das coisas, foram resolvidas quando Hegel o apresenta como o próprio Universal que em sua atividade produz a si mesmo. Portanto, além de produzir a verdade vemos aqui que esta é resultado e não algo anterior àquela atividade Universal. Sendo o Universal sujeito de sua atividade, na qual o seu objeto é ele mesmo, ele apresenta-se como o verdadeiro Eu, que alcança a sua verdade quando está inteiramente livre dentro de si, ocupado apenas consigo mesmo, elevado acima das particularidades fenomenais.
Portanto, o
resultado da meditação não pode ser considerado algo meramente subjetivo,
dado que a natureza da coisa é produto do Universal ativo. No § 24 Hegel
apresenta a relação entre forma e conteúdo, ao afirmar que
entre os pensamentos objetivos deve “contar-se também as formas que primeiro
são estudadas na Lógica ordinária”. Ou seja, as formas lógicas pelas quais
o conteúdo é apreendido pela consciência são também pensamentos, pois a
forma, como dissemos[lxxii], é o próprio conteúdo
em momentos inferiores de sua auto-produção. Na Anotação ao § 24, Hegel
adverte que “enquanto o pensamento procura fazer das coisas um conceito,
esse conceito (...) não pode consistir em determinações e relações que
sejam estranhas e exteriores às coisas”. Quer dizer, um conceito não deve
limitar-se a uma forma exterior à Coisa, mas necessita suprassumir essa oposição
entre forma e conteúdo, pois na Coisa ambos estão contidos. Hegel afirma ainda
que a Lógica coincide com a Metafísica, a ciência que se ocupa com o conteúdo
das coisas. Segundo o autor, a Metafísica é a ciência das coisas
apreendidas no pensamento, ou seja, é a ciência do conteúdo do pensar,
um conteúdo tido também como a expressão da essência dos objetos. Dado que,
num momento mais elevado, a forma e o conteúdo são um e o mesmo, a Lógica e a
Metafísica também o são.
Entretanto,
quando afirmamos que os pensamentos são objetivos ou que a razão rege o mundo,
pode parecer contraditório dado que pensamentos são representados comumente
como algo meramente subjetivo, abstrato, em oposição fixa e intransponível
perante o objetivo, tido como concreto, material e externo. Como conseqüência
do exposto até o momento, acerca do sensível e das representações
demonstradas como determinações universais, portanto como pensamentos; podemos
afirmar que a realidade externa e interna é pensamento, que a verdadeira
atividade motora da realidade é o pensar, demonstrado como Universal ativo. No
entanto, tal afirmação provoca reações, posto que os objetos externos são
tomados como opostos ao pensar, considerado subjetivo e exclusivo ao ser humano.
Para dirimir essa aparente confusão Hegel propõe o uso da expressão ‘determinação
de pensamento’, pois as coisas não são pensamentos independentes e
separados, movendo-se a si próprios, mas são produtos, são determinações do
pensar, do Universal ativo. Como exemplos que corroboram essas afirmações, o
autor cita o nous dos gregos, a inteligência ou espírito[lxxiii]
que rege o mundo, ou ainda a crença habitual de que há razão no mundo. Depois
disso, retoma a explanação do Universal encontrado nas coisas tal como a
determinação dos animais como animais, afirmando que o animal enquanto
tal, o gênero, nós não o encontramos em nossas experiências cotidianas, esse
é algo apenas pensado, entretanto sem aquele Universal um animal singular não
pode ser dito naquilo que ele é. Ou seja, seu ser depende dessa essência.
Além disso, Hegel observa que o universal das coisas particulares não deve ser
apreendido como algo que apenas lhes é comum, mas sim como aquilo que lhes é
permanente, aquilo que fica enquanto os objetos singulares se corrompem.
O Universal
não é apenas a substância dos objetos exteriores, mas também das coisas
interiores e espirituais, dado que tudo o que é humano é permeado pelo pensar,
assim também os objetos interiores são perpassados pelo Universal ativo. Foi
dito anteriormente que modos da consciência tais como sensação, intuição,
representação, vontade etc., são momentos do próprio pensar, são perfeitos
pelo Universal em sua atividade auto-producente. O Universal possui um aspecto
subjetivo no sentido de que é sujeito de sua atividade, expresso como pensante
ou como Eu; e essa subjetividade se dá no ser humano, um universal que tem para
si outro universal enquanto assim toma os objetos que se lhe apresentam e
que, assim se perfaz como pensar e, mais precisamente, como Eu[lxxiv].
Desse modo o Universal, enquanto sujeito, Eu, tem para si como objeto o
Universal; mostrando-se assim como sujeito e objeto de si mesmo. No animal isso
não ocorre, pois esse se relaciona com a realidade apenas singularmente – este
alimento, este abrigo etc. – e mesmo sendo um universal, o animal não
tem como objetos os universais tais quais os têm o ser humano. Segundo Hegel,
“só o homem se duplica de modo a ser o universal para o universal”[lxxv].
Portanto,
dado que o Universal ativo é o sujeito da atividade que produz a verdade, que
produz o Universal, enquanto Eu, e que tem a si mesmo como objeto e produto, então
o universal apresenta-se como objetivo, e assim podemos afirmar que os
pensamentos são objetivos e não algo meramente subjetivo e produto de um
sujeito empírico. Dado que um pensamento subjetivo e finito não corresponde à
verdade, se o pensar só alcançasse pensamentos finitos não sobreviria a ele a
verdade. Tal pensamento finito estaria ainda preso às oposições tanto de suas
determinações entre si, como para com a verdade ou o objeto absoluto da
Filosofia[lxxvi]. Assim, se a Filosofia
tem por meta a verdade, seus objetos devem ser pensamentos objetivos.
Apresentamos
nesse artigo as principais determinações do pensar desde sua representação
como uma mera faculdade subjetiva, passando pela sua determinação como Universal
ativo em seu processo de auto-produção, até a meditação (Nachdenken),
na qual o Universal ocupa-se apenas com pensamentos enquanto tais, ou seja,
enquanto ocupa-se apenas consigo mesmo. Neste sentido, como é papel da
Filosofia trazer à luz da consciência as determinações mais precisas em
torno do Universal ativo, buscamos explicitar de modo mais completo a mediação
entre a representação ordinária sobre o pensar e o seu conceito, mostrando os
momentos legítimos do Universal; mais precisamente, no momento da meditação,
o seu comportar-se como pensar-que-reflete e pensar superveniente.
Com isso, vimos que a meditação altera o objeto de modo que nela o
Universal se produz a si mesmo e, nessa atividade, traz esse resultado à consciência
que, para aceder a ele, deve comportar-se como um Eu puro e livre de qualquer
particularidade, o que expressa o Universal ativo como sujeito. Assim, pudemos
mostrar que o ser humano, em essência, é pensar, e, mais propriamente, sendo o
Universal sujeito de sua atividade, sendo Eu, que o ser humano apresenta-se como
uma particularização desse Eu universal. Isso porque o Eu apresenta-se como
expressão do puro pensar ou Universal ativo enquanto sujeito, enquanto
pensante, e como aquele permeia todas as determinações particulares e modos da
consciência, sensações, representações, vontades etc., também o Universal
em tudo está presente.
Ora, como
vimos, o que rege e permeia o particular é o Universal, logo ele é o
determinado-dentro-de-si, o que há de firme frente à contingência. Ao
abstrairmos do universal meramente abstrato o que nele permanece, deparamo-nos
com o puro pensamento, ou seja, com o Universal ativo, portanto, o que parece
uma verdade externa ao objeto deixa de sê-lo, dado que desde as formas
inferiores do sensível e da representação encontramos universalidade; e o
movimento interior do puro pensar é sempre um movimento interior rumo a si
mesmo e ocupado apenas consigo mesmo, pois o Universal ativo busca determinar-se
dentro de si. Além do exposto, se o que surge na meditação é um produto
de nosso pensar, aí está a referência ao Eu particularizado como eu
empírico que se volta a si mesmo pela meditação e que é o próprio
Universal ativo, enquanto um pensar que reflete e enquanto um pensar
superveniente. Entretanto, para que o Eu se realize enquanto tal, ou
seja, para que alcance a consciência-de-si e, portanto, a liberdade, para que o
Universal ativo saiba-se a um só tempo como sujeito e objeto, não basta uma
atitude meramente particular; a qual, por ter como característica a particularidade,
não acede ao universal em si e para si, ao Universal ativo. O
sujeito finito, por si só, não alcança o universal verdadeiro porque se detém
no particular, se detém na oposição entre as determinações finitas, que,
por serem limitadas umas pelas outras, não podem corresponder ao verdadeiro –
a verdade é ilimitada, infinita (no sentido de que não é limitada por algo
que é outro ao seu lado). Porém, se a consciência avança, através da
meditação, a partir da representação, acede ao interior das formas e pode
expressá-lo em uma forma que lhe é própria, a forma do puro pensar, e além
disso pode desenvolver a forma do pensamento em suas determinações
propriamente conceituais. Enquanto o interior do objeto é encontrado e
produzido pelo pensar, esse interior é pensamento e o em si do objeto
corresponde ao pensamento, pois o que o objeto é em si, é tal como enquanto
algo pensado.
Toda essa
atividade e verdade do pensar como Universal ativo deve ser levada a termo no
Conceito, que suprassume a oposição, dada na consciência em geral pela
representação, entre sujeito e objeto; essas limitações são superadas pelo
próprio Universal e postas apenas no lugar que lhes corresponde: como
momentos do todo. A Filosofia deve, de modo elaborado e desenvolvido, expressar,
porque os contêm, esse movimento e verdade das formas do pensar que sempre
existiu e esteve presente à consciência de modo imediato e que, desenvolvido,
é o próprio Universal ativo elevado à consciência-de-si. Portanto, dado que
o Universal ativo é o sujeito da atividade que produz a verdade, que produz o
Universal enquanto Eu, e que tem a si mesmo por objeto e produto, então o
universal apresenta-se como objetivo, e assim podemos afirmar que os pensamentos
são objetivos. Assim, se a Filosofia tem por meta a verdade, seus objetos devem
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MORA, José Ferrater. Dicionário
de Filosofia. Trad. Roberto Leal Ferreira, Álvaro Cabral. 4ª ed. São
Paulo: Martins Fontes, 2001.
PLATÃO. Parmênides. Texto estabelecido e anotado por John Burnet. Tradução,
apresentação e notas de Maura Iglésias e Fernando Rodrigues. Rio de Janeiro:
PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2003.
PROCLOS.
Éléments de théologie. Trad. Jean
Trouillard, Paris: Aubier-Montaigne, 1965.
SILVA,
M. M. O problema da Fundação especulativa do Especulativo
puro no Sistema de Hegel e a determinação especulativa dos Princípios
motores da Lógica especulativa, in: Revista
Eletrônica Estudos Hegelianos, Recife/PE, v. 02, n. 03, (2005): URL = <http://www.hegelbrasil.org/rev03e.htm>.
Endereço dos Autores:
E-mail: splefa@yahoo.com.br
Seminário Permanente Lógica Especulativa e Filosofia do Absoluto
Departamento de Filosofia – UNICENTRO/PR
Rua Presidente Zacarias, 875 – Cx. Postal 3010
85015-430 – Guarapuava/PR
[i] Esse texto apresenta alguns resultados das investigações levadas a cabo no âmbito do SPLEFA – Seminário Permanente Lógica Especulativa e Filosofia do Absoluto, de Guarapuava/PR –, nos quadros do GPI “Dialética, Metafísica e Fenomenologia”. Uma versão preliminar do mesmo foi inicialmente apresentada como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) por Ricardo Wuicik, em outubro de 2006, junto ao Departamento de Filosofia da UNICENTRO/PR, sob orientação do prof. Drndo. Manuel Moreira da Silva.
[ii] A expressão ‘conceito do Universal ativo’ possui a preposição acrescida do artigo, pois tem aqui um objetivo determinado: explicitar o genitivo subjetivo do conceito do Universal ativo, dado que o conceito em questão é o resultado do movimento do próprio Universal; portanto seu conceito é ele mesmo como resultado de sua própria atividade.
[iii] Utilizaremos aqui a edição crítica de Wolfgang Bonsiepen und Hans-Christian Lucas (Hamburg: Felix Meiner, 1992) [GW 20] e a versão brasileira de Paulo Meneses e José Machado (São Paulo: Loyola, 1995), de ora avante referida pela inicial ‘E’, seguida de ‘§§’, para os parágrafos correspondentes, e, quando for o caso, de ‘A’, para a respectiva Anotação (Anmerkung); ‘Ad.’ refere-se ao adendo (Zusatz) do “§” em questão; quando se tratar dos prefácios, os mesmos serão citados após a inicial ‘E’, seguidos do ano e a página da edição indicada. Também nos valeremos da edição de Hermann Glockner (Stuttgart: Frommanns Verlag, 1955) [SW 8-10].
[iv] A tradução do vocábulo alemão Nachdenken por meditação será justificada no ponto correspondente ao seu conceito, a saber, o intitulado como O Universal ativo e as determinações fundamentais da meditação.
[v] Ver, E., § 1.
[vi] Ver, por exemplo, HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do espírito. Trad. Paulo Meneses. 7ª ed. rev. Petrópolis, RJ: Vozes: Bragança Paulista: USF, 2002, § 5 ss. [Citado conforme paragrafação proposta pelo tradutor].
[vii]
E., § 19.
[viii]
Cf. E., §19, Ad. 3.
[ix] Ver KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Valerio Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Abril Cultural, 1980, passim. Texto citado de ora avante segundo a paginação original da edição B, de 1787.
[x] Ver, mais abaixo, sobre a determinação da representação.
[xi] HUME, David. Da origem das idéias, § 1, Seção II. In: Investigação acerca do entendimento humano. Trad. Anoar Aiex. São Paulo: Nacional, 1972.
[xii] No original: “Nehmen wir das Denken in seiner am nächsten liegenden Vorstellung auf, so erscheint es α) zunächst in seiner gewöhnlichen subjectiven Bedeutung, als eine der geistigen Thätigkeiten oder Vermögen neben andern, der Sinnlichkeit, Anschauen, Phantasie u.s.f., Begehren, Wollen u.s.f. Das Product desselben, die Bestimmtheit oder Form des Gedankens, ist das Allgemeine, Abstracte überhaupt. Das Denken als die Thätigkeit, ist somit das thätige Allgemeine, und zwar das sich bethätigende, indem die That, das Hervorgebrachte, eben das Allgemeine ist. Das Denken als Subject vorgestellt ist Denkendes, und der einfache Ausdruck des existirenden Subjects als Denkenden ist Ich.” (E., § 20).
[xiii] KOEHLER, Pe. H. Dicionário Escolar Latino-Português. 2ª ed. Porto Alegre: Globo, 1936.
[xiv] Tradução ao alemão ‘Allgemeine’.
[xv] INWOOD, Michael. Dicionário Hegel. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p. 313.
[xvi] Para uma abordagem inaugural da Henologia (Ciência do Um) pode recorrer-se ao texto platônico Parmênides e, mais precisamente, aos Éléments de théologie de Proclos. Entretanto, não se afirma, aqui, que Hegel ocupou-se conscientemente de tal ciência em seus limites epistêmicos e em seu alcance especulativo fundamentais.
[xvii] Ver, HEGEL, G. W. F. Wissenschaft der Logik. Erster Band: Die objektive Logik (1812/1813), herausgegeben von Friedrich Hogemann und Walter Jaeschke. Hamburg: Felix Meiner, 1978, GW, Band 12, p. 370 ss.
[xviii] Ver a respeito E., § 447, A.
[xix]
Cf. E., § 19, Ad. 2.
[xx]
Cf. E., § 20, Ad.
[xxi] Vale lembrar a afirmação de Kant de que os objetos em si mesmos são impossíveis de serem conhecidos por nós, ou seja, o seu conteúdo permanece-nos desconhecido e a forma na qual ele nos aparece é dada por uma faculdade nossa. Cisão a qual Hegel busca resolver. Ver KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura, op. cit., principalmente pp. XIX-XXI.
[xxii] Diferentemente de Coisa, tradução do vocábulo alemão Sache, que tem o sentido da efetividade, daquilo que importa, coisa (Ding) refere-se a objetos ou formas particulares e transitórias em geral.
[xxiii] Cf. E., § 20, A.
[xxiv] Deve ser lembrada a forte crença em que o sensível – ou mais especificamente o que é externo – é o que há de mais ou unicamente concreto, em oposição a tudo o que é interno: representações, desejos, pensamentos, etc.
[xxv] E., § 20, A.
[xxvi] Cf. E., § 20, A.
[xxvii] Em seu artigo intitulado The Active Universal (Das thätige Allgemeine), John N. Findlay afirma que, para Hegel, um conceito universal não é o conceito de alguma coisa específica, mas sim a pura Universalidade de si-mesmo, a universalidade de todos os universais específicos: “If we now turn to Hegel we find, in like manner, a universal Begriff which is not the Begriff of anything specific: it is pure Universality it-self, the universality of all specific universals” (p. 401). FINDLAY, John N. The Active Universal (Das thätige Allgemeine). In: HENRICH, D. (HRSG.). Kant oder Hegel?, Stuttgarter Hegel-Kongress (1981). Stuttgart: Klett – Cotta, 1983, pp. 398-407. De onde podermos acrescentar que o mesmo é sobreuto Conceito livre (Cf. E., § 160 ss.).
[xxviii]
E., § 20.
[xxix]
Cf. E., § 20, mais A.
[xxx]
Cf. E., § 22, Ad.
[xxxi] O termo ‘coisa’ (Ding) refere-se aqui a objetos ou formas particulares e transitórias em geral. Ver INWOOD, Michael. Dicionário Hegel. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, pp. 70-72.
[xxxii] E., § 2, A.
[xxxiii]
“β) Indem Denken als thätig in Beziehung auf Gegenstände genommen wird, –
das Nachdenken über Etwas, so enthält das Allgemeine als
solches Product seiner Thätigkeit den Werth der Sache, das Wesentliche,
das Innere, das Wahre.” (E., § 21) (grifo nosso). A versão
de Paulo Meneses (E., p. 73, §
21) traduz: “β) Enquanto o pensar é tomado como ativo em relação
a objetos – a reflexão sobre algo – o universal, enquanto
é um produto dessa atividade, contém o valor da Coisa: o essencial,
o interior, o verdadeiro.” (grifo
nosso).
[xxxiv] “Die durchs Nachdenken erzeugten Gedanken über jene weisen des Bewußtseyns, sind das, worunter Reflexion, Raisonnement und dergleichen, dann auch die Philosophie begriffen ist.” (E., § 2, A.) (grifo nosso). Na tradução de P. Meneses (E., p. 41, § 2, A.): “Os pensamentos sobre esses modos da consciência, produzidos pela meditação, são aquilo sob o qual estão compreendidos a reflexão, o raciocínio e coisas semelhantes; e, depois, também a filosofia.” (grifo nosso).
[xxxv]
No original: “der farblosen Beschäftigung des in sich gekehrten Geistes
mit sich selbst”. Ver, HEGEL, G. W. F. Wissenschaft der Logik.
Erster Band: Die objektive Logik (1812/1813), op. cit., p. 6.
[xxxvi] Sobre isso, veja-se: SILVA, M. M. O problema da Fundação especulativa do Especulativo puro no Sistema de Hegel e a determinação especulativa dos Princípios motores da Lógica especulativa, in: Revista Eletrônica Estudos Hegelianos, Recife/PE, v. 02, n. 03, (2005): URL = <http://www.hegelbrasil.org/rev03e.htm>, seção II, sobretudo, nota 18 (versão em PDF, p. 4; nota às pp. 12-13).
[xxxvii] No original: “β) Indem Denken als thätig in Beziehung auf Gegenstände genommen wird, - das Nachdenken über Etwas, so enthält das Allgemeine als solches Product seiner Thätigkeit den Werth der Sache, das Wesentliche, das Innere, das Wahre.” (E., § 21).
[xxxviii] Ainda que em outro registro, Vittorio Hösle também destaca a determinação do pensar como atividade e não simplesmente receptividade: “il pensiero non è recettività, ma attività, esso ha un aspetto di spontaneità”. HÖSLE, Vittorio. Hegel e la fondazione dell’idealismo oggetivo. Traduzione dal tedesco e cura di Giovanni Stelli. Milano: Guerini e Associati, 1991, pp. 113-114.
[xxxix] A consciência (Bewußtseyn) refere-se, aqui, ao momento em que o sujeito sabe do objeto como de algo oposto a ele, ou seja, tem consciência que há um outro dele distinto, mas não já de si mesmo como o próprio si que em cada caso está em jogo. Movimento análogo encontra-se na Fenomenologia do espírito, mais especificamente em sua primeira seção: (A) Consciência.
[xl]
Cf. E., § 2, A.
[xli]
E., § 2, A.
[xlii]
E., § 2, A.
[xliii] No original (GW 20): “Denn das Factum der Philosophie ist die schon zubereitete Erkenntniß und das Auffassen wäre hiemit nur ein Nachdenken in dem Sinne eines nachfolgenden Denkens; erst das Beurtheilen erforderte ein Nachdenken in der gewöhnlichen Bedeutung.” Vorrede zur zweiten Ausgabe, pp. VIII-IX.
[xliv] Aqui o Universal é tido como uma forma abstrata em geral e não como o movimento do pensar, que é o Universal propriamente dito, o Universal ativo.
[xlv] E., § 21.
[xlvi] Especialmente a de Christian Wolff (1679-1754). Sobre o procedimento ingênuo a respeito do pensar, deve-se ver os §§ 26-36 da Enciclopédia.